TEXTÃO, 2019 (HELOISA DUTRA)

 

TEXTÃO (This email address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it. , DE BRASÍLIA, 2019)

 

A tela mostra o espaço para que eu escreva o que quiser. Lá fora, o silêncio na rua mostra que as pessoas ainda dormem. Dentro, o barulho das teclas do celular. É um recurso um tanto quanto fácil começar a falar sobre o silêncio.Sou especialista em começar. Merda de começo. Começo a escrever sem ter a menor noção de onde vai terminar. Por isso, o que escrevo fique tão ruim. Por isso perco a paciência na metade e aí enrolo o resto, e acho que era por isso que os professores dissem: “Sim, muito bom, mas falta desenvolver...”

Desenvolver. Todo problema da sua vida está em desenvolver. Desenvolver-se nos estudos, na profissão; desenvolver uma relação madura e adulta, desenvolver bons hábitos. Escrevia redação, pois era uma forma curta de desenvolver. Algo que se começa e se termina rapidamente. Isso é o mais difícil: condensar ideias num texto pequeno. Bobagem, é o exercício do preguiçoso.

Notem bem: eu tô dizendo um texto, quer dizer que pode tratar-se de um conto, de um livro, ou romance, ou quem sabe, um romance épico! (Exclamações não são elegantes, são cafonas). Poderia ser um roteiro, uma peça, uma esquete, uma ideia solta, um projeto. Hoje em dia os medíocres encontram nomenclatura para quase tudo. Um texto soa pretensioso o bastante, sem gerar grandes expectativas. Na pior das hipóteses, me defenderei dizendo tratar-se apenas de uma brincadeira – não, não sou uma escritora profissional. Aliás, o que faz alguém se tornar uma escritora profissional? Em que momento pode-se começar a dizer “profissão: escritora” sem que o balconista do crediário das Casas Bahias olhe para você como se estivesse vendo um ET? Quando se publica um livro? Mesmo se ninguém o ler, podemos dizer que somos escritores? (Se uma árvore cair na floresta, sem que ninguém veja, terá caído realmente?). Como se começa um texto? Visto de fora, as biografias parecem plausíveis. Por dentro, toda vida é um caos. Encontro nas lembranças da minha infância, motivos para ser uma escritora. E igualmente motivos para ser jornalista, atriz,engenheira, professora...

O problema todo é a preguiça. Minha preguiça. De viver uma vida que não faz muito sentido. De brigar por coisas pelas quais não acredito muito. De ter sempre muitas dúvidas. E as dúvidas são tão frequentes e assustadoras que duvido até mesmo se as tenho. Dúvida de ter dúvida. Ser sempre “mais ou menos”.

Viver é mesquinho e miserável. Sob qualquer condição. É claro que isso soa muito “intelectual francês” quando se têm barriga cheia, saúde e conforto. Mas é verdade, a condição humana é trágica, e uma coisa é ler nos livros. Outra, bem diferente, é experimentar na própria carne. Sei que existe uma enorme diferença entre ser miserável ou ter uma doença mortal e destruidora, e ser “saudável”, ter onde morar e comer. Objetivamente consigo concordar com esta afirmação. Mas objetividade não é o meu forte.

A pessoa que não come tem apenas uma preocupação: comer. A pessoa que está prestes a morrer tem apenas uma preocupação: viver. Uma pessoa que faz tudo isso, tem várias preocupações além de tudo isso. Se preocupa em ser feliz; em fazer o bem ao próximo; em se posicionar a respeito da invasão do Irã; em ter uma opinião sobre as cotas raciais nas universidades; em saber porque realmente começou a guerra do Vietnã; preocupar com a falta de água, em arrumar um bom cabeleireiro; em melhorar de emprego; em fazer uma dieta; em ser uma boa namorada; em fazer exercícios; em ler mais para saber do que realmente gosta; em manter a casa organizada; em ler Guimarães Rosa, Kafka e Dostoiésvki (e mais alguma coisa que me faça citar outros autores além desses que todo mundo cita sem ter lido); em sair nos finais de semana; em lembrar dos amigos, dos parentes; em ser simpática; em sorrir para velhinhos e crianças nas ruas.

Não que as opções anteriores sejam alternativas mais viáveis – o miserável e o moribundo. Mas viver é duro. Ainda quando aparentemente as coisas sejam simples. Ou, de outro modo: nada é simples.

Eu não consigo. Não queria dizer coisas como essas. Dizem que não é bom, que a gente deve dizer sempre eu consigo. Mas eu não consigo. Simplesmente não consigo. Tento, tento. Minha vida é cheia de não consigos. O que eu sonhei em fazer o resto da minha vida? Quando começa o resto? Sei que já quis ser aeromoça, mas na época me desanimaram porque não existia aeromoça baixinha. Também já quis ser astrônoma, mas isso foi antes de descobrir que seria necessário saber matemática e física (dado que eu erro até na hora de calcular qualquer coisa de cabeça, acho que não seria uma boa ideia).

