Resenha — Sou Tóxico (Soy Tóxico, 2018)

Resenha — Sou Tóxico (Soy Tóxico, 2018)

Sou Tóxico é um filme que aposta menos na narrativa clássica e mais na experiência sensorial. Ambientado no ano de 2101, ele apresenta um futuro em que o hemisfério sul do planeta foi transformado em um gigantesco lixão, metáfora direta e incômoda do colapso ambiental e moral da civilização contemporânea.

A história acompanha um homem que desperta nesse mundo devastado sem memória alguma. Essa amnésia não é apenas um recurso dramático: ela funciona como espelho de um planeta que também parece ter esquecido sua própria história, seus limites e responsabilidades. O protagonista vagueia por paisagens tóxicas, enfrentando perigos difusos, enquanto tenta compreender quem é — ou se ainda faz sentido ser alguém naquele cenário.

A direção de Pablo Parés (com ecos do cinema de gênero argentino mais experimental) evita explicações fáceis. O filme é econômico em diálogos e generoso em atmosferas. O ritmo é seco, por vezes contemplativo, reforçando a sensação de abandono e de fim de linha. Não há heroísmo tradicional: há desgaste, sujeira e sobrevivência bruta.

Visualmente, Sou Tóxico se destaca pelo uso de cenários reais degradados, que conferem ao filme um aspecto quase documental. O figurino, feito de restos, roupas gastas e improvisadas, transforma os corpos em extensões do lixo que os cerca. Tudo parece contaminado — o ar, a terra, as pessoas e até o silêncio.

No elenco, Esteban Prol sustenta o filme com uma atuação física, mais baseada no corpo e no olhar do que na fala. Os personagens que surgem pelo caminho são menos indivíduos completos e mais fragmentos de um mundo em ruínas, reforçando o clima de estranhamento e ameaça constante.

Misturando ficção científica, terror e cinema pós-apocalíptico, Sou Tóxico não busca agradar nem entreter de forma convencional. É um filme áspero, desconfortável, que funciona quase como um aviso: o futuro mostrado ali não é distante, apenas exagerado o suficiente para ser ignorado — ou reconhecido.

No fim, o maior impacto do filme está na sua mensagem silenciosa: não é o homem que acorda sem memória — é a humanidade inteira que parece ter esquecido quem foi e o que fez com o próprio planeta.