GLAUBER ROCHA E GABO EM FANTÁSTICAS TRANSAS NA ESPANHA DE FRANCO (2025)
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Glauber Rocha y "Cabezas cortadas"
Augusto M. Torres
1970
MARÇO
GLAUBER ROCHA E GABO EM FANTÁSTICAS TRANSAS NA ESPANHA DE FRANCO
A influência do escritor colombiano no filme CABEÇAS CORTADAS
https://piaui.folha.uol.com.br/ - Ricardo Viel, de Barcelona
|02 DEZ 2025_09H27
Rodrigo García Barcha tem uma fugidia lembrança do dia em que viu pela primeira vez um set de filmagem. Recorda basicamente de uma imagem: um ator e uma atriz estão sentados no chão, encostados numa parede, e conversam; em frente a eles está uma enorme câmera e, atrás dela, um homem. A cena que ficou guardada na memória do cineasta é fruto das filmagens de CABEÇAS CORTADAS, de Glauber Rocha, que foi rodado na Catalunha, nordeste da Espanha, entre o FIM DE FEVEREIRO E COMEÇO DE MARÇO DE 1970. Rodrigo tinha 10 anos e foi levado pelo pai, um tal Gabriel García Márquez, amigo do diretor do filme, a conhecer os segredos do cinema.
Se naquela altura a literatura e o cinema latino-americanos estavam na moda era muito graças a García Márquez (ou simplesmente Gabo) e a Glauber. Desde que em 1964, aos 25 anos, fizera DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, o brasileiro acumulava prêmios e elogios por onde passava. O colombiano, por sua vez, era a sensação das letras graças a CEM ANOS DE SOLIDÃO, romance que se espalhava pelo mundo como um vírus a partir de 1967. Segundo Glauber, em entrevista ao Pasquim, tinham se conhecido anos antes, entre 1963 e 1965, no México, numa reunião de intelectuais financiada por empresários americanos, mas estreitaram mesmo laços (ou, nas palavras de Glauber ao mesmo Pasquim, estiveram em “fantásticas transas”) durante a temporada do cineasta na Espanha, onde Gabo vivia
O escritor colombiano desembarcara em Barcelona em NOVEMBRO DE 1967, atendendo a um chamado da sua agente literária, Carmen Balcells, uma das grandes responsáveis pelo fenômeno do “boom” latino-americano – movimento literário que colocou escritores desta parte do globo em evidência. Balcells gostava de ter por perto os seus autores mais queridos – como o chileno José Donoso e o peruano Mario Vargas Llosa, que vivia na cidade desde 1964 – e propôs a García Márquez que trocasse a Cidade do México pela capital da Catalunha. O colombiano chegou à Europa na companhia da mulher, Mercedes Barcha, e dos dois filhos, Rodrigo e Gonzalo. Publicado seis meses antes na Argentina, CEM ANOS DE SOLIDÃO ainda começava a ganhar o mundo, e a família García Barcha tinha muito fresco na memória os tempos difíceis durante a escrita do romance (meses sem pagar o aluguel e pedindo fiado nos mercados) vividos no México. “Tudo aconteceu muito rápido, nos anos que vivi em Barcelona passei de não ter o que comer a poder comprar casas”, contou o escritor ao jornalista catalão Xavi Ayen, em 2005, na última entrevista que concedeu – quando a perda de memória começou a dar os primeiros sinais. Barcelona testemunhou o nascimento de um mito. Quando retornou a Cidade do México em 1975, García Márquez já era um gigante da literatura mundial. Sete anos depois estaria em Estocolmo para receber o Prêmio Nobel.
Glauber chegou à Catalunha a convite de dois produtores espanhóis que tinha conhecido em 1969 em Cannes, na França. Naquela edição do festival de cinema, o brasileiro recebeu o prêmio de melhor direção por O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO (conhecido internacionalmente como ANTONIO DAS MORTES) e passou a ser alvo de cobiça dos empresários da indústria. Pere Fages e Ricardo Muñoz Suay tinham dois bons argumentos para convencê-lo a rodar na Espanha: carta branca para fazer o filme que quisesse, com a equipe e atores que quisesse, e um orçamento de 100 mil dólares, valor significativo para o cineasta brasileiro.
