OS STONES SOB LENTES SATÂNICAS: A CONSTRUÇÃO DE UM MITO VISUAL NOS ANOS 60
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Os Stones sob lentes satânicas: a construção de um mito visual nos anos 60
Entre 1964 e 1967, enquanto o rock deixava de ser apenas som para se tornar linguagem de comportamento, uma geração de fotógrafos britânicos redefinia a forma de ver – e de sonhar – a juventude. Foi pelas lentes de David Bailey, Gered Mankowitz, Michael Cooper e outros nomes que os Rolling Stones deixaram de ser uma banda rebelde de rhythm and blues para se converter em símbolo estético de uma era.
Esses fotógrafos não apenas documentaram a banda – eles a inventaram visualmente. Bailey deu rosto à insolência elegante do grupo na capa de Out of Our Heads (1965), alinhando-os à energia do Swinging London. Mankowitz, com seu olhar direto e empático, captou-os em estúdio e em trânsito, entre a exaustão e o riso, no instante anterior à fama total. Michael Cooper, mais experimental e próximo da cena psicodélica, mergulhou na teatralidade dos Stones, explorando cenários, distorções e cores que antecipavam o delírio de Their Satanic Majesties Request.
Enquanto isso, fora dos estúdios de moda e dos sets controlados, o dinamarquês Bent Rej seguia a banda pelas estradas da Europa, transformando bastidores e quartos de hotel em retratos íntimos de uma geração em movimento. E, no outro lado do Atlântico, Bob Bonis, o discreto road manager, acumulava um arquivo monumental – não com a intenção de fazer arte, mas de guardar memória. Suas imagens, feitas entre compromissos, aeroportos e palcos, acabariam se tornando um dos testemunhos mais humanos da primeira invasão britânica.
O resultado é um mosaico visual que transcende a música. Cada clique, cada olhar capturado, revela não apenas uma banda, mas o espírito de uma época que aprendeu a se ver refletida em preto e branco antes de sonhar em cores.
Gered Mankowitz – o confidente silencioso
Em 1965, Gered Mankowitz foi convidado por Andrew Loog Oldham para fotografar os Rolling Stones, tornando-se, nos dois anos seguintes, o fotógrafo oficial da banda. Sua primeira sessão forneceu imagens para o programa e publicidade da turnê norte-americana Satisfaction, para a capa do terceiro álbum Out of Our Heads (setembro de 1965) e para o compacto Get Off Of My Cloud (outubro de 1965).
O ano de 1967 marcou uma fase de rebeldia e experimentação. Em janeiro, a banda lançou Let’s Spend The Night Together, seguido pelo álbum Between the Buttons, cuja capa foi cuidadosamente produzida por Mankowitz, que deliberadamente criou uma neblina na imagem da banda, reforçando o clima psicodélico da época.

Primrose Hill, final de 1966.
Gered Mankowitz captura os Stones em uma névoa onírica, às 5h30 da manhã, após uma longa noite de gravação no estúdio. Imagens dessa sessão viraram capa de Between the Buttons, lançado em janeiro de 1967.
Início da cobertura
Começou a fotografar os Rolling Stones em 1965, após convite de Andrew Loog Oldham.
Locais fotografados
Estúdios de gravação em Londres.
Turnês na Europa e nos Estados Unidos.
Contribuições
Registrou momentos íntimos e espontâneos da banda, incluindo a famosa sessão em Primrose Hill (1966).
Fotografou sessões de gravação, como as do álbum Aftermath em Hollywood.
Capas de discos
Out of Our Heads
Between the Buttons
Publicações / Livros
Breaking Stones: 1963–1965
Rolling Stones (One on One)
Rock and Roll Photography
Goin' Home With the Rolling Stones '66 – oferece uma visão íntima da banda durante essa época.
Estilo
Conhecido por capturar a energia crua e a intimidade da banda.
Utilizava técnicas de iluminação suaves e composições naturais, revelando a personalidade de cada membro.

