ARTES: FRANZ KRAJCBERG, CILDO MEIRELES E CARLOS VERGARA

 Frans Krajcberg

A trilha que liga a casa ao mar do Sítio Natura, com Frans Krajcberg, em 2009; e hoje Foto: Leo Aversa/Agência O Globo

O QUE ACONTECEU COM A OBRA DE FRANS KRAJCBERG CINCO MESES APÓS SUA MORTE
Artista polonês deixou toda sua herança para o governo da Bahia

casa na

POR FÁTIMA SÁ / FOTOS: LEO AVERSA  - O Globo 

8 abr. / 2018 - NOVA VIÇOSA (BA) — Nos 37 hectares que formam o Sítio Natura, em Nova Viçosa, extremo sul da Bahia, Frans Krajcberg ergueu seu peculiar universo de vida e morte. Plantou mudas por toda parte, construiu sua casa no alto de uma árvore para ver o mar, viveu ao sabor do sol, driblando a pele delicada para contentar o espírito aventureiro. Ao mesmo tempo, encheu o lugar com imagens de destruição. Troncos de árvores calcinados, raízes arrancadas e cipós retorcidos viraram arte para lembrar desmatamentos, queimadas, a ganância e o descaso que destroçam a natureza. Era seu grito de revolta, como costumava dizer o homem que abraçou a ecologia muito antes da moda. Hoje, porém, tudo é silêncio.

poltrona

Há cinco meses, a propriedade que se esconde no quilômetro 20 da Estrada Mucuri-Nova Viçosa, na Costa das Baleias, parou no tempo. O boné verde-oliva que Krajcberg usava ainda está lá, na poltrona onde costumava sentar-se, em seu antigo ateliê. A jaqueta cor de areia segue pendurada atrás da porta na casa sobre a árvore. E a última escultura em que trabalhava — um pedaço de madeira carcomido por busanos, resgatado do mar e coberto de tinta vermelha — permanece na oficina. Desde que o artista morreu, em 15 de novembro, aos 96 anos, tudo ali aguarda o novo dono.

Krajcberg era o último dos seus, o único sobrevivente de uma família assassinada pelos nazistas quando Hitler invadiu a Polônia. Vivia no Brasil desde 1948. Nunca se casou. Não teve filhos. Ao morrer, deixou para o governo da Bahia todos os seus bens — o Sítio Natura, duas caminhonetes, mais um sítio vizinho, que pertenceu a Carlos Vergara num período em que Nova Viçosa prometia tornar-se uma comunidade de artistas, além de um apartamento na Urca, Zona Sul do Rio. Deixou também uma obra colossal, sob a condição de que tudo seja usado para a criação e manutenção de um museu. Sua galerista e amiga de quase 30 anos, Marcia Barrozo do Amaral, estima que Krajcberg tenha legado ao estado cerca de 1.500 esculturas, gravuras, pinturas e fotos.

A imensa maioria das obras está no Sítio Natura, onde ele já ergueu três construções para fazer seu museu (previa outras duas). Numa delas, contam-se mais de 300 peças — grandes troncos de árvore cheirando a queimado, cobertos de pigmentos vermelhos, amarelos, alaranjados. Mas a natureza que Krajcberg tanto lutou para preservar é, ela própria, inimiga silenciosa de seu trabalho. Há calor e umidade por toda parte. Não bastasse, há os insetos. Ao se percorrer o galpão maior, o pó sobre algumas esculturas denuncia logo: infestação por broca.

— É um perigo. E estamos sempre passando remédio, fazendo o melhor que dá — reconhece Marlene Figueredo Gonçalves, há 13 anos secretária de Krajcberg e integrante de uma comissão nomeada por ele para garantir o cumprimento de sua vontade, firmada num contrato em 2009 e expressa agora no testamento.

O SÍTIO E AS OBRAS DE FRANS KRAJCBERG EM NOVA VIÇOSA (BA)

 

Marlene divide a responsabilidade com mais quatro pessoas: Marcia Barrozo, o marceneiro Oraldo do Nascimento Costa, assistente do artista por 21 anos, o policial militar Carlos Roberto Magalhães Monteiro, que socorreu Krajcberg após um dos cinco assaltos ao sítio e cuidou da sua segurança nos últimos sete anos, e o advogado Ernani Griffo Ribeiro, testamenteiro.

 — Estivemos com a secretaria de Cultura e a Casa Civil. Passamos a situação para eles. Mas o tempo do estado é o tempo do estado — pondera Ribeiro.