A conversa entre diretor e financiadores seguiu e meses depois a dupla de produtores estava em Paris com o contrato de O TESTAMENTO DE DOM QUIXOTE (nome provisório de CABEÇAS CORTADAS) para o cineasta assinar. O roteiro inicial, muito distante do que viria a ser o filme, era livremente inspirado no último capítulo do clássico de Miguel de Cervantes. “A época e o país em que se desenvolve a ação são imprecisos. A intenção do filme é mostrar os últimos dias de um grande homem através dos seus delírios místicos, psicológicos, religiosos, líricos e existencias. O personagem não se chamará Dom Quixote e nada saberemos de seu nome ou de suas origens”, anota. Mais tarde, no roteiro que é enviado para a censura espanhola, a referência ao Quixote desaparece e o filme passa a se chamar Macbeth 70. A menção a Shakespeare parece ter agradado o regime do ditador Francisco Franco, que não só autoriza a realização do filme como o declara de “interesse público”, o que significava uma subvenção estatal de no mínimo 25% (e máximo 50%) do custo total da produção. Ao chegar à Catalunha em AGOSTO DE 1969 para visitar locações, Glauber decide abandonar a ideia de rodar parte da película em La Mancha, apagando a última referência que havia à história de Cervantes. Foi apenas uma das muitíssimas reviravoltas do projeto.
O caótico dia a dia de filmagem de CABEÇAS CORTADAS ficou registrado no livro Glauber Rocha y Cabezas Cortadas, um diário de rodagem escrito por Augusto M. Torres e publicado na Espanha (Ed. Anagrama). Convidado num primeiro momento para ser roteirista do projeto, Torres foi avisado no meio do caminho que o roteiro ficaria a cargo do diretor. Passou a assistente de script e recebeu o encargo de tomar nota do dia a dia do trabalho. Foi testemunha das muitas mudanças de roteiros, da descrença dos atores e de parte da equipe com a forma de trabalhar de Glauber, e dos imprevistos surgidos durante a rodagem – como a passagem da Tramontana, um vento fortíssimo que sopra de vez em quando por aquela região e tem fama de alterar a psique humana. “Rocha quer que, sobre o texto escrito, eles [atores] façam uma completa improvisação, método que não parece convencer a todos”, conta Torres.
O assistente descreve como a mesma cena é filmada duas vezes, com tomadas muito diferentes uma da outra em termos de diálogo e enquadramento, deixando a equipe confusa. “Isso para Rocha não é um problema, todo tipo de incidente fortuito, tanto de som como de imagem, é incorporado no filme.” Um exemplo: Glauber pediu figurantes que fizessem o papel de mendigos. A produção arrumou uns ciganos bem-vestidos que chegaram em seus próprios carros. “Rocha fica admirado com a riqueza dos mendigos europeus e diz que um dia fará um filme sobre as relações de domínio econômico entre um mendigo latino-americano e um mendigo europeu.” O cineasta então decide incorporar ao filme os ciganos com as roupas que traziam e cantando as canções que entoavam antes das filmagens para entreter. A inclusão altera completamente o roteiro, pontua Torres.
As filmagens de CABEÇAS CORTADAS começaram no dia 1º DE MARÇO num antigo hospital de Barcelona transformado em escritório. Dois dias depois a equipe rumou à Costa Brava, a 150 km da capital, onde a quase totalidade das cenas foi filmada. García Márquez esteve no set algumas vezes, contou Glauber ao Pasquim na entrevista publicada em JANEIRO DE 1971. “Gabo é fascinado por cinema, ficou peruando as filmagens. Aparecia de vez em quando, doido para ler o meu roteiro, até que eu disse a ele que não tinha essa de roteiro, era tudo improvisado.” O brasileiro até tentou que o amigo fizesse uma pontinha no filme, mas não conseguiu.