David Bailey – o estilista da rebeldia
Em 1961, para a edição de 15 de setembro da Vogue, David Bailey fotografou a modelo Jean Shrimpton ao lado de celebridades como The Temperance Seven. Junto com Brian Duffy e Terence Donovan, Bailey foi um dos fotógrafos que ajudou a capturar e definir o visual do Swinging London nos anos 1960, redefinindo não apenas a estética fotográfica, mas também o papel do fotógrafo na indústria.
Início da cobertura
Iniciou seu trabalho com os Rolling Stones em 1965, convidado por Andrew Loog Oldham, empresário da banda.
Locais fotografados
Estúdios de gravação em Londres.
Turnês pela Europa e pelos Estados Unidos.
Contribuições
Registrou momentos icônicos da banda, incluindo a sessão em Avebury Hill (1968) e o retrato memorável de Mick Jagger com um capô de pele.
Suas fotos capturavam a energia crua e a autenticidade dos Stones, muitas vezes com fundos simples e iluminação dramática.
Estilo
Conhecido por seu estilo ousado e direto, Bailey tinha a capacidade de capturar a essência e o caráter da banda, transformando momentos simples em imagens icônicas.
Capas de discos
Autor da capa icônica do álbum Out of Our Heads (1965), uma das imagens mais lembradas da fase inicial da banda.
Fotos amplamente usadas em materiais promocionais e publicações.

Sessão de fotos psicodélica dos Rolling Stones em 1967 e a visão de Michael Cooper Inspirados pelo álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, da psicodelia variada dos Beatles, os Rolling Stones começaram uma viagem musical alucinógena semelhante em 1967. Logo depois do (também psicodélico) Between the Buttons, como resultado, os Stones lançaram Their Satanic Majesties Request, um álbum que recebeu críticas mistas no início, mas que posteriormente cresceu e passou a ser considerado um componente importante de seu corpo de trabalho ao longo dos anos.
Michael Cooper – o alquimista visual
Início da cobertura
Começou a fotografar os Rolling Stones em 1963, desenvolvendo rapidamente uma amizade próxima com a banda.
Locais fotografados
Acompanhou os Stones em estúdios de gravação, incluindo sessões na França durante a gravação de Exile on Main St.
Também trabalhou com os Beatles, fotografando estúdios e sessões icônicas, como a capa de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band.
Contribuições
Registrou momentos pessoais e descontraídos dos Stones, capturando a intimidade e a espontaneidade da banda.
Sua abordagem permitia imagens naturais, longe de poses formais, revelando o caráter e a energia dos músicos.
Capas de discos
Their Satanic Majesties Request (1967) capa emblemática dos Rolling Stones
Sgt. Pepper's Lonely hearts Club Band (1967) – dos Beatles, uma das capas mais complexas e icônicas da história do rock.
Detalhes da capa de Sgt. Pepper
Sessão fotográfica realizada no estúdio de Cooper em Chelsea, em clima de intensa criatividade e “loucura”.
A capa incluía os Beatles com uniformes coloridos de cetim, desenhados pela artista Jann Haworth, contrastando com figuras de cera de uma encarnação anterior da banda.
Em primeiro plano, o nome “Beatles” estilizado com flores, acompanhado de diversos vasos que precisavam ser regados sob fortes luzes.
Ao fundo, uma colagem de cerca de 62 personalidades do panteão pop, que gerou discussões legais com a gravadora EMI. Alguns nomes foram removidos, enquanto Brian Epstein buscou autorizações individuais para todas as figuras.
Cooper transformou essa complexa montagem em uma das imagens mais memoráveis da história da música, unindo arte, humor e inovação visual.
Estilo
Cooper era conhecido por sua abordagem íntima e pessoal, capturando músicos em momentos naturais e descontraídos.
Seu trabalho equilibrava criatividade, narrativa visual e sensibilidade artística, transformando capas de discos em verdadeiras obras de arte.

Livro publicados
The Rolling Stones: A Retrospective, compilando suas imagens mais significativas da banda.
Outros fotógrafos

🎸 Terry O’Neill e os Rolling Stones
Documentação da banda nos anos 60 e 70
O’Neill capturou os Stones em momentos de bastidores, ensaios, turnês e sessões de estúdio.
Seu trabalho oferece um retrato íntimo e descontraído da banda, mostrando não apenas sua persona de rock stars, mas também momentos cotidianos e humanos.
Ele acompanhou turnês, incluindo shows em Londres e internacionais, registrando imagens que se tornaram históricas para os fãs da banda.
Estilo de fotografia
Terry O’Neill era famoso por usar luz natural, enquadramentos dinâmicos e composições espontâneas, evitando poses excessivamente formais.
Suas fotos capturam a energia rebelde e carisma individual dos integrantes, além da estética da década de 60, com roupas, cabelos e atitudes típicas do rock britânico.
Ele conseguia registrar momentos de descontração e humor, como Keith Richards e Mick Jagger brincando nos bastidores, ou cenas de viagem e relaxamento, que revelam o lado humano da banda.
Impacto e legado
As imagens de O’Neill ajudaram a construir a imagem pública dos Rolling Stones durante seu auge.
Seu trabalho é referência visual para documentários, livros e exposições sobre rock clássico.
Ele também fotografou outros músicos contemporâneos, como The Beatles, Elton John e Frank Sinatra, mas suas imagens dos Stones continuam entre as mais reconhecidas e evocativas da época.