Agora, porém, o tempo urge. Os contratos dos 11 funcionários que cuidam da manutenção do espaço estão chegando ao fim. Parte deles deixa a propriedade no dia 15. Os outros, no fim do mês. A segurança deve ficar porque já é do próprio estado. Após os sucessivos assaltos que Krajcberg sofreu — ele tinha o hábito de andar com dinheiro vivo em quantidade — e como vivia em usufruto do patrimônio que já oferecera à Bahia, o governo pôs uma empresa de segurança privada e destacou uma patrulha da PM para cuidar da propriedade.

Sobre as obras, após a morte do artista, duas museólogas do patrimônio estadual estiveram no Sítio Natura fazendo uma catalogação preliminar do que está lá. Foi no início do ano. O governo ainda não estabeleceu cronograma nem anunciou planos para o local. Procurada pelo GLOBO, a secretaria de Cultura recusou o pedido de entrevista e emitiu a seguinte nota: “O governo do Estado da Bahia, através da secretaria de Cultura, está cadastrando o acervo, fazendo sua manutenção/preservação e sua segurança em Nova Viçosa. Está desenvolvendo também estudos para a criação do Museu Frans Krajcberg.”

Magalhães, o policial que cuidava da segurança do artista, repete frequentemente frases típicas do “cliente” — um adorável rabugento cheio de manias, que saía da cama com o céu ainda escuro e deitava-se com o pôr do sol. “Paciência. O que tiver que acontecer, paciência”, ele dizia. Na prática, porém, Krajcberg não tinha muita. Anos atrás, quando colocou marca-passo, o médico o proibiu de subir os 24 degraus de escada caracol que levam até sua casa no alto de um pequizeiro. Passou a dormir no ateliê, contrariado.

— Trabalhou até ficar doente e ir para o hospital — lembra Oraldo, o mais antigo funcionário do sítio, que chegou ali no fim da década de 1990 para consertar um telhado e nunca mais saiu.

— Até há poucos anos, ainda saía para pescar numa canoa de índio que trouxe da Amazônia, veja só. E gostava de dizer: “deixe de preguiça” — ri Magalhães, sentado no restaurante onde costumava almoçar com Krajcberg entre Viçosa e o aeroporto de Teixeira de Freitas.

Frans Krajcberg custou a se encontrar no mundo. Menino, conheceu o desprezo de viver num gueto. Depois, a dor de perder todos os parentes para o nazismo. Lutou ao lado do exército soviético na Segunda Guerra, foi para a Alemanha, estudou engenharia e arte, passou fome. E acabou em Paris, onde conheceu Chagall e Léger. Um dia, ouviu falar do Brasil. Pareceu-lhe um bom lugar para sumir. Na exuberância da natureza, porém, redescobriu a vontade de viver. Mas, à medida que se embrenhou pelo país — na Amazônia, no Pantanal —, encontrou de novo a destruição. Desta vez, da natureza. Revoltou-se e decidiu fazer da vida um manifesto contra o colapso ambiental. Virou artista-ativista.

Apesar de tudo, ele, que também viveu no Paraná, em Minas (descobriu os pigmentos naturais que revolucionaram sua obra no município de Itabirito) e no Rio (onde partilhou um ateliê com Franz Weissmann), encontrou-se nesse pedaço de chão da Bahia. E em Paris, aonde ia regularmente e mantinha um apartamento-ateliê cedido pela prefeitura. Após sua morte, Marcia Barrozo esteve lá desmontando tudo para devolver o imóvel e repatriar obras e objetos:

— Inventariamos tudo e enviamos para Nova Viçosa, aonde as peças devem chegar em breve. Ficará tudo concentrado no Sítio Natura, como era o desejo dele. Anos atrás, por exemplo, ele mandou buscar as esculturas que estavam em Curitiba.

Marcia se refere às 110 obras doadas pelo artista à cidade que abriu em 2003 um espaço cultural com seu nome. Acontece que Krajcberg não gostou do modo como as esculturas estavam sendo conservadas, rompeu com a prefeitura e tirou tudo de lá.

Homem teimoso, que não sucumbiu à guerra ou à privação, Frans Krajcberg foi cremado e levado de volta para seu paraíso. Suas cinzas estão no pequizeiro que sustenta sua casa, entre o som das ondas e os ruídos do mato. Ali, costumava fotografar os nós da madeira, encontrando caras de bichos e outras imagens inventadas. Hoje, os portões do Sítio Natura permanecem fechados ao público. Se a vontade de Krajcberg for respeitada e suas obras preservadas, visitantes terão a chance de andar por ali e sentir como a arte pode fazer da morte um grito pela vida.

cildo coca

   O artista plástico Cildo Meireles por - Marlene Bergamo/Folhapress

   As obras selecionadas vão de 1968 aos primeiros anos de 2010: Inserções em Circuitos Ideológicos: Projeto Coca-Cola, trabalho dos anos 1970 com críticas à ditadura e aos EUA - Wilton Montenegro/Divulgação