NO DIA 14 DE MARÇO, aniversário do brasileiro, uma notícia pegou a equipe de surpresa. O protagonista do filme, Paco Rabal, que faz Díaz II, o ditador de Eldorado, exilado num país europeu, desapareceu. Segundo o relato de Torres em seu livro, após ter passado horas filmando no frio e na chuva, o ator saiu para jantar, demorou, e quando voltou ao hotel o gerente não acordou para abrir a porta. Furioso, Rabal pegou o carro e foi embora, para regressar só dois dias depois. “Hoje deveria ser filmada a cena 23, do enterro, mas faltam uma série de elementos. Em primeiro lugar amanhece chovendo e, em segundo, Paco Rabal foi para Barcelona. Aparentemente a partida tem a ver com os incômodos por que passou ontem nas rodagens”, lê-se no diário. “Rocha diz que prefere não filmar hoje porque não tem muito clara a cena, o que é verdade, mas também é verdade que, até o momento de rodar, ele nunca tem muito clara nenhuma cena. E não há dúvida de que, sobre a planificação da rodagem que ele está fazendo agora, amanhã, na hora de rodar, fará um monte de mudanças.”
Para piorar as coisas, desde a chegada à Espanha, Glauber sofria de um problema estomacal, uma hérnia que o obrigava a uma dieta super restrita. “Ontem, Rocha disse uma vez mais que pensa em abandonar o cinema. Quando terminar CABEÇAS vai voltar para o Brasil para descansar, e é possível que dentro de dois ou três anos faça outro filme, que será o último. Para fazer filmes é necessário uma fortaleza que não tenho, diz ele”, aponta Torres. Numa carta ao produtor Muñoz Suay, enviada quando o longa estreou, Glauber dirá que a hérnia estomacal foi fruto das preocupações geradas pelo projeto. “Sofri muito por causa desse filme, primeiro porque pensava que tinha lhe decepcionado e isso me deixava fodido (…) fiquei com um complexo de culpa de ter feito CABEÇAS CORTADAS, o que me valeu uma úlcera, mas sua confiança em mim, sua compreensão e carinho são coisas que nunca esquecerei.” E tinha ainda o inverno europeu, que maltratava o baiano. “Me lembro que Glauber passou um frio que quase morria, porque não estava acostumado àquelas temperaturas. A mulher dele [Rosa Maria Penna, atriz com quem esteve casado entre 1969 e 1971 e que participa no filme] então, nem saía do hotel. Foi uma rodagem muito dura, muito frio e vento”, me contou certa vez a fotógrafa Isabel Steva, a Colita, que foi assistente de fotografia em CABEÇAS CORTADAS.
O 31º aniversário de Glauber, em MARÇO DE 1970, foi comemorado à noite no hotel onde a equipe estava hospedada e contou com a presença de Gabo. Além da inclinação política e o amor pela sétima arte (o colombiano chegou a estudar cinema em Roma e fundou a Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de Los Baños, em Cuba), unia-os o interesse pela figura dos ditadores. CABEÇAS CORTADAS conta a história de um tirano latino-americano refugiado num castelo e que enlouquece enquanto espera a chegada da sua morte. García Márquez, por sua vez, já levava um par de anos escrevendo O OUTONO DO PATRIARCA, romance que só foi publicado em 1975 e que conta a longeva vida de um impiedoso ditador caribenho. O déspota do livro vende o mar aos gringos, que o levam embora; o do filme, manda extinguir os vulcões do país. No texto publicado no Pasquim em JANEIRO DE 1970, Glauber narra uma madrugada em Barcelona em que Gabo lhe dá detalhes do livro que está escrevendo. “Um dia o ditador acorda e diz que os papagaios estão conspirando contra ele. Manda matar todos os papagaios do país (…) Me disse que leu tudo sobre a vida dos ditadores.”
Numa entrevista que deu ao crítico e professor de cinema Miguel Pereira, parcialmente publicada n’O Globo em 1979, quando o filme foi finalmente liberado no Brasil, Glauber diz que CABEÇAS CORTADAS se referia a todos os ditadores e patriarcas decadentes do mundo. “O filme não fala sobre o apogeu de um ditador, mas sobre a decadência. Sobre a longa morte do Franco. Eu fiz o filme na mesma época em que o García Marquez estava escrevendo o OUTONO. Ele estava lá em Barcelona transando junto. Eu lancei o filme em 1970 e ele só lançou o livro em 1975. CABEÇAS CORTADAS e O OUTONO DO PATRIARCA seriam duas obras, uma literária e outra cinematográfica, sobre o mesmo tema: a morte de Franco. A morte de Franco inspirou um discurso sobre a morte das ditaduras.” Nessa mesma entrevista, publicada na íntegra em 2006 na revista Alceu, da PUC-Rio, o cineasta diz que o caudilho espanhol foi o primeiro ditador que “aprendeu a odiar” porque, desde quando era muito jovem, tinha Federico García Lorca, Pablo Picasso e Luis Buñuel – três opositores ao franquismo – como grandes referências artísticas e humanas.