Em 17 de janeiro de 1964, Terry O'Neill estava do lado de fora da Igreja de São Jorge, na Hanover Square, em Londres, com cinco jovens músicos tirando algumas de suas primeiras fotos em grupo. Mal sabia O'Neill que esse grupo viria a ser pioneiro e moldar o mundo do Rock'n'Roll, e que sua fotografia seria uma das mais icônicas do grupo em seus primeiros anos. No sentido horário, a partir do canto inferior esquerdo: Mick Jagger, Charlie Watts, Bill Wyman, Keith Richards e Brian Jones (1942-1969).

Jean-Marie Périer,
Mick Jagger, Paris, 1966, 1966
Jean-Marie Périer
• Acompanhou os Rolling Stones durante turnês na Europa e América do meio dos anos 1960.
• Capturava momentos espontâneos e pessoais da banda, mostrando intimidade e energia da vida na estrada.
• Fotografias incluídas em The Rolling Stones: Icons.

Ethan Russell
• Fotógrafo oficial durante a turnê nos EUA em 1969.
• Registrou shows, estúdios e momentos icônicos, incluindo o concerto de Altamont.
• Autor do livro Let It Bleed: The Rolling Stones, Altamont, and the End of the Sixties.

Frank Habicht
• Atuou em Londres nos anos 1960, fotografando shows e eventos culturais.
• Capturou a energia da cena londrina; imagens presentes no MoMA e em Young London: Permissive Paradise (1969).

Bent Rej – o cronista do instante
• Começou a fotografar os Rolling Stones em 1965 para o jornal dinamarquês Ekstra Bladet.
• Cobriu turnês europeias, bastidores e momentos íntimos da banda.
• Publicou The Rolling Stones In the Beginning; fotos exibidas internacionalmente.

Arquivo Fotográfico de Bob Bonis
• Publicações: The Lost Rolling Stones Photographs: The Bob Bonis Archive, 1964–1966 (2010).
• Bonis, gerente de turnê dos Rolling Stones e Beatles, registrou mais de 2.700 fotos da banda, com acesso privilegiado aos bastidores.
• Importância: fornece visão autêntica e íntima dos primeiros anos da banda, utilizadas em exposições, documentários e livros comemorativos.
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Conclusão: Entre o Instante e o Mito
O arquivo de Bob Bonis, embora nascido do acaso, é uma das janelas mais autênticas para os primeiros anos dos Rolling Stones nos Estados Unidos. Suas imagens preservam o frescor da juventude, o improviso e a vulnerabilidade de uma banda que ainda não sabia ser lenda — apenas vivia intensamente.
Já os fotógrafos britânicos — Bailey, Mankowitz, Cooper e Rej — transformaram essa vivência em linguagem visual. Suas lentes moldaram a identidade pública dos Stones: o rosto blasé, o terno desabotoado, o olhar desafiador, a sensualidade não ensaiada. Neles, a fotografia deixou de ser mero registro e tornou-se espelho de uma mitologia em formação.
Cada um deles teve um tipo de intimidade com a banda:
• Bailey, o estilista da rebeldia, que traduziu a arrogância juvenil em elegância urbana;
• Mankowitz, o confidente silencioso, cuja proximidade revelou o grupo por dentro;
• Cooper, o alquimista visual, que levou o experimentalismo à fronteira entre sonho e delírio;
• Rej, o cronista do instante, que via beleza no improviso e na pressa.
Juntos, criaram o retrato coletivo de uma geração que trocou a formalidade pelo gesto livre — e o palco pelo mito. Hoje, ao revisitar essas imagens, compreendemos que os Rolling Stones não apenas fizeram história: eles foram construídos por ela, moldados pelo olhar de quem soube transformar o caos em estética, e a rebeldia, em eternidade.

Foto: David Bailey