  ARTISTA CONCEITUAL CILDO MEIRELES GANHA LIVRO SOBRE SEUS ESTUDOS
Grande expoente das artes conceituais brasileiras, Cildo Meireles ganha livro que destrincha seus estudos e reúne fortuna crítica sobre sua produção

https://www.opovo.com.br/jornal/dom/2018/04/artista-conceitual-cildo-meireles-ganha-livro-sobre-seus-estudos.html


   1 abr. / 2018 - Resgatar o primeiro momento, quando o artista aplica o traço, imagina a ação necessária para a execução da obra. A proposta do livro Cildo: Estudos, Espaço e Tempo, publicado recentemente pela Ubu Editora, é regressar à nascente da criação de Cildo Meireles, artista conceitual brasileiro que subverteu o circuito dos museus na década de 1960 e acabou exposto em instituições como o MoMA (EUA), o Reina Sofía (Espanha) e o Tate Modern (Inglaterra).

   Organizado pelo curador e pesquisador de artes visuais Diego Matos e pelo crítico de arte Guilherme Wisnik, o livro abraça uma noção amplificada do “estudo” dentro da obra de Cildo. “Ele faz um trabalho que inicialmente é muito cerebral. A ideia de estudo vem desse entendimento de algo que é mais amplo, como um pré-requisito, o desenvolvimento do pensamento anterior ao produto. Várias obras do Cildo acontecem de maneira alargada no tempo”, explica Diego, que foi assistente de curadoria da 29a Bienal de São Paulo, em 2010, e estudou a obra de Cildo em seu doutorado.

   Nascido no Rio de Janeiro em 1948, Cildo Meireles começou sua trajetória desenhando. O livro cobre sua produção da segunda metade da década de 1960 aos primeiros anos dos anos 2010. As obras indicadas pelos organizadores atendem a uma aproximação conceitual, a um diálogo não necessariamente cronológico entre períodos. Cildo é o artista por trás de obras icônicas como as Inserções em circuitos ideológicos (cédulas carimbadas com “Quem matou Herzog?” e garrafas de Coca-Cola com mensagens contra o regime político na década de 1970) e Desvios para o vermelho (ambientes articulados e decorados com uma exaustiva coleção monocromática de objetos).

"Como artista, qualquer momento é o momento de você lidar com a arte. Produzindo, pensando"

   Também se avizinham em sua produção as noções de espaço e tempo — relações possíveis de grandeza e medição do mundo. “Apesar de o Cildo trabalhar com situações específicas que remetem de maneira muito enraizada à cultura brasileira e às suas vivências afetivas, esses são dois elementos extremamente universais. Na verdade, ele está falando de uma completude que é muito maior”, explica Diego, resgatando os conceitos de site-specific e time-specific, que se referem às obras criadas para existir em certo espaço (site) e durante um período específico de tempo (time).

   O livro também apresenta 13 textos selecionados pelos organizadores em meio à fortuna crítica que acompanhou a trajetória de Cildo. O primeiro deles, publicado no Diário de Notícias em 1969, traz o crítico de arte Frederico Morais articulando a teoria e a prática do trabalho de Cildo, inaugurando o que mais tarde seria batizado pelo autor como “a nova crítica”, mais atenta à produção da nova geração de artistas plásticos.

Acompanhar a evolução do pensamento da crítica especializada sobre a obra de Cildo ao longo das décadas conduz o leitor em direção a um campo de atualidade. A produção do artista traz incorporada a possibilidade de ressignificação — suas cédulas ganharam o carimbo “Quem matou Amarildo?” em 2013. “Há essa emergência, são situações extremas que formam um circuito de transmissão de mensagens. Ele quer que as pessoas se apropriem, não existe um valor comercial para aquela obra. Seu trabalho é o conceito”, resume Diego.

O POVO: São cinco décadas de trajetória. Sua obra, que não entrava nas galerias porque não se adequava ao sistema tradicional de exposições, passou a ser exposta em lugares como o MoMA (EUA), o Reina Sofia (Espanha) e o Tate Modern (Inglaterra). O que mudou, o artista ou o cenário das artes?

Cildo Meireles: Tudo mudou. Eu comecei no desenho, é minha formação, minha produção inicial. Na primeira exposição que participei, em 1965, no segundo Salão Nacional de Arte Moderna, no Distrito Federal, fui com dois desenhos. Estava em uma escola experimental em Brasília, pretendia fazer o curso de cinema, cinema de animação. Mas eu já desenhava, diariamente, e quando o Mário Cravo (escultor e gravador baiano) passou por Brasília, viu que eu tinha a ver com a questão afro e me convidou para outra exposição. Em 1967, eu já estava começando a me interessar por outras coisas. Vim pro Rio, comecei a fazer a série dos Espaços Virtuais. Mas até 1990 eu sobrevivia basicamente da venda dos desenhos, que sempre foram muito figurativos, expressionistas.