Quando Glauber chegou à Espanha para filmar, Franco entrava na sua quarta década no poder com uma crescente contestação interna e externa. García Márquez acompanhou através da imprensa espanhola os últimos anos da ditadura, com a saúde do déspota cada vez pior. A longa agonia de Franco durou até NOVEMBRO DE 1975. Meses antes, O OUTONO DO PATRIARCA foi lançado sem provocar, nem de longe, o impacto de CEM ANOS DE SOLIDÃO. É provavelmente o livro mais complexo do colombiano, com frases e parágrafos longuíssimos, constantes mudanças de narradores e uma linha de tempo com avanços e retrocessos. Meses depois do lançamento, o escritor deu uma entrevista dizendo que as resenhas sobre o romance eram “superficiais” e que os críticos não haviam entendido que a obra era uma espécie de autobiografia cifrada. “Se, ao invés de ver um ditador, se vê um escritor muito famoso e terrivelmente incomodado com a sua fama, com essa chave é possível ler o livro, e com outro resultado”, afirmou. Segundo Gerald Martin, biógrafo do colombiano, a questão dos labirintos do poder e a ideia de escrever um romance sobre um ditador era algo que acompanhava García Márquez desde os ANOS 1950, muito antes de que a fama chegasse e mudasse para sempre a sua vida. “Quando finalmente abordou o assunto, ele também já era demasiado célebre e poderoso, demasiado solitário. Assemelhava-se já em demasia a ‘ele’, ao ‘outro’, o objeto de desejo. O monstro literário que havia criado e estava decidido a satirizar e deixar em evidência (…) encarnava o fenômeno em que ele mesmo tinha se convertido.” Martin define o livro como “um romance obsessivo de um escritor solitário sobre um ditador obsessivo e solitário”.
A fama e a solidão também foram fardos que Glauber Rocha teve que carregar a partir do momento em que se tornou um diretor de cinema mundialmente conhecido. Em MARÇO DE 1971, escreveu uma carta ao produtor Muñoz Suay, onde diz: “Eu tinha pensando em voltar a viver hasta la muerte no Brasil: e toda a minha vida caminhava para esta solução, mas encontrei problemas vários: dificuldades políticas, problemas conjugais, confusão cultural e, sobretudo, a grande onda formada contra mim por: a) a direita intelectual; b) a esquerda intelectual fracassada; c) alguns cineastas jovens. Ou seja, meu querido Ricardo: aos 32 anos eu estava, nesta bela e miserável cidade do Rio de Janeiro, obrigado a pagar em público o preço de ser Glauber Rocha. Eu também passei a odiar Glauber Rocha, o Cinema Novo, tudo. E caí numa depressão terrível.” Na missiva, depositada pela família de Suay na Filmoteca de Valência, o cineasta prossegue: “Não quero continuar sendo Glauber Rocha, o jovem revolucionário cineasta de terceiro mundo. Este papel é pesado para mim, é instrumentalizado pela esquerda e utilizado pela direita, eu sou um artista livre, não quero ter compromissos a nível moralista, profissional, cultural ou político. Não posso ficar no Brasil porque aqui sou uma pessoa meio oficial e meio underground, sou um dos homens mais famosos do país, a imprensa se ocupa diariamente de mim falando de minhas idas à praia, minhas viagens, em que restaurante eu como, me acusam de comunista, marijuaneiro, de vendido ao fascismo, me chamam de gênio, de orgulho do Brasil no exterior, de decadente, de fracassado. Uma merda.”
“CABEÇAS CORTADAS é uma desses raros filmes que se desenvolvem dentro da mente do protagonista, mas de forma que o que normalmente é uma complexa estrutura aqui é um delírio da imaginação”, escreve Torres nos diários de rodagem. O estilo caótico da narração e as muitas referências e alusões à América Latina faz com que aquele que não esteja familiarizado com a filmografia de Rocha não alcance o pleno significado da obra, acrescenta o espanhol.
