Álbum de fotografias: 'O Disco do Tênis' (1972)
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O Disco do Tênis por dentro
Estúdio, urgência e corpos em órbita (1972)
As duas fotografias dizem mais do que muitas entrevistas.
Elas mostram o interior do estúdio não como um templo técnico, mas como um quarto coletivo de invenção, onde os músicos estão próximos demais para a música não acontecer.

Foto: Jornal Nota
Clube da Esquina, 1972.
Antes de virar movimento, disco ou mito, era isso: músicos encostados uns nos outros, instrumentos no colo, nenhuma pose e nenhuma hierarquia. A música ainda não tinha nome — mas já tinha corpo.
Na primeira imagem — ainda em preto e branco — o grupo se comprime em torno de si mesmo. Não há pose de estrela, não há hierarquia visível. Instrumentos repousam nos corpos como extensões naturais: violão no colo, flauta apoiada, guitarra encostada na perna. É um retrato de convivência antes de ser um registro histórico.

Foto: Jukebox
Interior do estúdio Odeon, Rio de Janeiro, 1972.
Divisórias baixas, microfones suspensos e músicos tocando de frente, quase se atropelando. O som do Disco do Tênis nasce desse aperto: pouca separação física, muita escuta.
Na segunda foto, já em cores, o estúdio se revela como um organismo vivo. As divisórias baixas, os microfones suspensos, a bateria espremida, os músicos tocando quase de frente uns para os outros. Não há isolamento. Não há “cabine”. O som nasce do olho no olho, do erro ouvido na hora, da intuição compartilhada.
É nesse ambiente que nasce o disco que ninguém sabia como chamar — até o tênis surrado da capa resolver o problema.
Lô Borges tinha 20 anos e nenhuma música pronta. Tinha, isso sim, um estúdio cheio de gente talentosa, pouco tempo, um contrato assinado e uma urgência que hoje soa quase ficção científica. As canções não eram ensaiadas: eram inventadas. De manhã surgia a música, à tarde a letra, à noite o registro definitivo. O disco não documenta um repertório — documenta um processo.
O estúdio da Odeon, no Rio, vira uma oficina. E oficina pressupõe proximidade: mãos, ouvidos, respiração compartilhada. É por isso que, mesmo 50 anos depois, o Disco do Tênis soa tão pouco domesticado. Ele não foi polido — foi vivido.
As fotos revelam também algo essencial: ninguém está “acompanhando” ninguém. Não há solista cercado por coadjuvantes. Há uma rede. Um corpo coletivo. Milton não é “o convidado”, Toninho não é “o guitarrista de apoio”, Beto não está “fazendo base”. Todos estão em trânsito.
E esse trânsito não é só musical. É político, estético, geracional. O disco nasce em plena ditadura, quando o espaço público é hostil e o estúdio vira refúgio. Se não se podia viajar para fora, como o próprio Lô diria depois, a viagem era para dentro — e, às vezes, química, lisérgica, sensorial. Mas isso é contexto, não explicação. O que sustenta o disco é outra coisa: a confiança mútua.
O tênis da capa não é só abandono. É deslocamento. Pé na estrada, mas estrada interna. O jovem compositor não queria sobreviver de música; queria que a música sobrevivesse nele. O estúdio, nas fotos, parece saber disso antes mesmo do disco ficar pronto.
Hoje, quando se fala em “produção musical”, tudo parece distante, segmentado, isolado por fones, telas e trilhos. As imagens de 1972 mostram o oposto: música como contato físico, como conversa atravessada, como erro assumido.
É muito som para uma fotografia só.
Mas é exatamente por isso que ela continua vibrando.