OP: Você faz parte de uma geração de artistas que cresceram execrando os museus. Como essa visão mudou — ou permaneceu — ao longo do tempo?

Cildo: Naquele momento, minhas obras eram de difícil circulação em galerias e museus. Nós crescemos abominando a ideia de museus e tudo mais. É claro que os museus mudaram também, de várias maneiras. A principal foi tentar se adequar à produção contemporânea, e não só do ponto de vista museológico, da climatização, adequação, mas também no sentido de compreender o que estava se passando. E eu me reconciliei. Sobretudo pela possibilidade, que talvez seja o principal nessa história toda, de tornar minha obra disponível para um público amplo. São detalhes que te fazem repensar. É melhor abrir para o público que deixar tudo encaixotado, mofando.

OP: Você ressignificou as famosas cédulas carimbadas com “Quem matou Herzog” para o caso Amarildo, em 2013. Sua obra se presta a essa restauração atemporal?

Cildo: Nesse caso, esse era o trabalho. É um trabalho que existe quando está sendo feito, não necessariamente por mim. Eu fiz a minha versão, fiz as inserções que achava que tinha que fazer como indivíduo. No bojo dessa coisa toda, da invisibilização, desmaterialização, essa coisa fluida mesmo, esse estado gasoso da matéria, a ideia é circular, sem prazo de validade. As circunstâncias apontarão o fim desse prazo. O trabalho trafega por aí com suas próprias pernas.

OP: As cédulas que circularam recentemente com “Quem matou Marielle” são de sua autoria?

Cildo: Eu soube por um amigo, que me mandou uma imagem. Uma nota, a mensagem com a mesma inclinação. Essa eu não fiz, mas assinaria embaixo.

OP: Embora perca protagonismo na cobertura diária da mídia para questões ditas mais urgentes, como política e economia, a arte se torna mais importante nesses períodos de turbulência política? Qual o seu papel nesse momento?

Cildo: Como artista, qualquer momento é o momento de você lidar com a arte. Produzindo, pensando, discutindo. A questão é que se você for esperar, sobretudo em um país como o Brasil, ter condições ideais para se defrontar com a questão da arte, seja como produtor, consumidor, artista, você nunca vai fazer nada. Essas sempre foram as condições. A questão da arte é continuar fazendo, mesmo que ela não seja protagonista.

OP: As inspirações e substratos para o Cildo de cinco décadas atrás são os mesmos para o Cildo de hoje?

Cildo: Nunca tiveram uma lógica processual. Nunca tive uma maneira de fazer as coisas. Cada trabalho veio de uma origem diversa, dos vendedores de livros das calçadas, do papel celofane amassado e jogado no lixo, das portas e janelas trancadas, os alpendres com grades. Às vezes você sente algo passar rápido na cabeça, alguma coisa que você não sabe o que é, mas que cruzou teu cérebro. Você não conhece a natureza, a cor, a forma… Com o tempo, você vai se aproximando. O meu método de trabalho sempre foi esse.

Cildo: estudos, espaços, tempo

304 páginas
Preço: R$ 120

Ubu Editora

ARTISTA PLÁSTICO CARLOS VERGARA VAI DOAR OBRA PARA LEVAR 'QUEERMUSEU' AO PARQUE LAGE

POR ADALBERTO NETO / O Globo

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Carlos Vergara | Marcos Ramos

8 fev. / 2018 - O artista plástico Carlos Vergara fez uma viagem à década de 70 para montar a exposição Cinco carnavais, em cartaz no Parque Lage. Em conversa com o repórter Adalberto Neto, ele falou do “momento sombrio” das fotos, de como a crise afeta o trabalho e de sua contribuição para viabilizar a “Queermuseu” no espaço.

Vai ajudar a trazer a “Queermuseu” para o Parque Lage?

Claro. Vou dar uma peça minha de preço razoável para o leilão que eles vão promover, de modo que eu faça uma boa contribuição. O Parque Lage representa uma frase de Mário Pedrosa: “O lugar do exercício experimental da liberdade”.

O que quis retratar nas imagens da nova exposição?

As fotos são de 1972, um momento sombrio para o Brasil. Resolvi mostrar o carnaval não como uma festa, mas como um ritual, em que as pessoas se manifestam. Foi um mergulho consciente. E não, turístico.

A crise prejudicou a produção artística?

O meu trabalho é afetado pela crise, como tudo no mundo. Acabo refletindo os efeitos dela na minha arte.

Qual é a importância de uma feira como a ArtRio?

Acho positiva. O comércio é importante, mas não fundamental. Fazer pensar é o mais relevante em arte. Não pinto para vender, mas troco por dinheiro, pois preciso viver.

 

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