No material de divulgação do longa, Glauber pontua: “CABEÇAS CORTADAS não é um filme com uma narrativa tradicional. Posso dizer que é um filme que está entre o cinema e a poesia. O importante em CABEÇAS CORTADAS não é o argumento senão o valor plástico, sonoro e dramático de cada cena (…) É um filme que procura uma comunicação com a sensibilidade do espectador, usando uma linguagem diferente da do cinema tradicional. Nesse caso, o espectador deve aceitar o filme como quem lê um poema, ouve uma música ou vê uma exposição de pintura.” Pode ser definido como um filme surrealista ou uma fábula, prossegue o cineasta, que diz que não se trata de um filme espanhol – “fazer verdadeiramente filmes espanhóis é uma tarefa de espanhóis”, mas de um filme “do Terceiro Mundo que trata da realidade do Terceiro Mundo”.
A estreia foi no Festival de Cinema de San Sebastián, em JULHO DE 1970, e teve uma péssima recepção da maior parte do público e da crítica. “Um filme demencial, não tanto pela concepção, senão pela falta de conexão com o espectador: quem o vê sofre, não pelo que é dito mas pelo que não é dito. Além de tudo, a obra não tem um argumento nem um roteiro definido”, escreveu A. Martínez Tomas no jornal La Vanguardia Española. O crítico diz que Glauber não foi capaz de fazer com que o espectador lesse as imagens do filme e escutasse a sua música, como pretendia. “O único que consegue, salvando alguns excepcionais momentos, é aborrecer, cansar e indignar o espectador, em outras palavras, fazê-lo repudiar o filme.” Seria curioso fazer uma pesquisa para ver quantas pessoas conseguem assistir ao filme até o final, acrescenta. “Depois de três obras-primas, Rocha fez na Espanha o seu primeiro filme decepcionante”, aponta Miguel Marías na revista Nuestro Cine. “É uma obra voluntariamente grotesca, suja, feia, tosca, subdesenvolvida, inconexa, caótica e desgradável (…) É muito positivo que ele tenha se negado a ser cúmplice de uma astuta operação comercial que consistia em produzir no nosso país um filme do mais prestigiado dos jovens diretores revolucionários do Terceiro Mundo. Deu-nos uma obra que ninguém esperava porque nem é bela, nem lírica, nem épica e nem será um sucesso de bilheteria.”
Em sua defesa, Glauber disse posteriormente que a obra “desmonta todos os esquemas dramáticos de teatro e cinema” e se alinha ao “cinema do futuro”, que seria feito de “luz, som e delírio”. Num texto escrito para uma retrospectiva da obra do brasileiro, a crítica e jornalista mexicana Nuria Vidal defendeu que CABEÇAS CORTADAS não é “nem uma obra malfeita e incompreensível”, como foi dito por alguns, tampouco é uma obra maestra, como foi apontado por uns poucos. “Não é uma experiência isolada da filmografia de Rocha (são múltiplos os seus pontos de contato com TERRA EM TRANSE e ANTONIO DAS MORTES), mas sim da cinematografia espanhola, onde se situa como uma autêntica rara avis”.
Eduardo Escorel, colunista de cinema da piauí, foi o montador desse e de outros três filmes do cineasta brasileiro. Quando chegou a Barcelona, vindo de Roma, onde esteve trabalhando na finalização do filme anterior de Glauber (O LEÃO DE SETE CABEÇAS, uma coprodução com a Itália), as filmagens de CABEÇAS CORTADAS já tinham terminado. Recorda de um jantar com a presença de García Márquez e, conhecendo o método de trabalho do diretor brasileiro, que costumava incluir nos filmes muitas ideias que lhe ocorriam durante o momento da filmagem, não duvida que as conversas entre o colombiano e o brasileiro podem ter influenciado Glauber na composição do personagem do ditador. Passados 55 anos, o cineasta ainda consegue puxar da memória recordações daquele trabalho. “Eu me lembro que o Glauber estava muito inquieto naquela época, foi um momento traumático para ele porque ele contava voltar a Cannes e O LEÃO DE SETE CABEÇOS não foi aceito. Foi uma decepção muito grande, e acho que ele nunca encontrou pé novamente.” Para Escorel, aquele foi um marco na carreira de Glauber, o início de uma crise, de uma sucessão de acontecimentos (pessoais, profissionais, políticos) que fizeram com que o cineasta se sentisse – ou talvez se colocasse – cada vez mais sozinho. “Em três anos, de TERRA EM TRANSE a ANTONIO DAS MORTES, ele conseguiu criar um nome internacional, e a partir daquele momento entrou numa espiral tão grande que acho que era incapaz de refletir a respeito.”
No dia 13 DE DEZEMBRO DE 1975, três semanas após a morte de Franco, Glauber Rocha escreve a Muñoz Suay, de Paris: “Viva a morte de Franco e viva CABEÇAS CORTADAS, que é a biografia audiovisual do incônscio de Franco (…) e o mais genial é que quem pagou foi o Estado espanhol. Não tenho remordimentos, vi o filme esses dias e continua atual.” Em seguida, diz ao produtor que, morto o caudilho, era a hora de se rodar outro filme na Espanha, a ser feito como da outra vez: barato, filmado em poucas semanas e sem roteiro. “É preciso fazer a segunda parte de CABEÇAS, o que acontece com os camponeses depois da morte do ditador?”, anota. Duas linhas abaixo, uma nova proposta: “Também posso fazer um dos seus filmes de terror [após o fracasso comercial de CABEÇAS CORTADAS, a produtora Profilmes, onde Suay trabalhava, tinha conseguido encontrar um bom filão com filmes de terror] tendo Franco como tema.” A missiva traz ainda um P.S.: “Se quer fazer um filme comercial, podemos fazer um western na Andaluzia.” Num canto da carta, a lápis em cor vermelha, uma nota: “Quero filmar a vida e a morte de Lorca – não suas obras, mas o mito.”
A troca de correspondência entre Glauber e Suay começa ainda em 1969 para tratar detalhes do projeto em andamento e se estende até poucos dias antes da morte do realizador, em AGOSTO DE 1981. Semanas depois da estreia do longa, o produtor espanhol manda notícias: “Não pense que estou fodido pelo que aconteceu no festival de San Sebastián, pelo contrário. Nunca pensei que CABEÇAS tivesse sucesso nesse festival (…) se lá estivemos é porque o governo nos obriga e nos dá 10% mais de ajuda estatal. De qualquer modo, o filme vencedor moral no festival é o teu. Os jovens e a crítica independente estiveram ao lado do teu filme. A crítica fascita e reacionária esteve contra. Estou muito contente de o ter produzido. Estou orgulhoso, acho que é o teu melhor filme e um dos mais significativos do mundo todo.” Meses depois, nova mensagem contando da estreia comercial: “Em Barcelona e em Madri (e também em Girona, onde esteve quatro dias), o filme teve uma vida difícil, mas honrosa. Você sabe que eu não fiz esse filme para ganhar dinheiro, mas me preocupa que [Juan] Palomeras [dono da produtora] perca dinheiro com ele. O compromisso era colocar 4 milhões de pesetas, com a deserção de Fages e Jacinto ele teve que colocar, até agora, 7 milhões e tanto.” O espanhol explica que, com o prejuízo do filme, não poderá levar adiante um projeto de Cacá Diegues que tinha na manga.
Berta Muñoz, filha de Suay, lembra das visitas do cineasta brasileiro à casa de praia da família, em Calafell, na Espanha, e das longas conversas que os adultos tinham e ela, uma adolescente, acompanhava com atenção. Foi com Glauber que fumou o primeiro cigarro de maconha, na praia, e lembra que tiveram que se esconder atrás de um pequeno barco quando viram a polícia porque ele, assustado, confessou que não trazia o passaporte. Suay também manteve com Gabo uma amizade durante os anos que o colombiano esteve em Barcelona. “Minha casa se converteu na sua. Gostava tanto da paella que a minha mulher fazia que começou a fazer propaganda dela pelo mundo. É um grande conversador, e de segredos. Conversamos muito, mas não sobre política, porque somos distintos nisso [comunista na juventude, Suay renegou a ideologia na velhice]. Sempre surpreende, acabo de saber que gosta de touradas e que joga tênis. Não costuma falar de literatura”, disse ele em depoimento que consta em sua biografia. Os García Barcha regressaram à Cidade do México logo após a morte de Franco e a amizade esfriou. Suay morreu em 1997, aos 80 anos; García Márquez viveu até os 87, faleceu em 2014.
Quando, com apenas 42 anos, o amigo brasileiro morreu, Suay escreveu para o El País um texto, em jeito de obituário, que começa assim: “Glauber Rocha fez sua a proposta da revolução permanente (…) Era um cinema em estado puro e as suas imagens, algumas muito belas, se moviam, assim como os personagens, em função dos símbolos a quem o realizador sempre recorria.” O produtor passa a falar de CABEÇAS CORTADAS: “Quando Franco morreu, Glauber me telefonou empenhado em demonstrar que no nosso filme pulsava a sua premonição do trânsito do franquismo à monarquia. Subjetivismos à parte, a realidade é que continua nos comovendo a cena em que os pés do Tirano são banhados em sangue (..) num convite ao tiranicídio.” E termina seu texto, intitulado Loucura e Lucidez de um cineasta, da seguinte forma: “Agora, nos últimos meses, vivia em Sintra, à espera de iniciar um filme produzido em Portugal. Há uns quinze dias me mandou a última missiva, cheia de delírios, com o afeto e a cordialidade de sempre. E me enviou o seu último livro, REVOLUÇÃO DO CINEMA NOVO. Releio o título do último capítulo: Estão confundindo a minha loucura com a minha lucidez.”
por ChatGPT
Minha opinião sobre Cabeças Cortadas é que ele é um filme fascinante, mas polarizador, e precisa ser entendido dentro do contexto da obra de Glauber Rocha e do Cinema Novo. Algumas observações:
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Experimento radical: É um filme que rompe com narrativas tradicionais e roteiros planejados. Glauber propõe um cinema do inconsciente, onde a improvisação e os delírios internos dos personagens dominam a forma. Isso o torna inovador, mas também difícil de compreender para quem busca uma história linear.
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Estética e simbolismo: A força do filme está mais na plasticidade, no som, na composição visual e na construção de atmosferas do que no argumento. É como uma poesia em imagens — cada cena funciona como um quadro surrealista ou musical.
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Crítica política: Cabeças Cortadas funciona como um comentário ácido sobre ditaduras, decadência do poder e tiranias latino-americanas. É intenso e provocador, explorando o tema da opressão de maneira simbólica e quase onírica.
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Recepção controversa: Na época, a maior parte do público e da crítica não entendeu a proposta, considerando o filme confuso ou “insuportável”. Isso não tira seu valor artístico; pelo contrário, mostra que Glauber estava à frente de seu tempo, antecipando discussões sobre cinema experimental e política.
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Lugar na filmografia de Glauber: É um marco na sua carreira, porque rompe de vez com qualquer convenção narrativa e se aproxima de uma estética mais “surrealista” e interiorizada, contrastando com obras anteriores, como Terra em Transe e Deus e o Diabo na Terra do Sol, que ainda mantinham uma narrativa mais acessível.
Em resumo, é um filme que eu consideraria uma experiência artística extrema: não é para todos, mas para quem aprecia cinema experimental, reflexão política e estética inovadora, é uma obra única e corajosa.
arquivos do próprio bol$o

Cabeças Cortadas
Título original: Cabezas Cortadas
Título inicial: Macbeth 70
Gênero: Ficção, longa-metragem
Formato: 35mm, colorido (Eastmancolor)
Local de filmagem: Barcelona, Espanha
Período de filmagem: 25 de fevereiro a 12 de junho de 1970
Duração: 2.600 metros, 95 minutos
Produção:
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Companhias produtoras: Barcelona Profilmes S.A. (Espanha), Barcelona Films Contacto (Espanha), Mapa Filmes (Brasil)
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Distribuição: Embrafilme
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Lançamento: 11 de junho de 1979, Rio de Janeiro (Roma-Bruni, Rio Sul Bruni-Copacabana, Bruni-Tijuca)
Equipe principal:
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Diretores de produção: José Antônio Perez Giner, Modesto Perez Redondo
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Produtores executivos: Ricardo Muñoz Suay, Pedro Fages, Juan Palomeras
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Assistente de produção: Manuel Rubio
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Diretor: Glauber Rocha
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Assistente de direção: Ricardo Muñoz Suay
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Assistentes de realização: Manuel Esteban, Manuel Perez Sestremeras
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Argumentista: Glauber Rocha
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Roteiristas: Augusto Martinez Torres, Josefa Pruna
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Diálogos em espanhol: Ricardo Muñoz Suay
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Diretor de fotografia: Jaime Deu Casas
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Câmera: Carlos Frigola
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2º operador de câmera: Ricardo Gonzales
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1º assistente de câmera: Jose Cobos
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2º assistente de câmera: Ramon Jaques
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Som: Roger Sangenis
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Operador de microfone: Jorge Sauret
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Montador: Eduardo Escorel
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Assistentes de montagem: Angeles Sanchez, Susana Lemoine
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Cenógrafo: Fabian Puigserver
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Decorador: Andres Vallve
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Assistentes de decoração: Manuel Rubio Jr., Jose Rovira
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Maquiador: Cristobal Criado
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Assistente de maquiagem: Ana Criado
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Cabeleireira: Vicenta Salvador
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Letreiros: Ana Luísa Escorel
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Música: Cuesta Abajo, Gardel, Le Pera, Alla en el Rancho Grande, Castello, Del Moral, Uranga, Manresana, Manen, Chamaco Gran Torero, Gomila, Fallaste Corazon, Sanchez, Sabor a Mi, Carillo, Buenos Aires, Joves, Romero, Misa Flamenca, La Torre, Torre Grosa
Locações:
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Biblioteca Nacional de La Diputación, Barcelona
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Rosas, San Pedro de Poda, Castelló de Ampurias, Cadaqués, Cabo de Creus, Port-Ligat
Laboratórios e estúdios:
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Laboratório de imagem: Fotofilm S.A.E.
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Estúdio de som: La Voz de España S.A.
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Estúdio de montagem: Estúdio Kine S.A.
Premiação:
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Prêmio São Saruê, da Federação de Cineclubes do Rio de Janeiro – 1979
Elenco:
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Pierre Clementi – Pastor
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Francisco Rabal – Díaz II
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Marta May – D. Soledad
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Rosa Maria Penna – Dulcinea
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Ema Cohen – cigana/prostituta
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Luis Ciges – mendigo
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Telesforo Sanchez – padre
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Victor Israel – médico
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Carlos Frigola, Carmen Sansa, Emer Cardona, Enrique Majo, Jack Rocha, Jose Jacomet, Jose Ruiz, Jose Torrens, Julian Navarro, Juan Valles, Maria Jesus Andany, Sebastian Camps, Vega Dingo
Comentários sobre o filme
Filmado na Espanha, Cabeças Cortadas marca a ruptura definitiva de Glauber Rocha com os roteiros tradicionais. Não foi apresentado em nenhum festival de primeira linha. O filme é uma crítica às loucuras ditatoriais, funcionando como um “funeral das ditaduras”, e apresenta o encontro apocalíptico de Perón com Franco nas ruínas da civilização latino-americana.
“Para mim é muito angustiante saber que tão poucas pessoas vão compreender e amar Cabeças Cortadas e é um filme que eu acho muito original… mas…” – Glauber Rocha
“Não acredito em cinema planificado porque não é possível fazer planos concretos para uma obra de arte.” – Glauber Rocha
O cineasta explica a diferença de Cabeças Cortadas em relação a seus filmes anteriores:
“O filme ficou mais atual com a queda de Franco do que em 1970, porque ninguém entendeu que eu pudesse estar prevendo a queda do ditador. Se O Leão das Sete Cabeças era um filme sobre a exterioridade, tentando explicar a história de um ponto de vista materialista, Cabeças Cortadas, como o próprio título indica, corta essa tese. É um filme feito no terreno do delírio, da interioridade, no território da minha própria loucura. O filme não teve roteiro e foi filmado em 14 dias. É como se fosse a filmagem de um sonho. Enquanto filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe são materializações de sonhos culturais, em Cabeças Cortadas a matéria é a do inconsciente puro; a fantasmagoria cultural vem num segundo plano, complementando o fluxo de interiorização.” – Glauber Rocha, a João Lopes, O Século do Cinema