Gosto das manhãs para escrever. Sempre senti uma espécie de torpor à tarde. Gosto da manhã e do anoitecer. Detesto as tardes. São insossas, quentes e preguiçosas. Tem sempre muito movimento ou algum telefone tocando. Os dias passam absurdamente banais. Tenho a sensação de que passei a vida toda nessa casa. E que toda vida só existe aqui dentro. Nada mais existiu.

sheila lee

Foto de Sheila Lee

Consigo ver outros momentos como esse e isso só aumenta essa sensação. Quando estudava de manhã e ainda não tinha nada para fazer na tarde (cursos e essas coisas que adolescentes fazem e que meus pais não podiam pagar) vagava pela casa vazia à procura de algum divertimento. Não gostava de brincar com as outras crianças da rua. Chatas, elas. Gostava de brincar sozinha. Os dias de chuva eram uma benção. Podia me dar ao direito de ficar em casa sem me sentir a criança mais esquisita do mundo. Dias inteiros passados de um cômodo para outro, lendo alguma coisa, ouvindo uma música, vendo TV, tentando estudar e nunca conseguindo.Assim como aqueles personagens de “Barrados no Baile”, o velho seriado adolescente, como uma metáfora mórbida da minha própria existência. Era uma adolescente sem cura. A sensação de que o tempo passa rápido demais, porque não se produz nada e lento demais porque parece que isso nunca terá um fim. Os dias terminam e a sensação é a de que: “amanhã tudo vai ser diferente”. Mas o dia seguinte é a mesma coisa. A ausência de rotina tornou-se a minha maior rotina.

Às vezes, eu durmo por horas a fio, outras tenho insônias terríveis. Alguns minutos de sono podem ser restauradores. Li isso em alguma revista na sala de espera, do consultório. Não consigo me concentrar em nada durante muito tempo. Quando chove dou graças a Deus. Como se, assim como na infância, não precisasse me esforçar para parecer animada. Nada mais chato do que pessoas animadas. Não felizes, mas animadas. Animada é completamente diferente de feliz. Dinâmicas. Sempre que passo por lojas em shoppings e vejo aqueles anúncios: “Se você é jovem, dinâmica e se identifica com o nosso perfil, venha fazer parte da nossa equipe” dá vontade de entrar e dizer: “oi, eu sou dinâmica”. Só para ver o que acontece.

Em minha peregrinação da sala pro quarto, do quarto para cozinha e da cozinha para sala, espio como anda o mundo nos poucos canais por assinatura - que na verdade se resumem a uns quatro que eu realmente me ligo. É sempre uma esperança pensar que o mundo pode explodir antes que eu precise fazer algo da vida. Mas Deus não seria tão bom. Acho que até uma terceira guerra começar, o melhor é realmente dar uma dormida.

Com 49 anos eu me acho uma caricatura de mim mesma. Sou desproporcional para mim mesma. Uma pessoa que poderia ter sido várias coisas e convive agora com os seus piores defeitos.Também poderia ter me tornado algo bem pior. Claro que sempre é possível piorar. O fato é que eu tenho 49 anos. Não posso sequer me conformar em ser isso mesmo e acabou. Tenho que continuar lutando para melhorar e parecer bem, porque aos 49 anos é isso que esperam de você. Não tenho sequer o direito de desistir aos 49 anos. Sou velha demais para tentar e nova demais para desistir. Somente a arrogância de quem tem 49 anos para se achar velha demais para certas coisas. Sinto um peso enorme nas costas. E olha que já melhorou um pouco.

Tenho muito que dizer. Mas o que realmente importa guarda uma impossibilidade em narrá-lo – e daí a importância de minha tentativa. Se escrever é a arte de cortar palavras, que palavras escolher? Que ideias seriam aquelas que pairam sobre nossas cabeças e ao mesmo tempo guardam particularidades que só quem escreve pode transmiti-las? As palavras escapavam quase tão rapidamente quanto as teclas do computador em digitação cata-milho. As ideias são fugidias e vem na mesma velocidade com que se evaporam. Quero escrever, meus pensamentos vem quase sempre em forma de um texto, mas nunca levo adiante.

Vou escrever sobre a dificuldade em escrever. Sobre o quanto é difícil fazer as coisas de que se gosta. A primeira ideia é boa. Um tanto já explorada, mas não é a originalidade da história que importa, mas o modo como se conta. Grandes escritores fizeram sucesso seguindo essa fórmula. E que – cacete, não estou atrás de fórmulas. Quero me expressar. (Humm, me expressar é bem manjado). Mas essa segunda... sei não. Dificuldade em fazer o que se gosta? Não sei se outras pessoas têm isso, não. Será? Paranooca demais. Então, sobre o que eu escrevo? Sobre essa difícil fase pela qual eu passo – desde que eu cresci, eu acho que “estou passando por uma difícil fase”, mas desconfio que seja uma coisa que chamam de vida adulta.

Bom, em todo caso essa é uma boa maneira de extravasar e uma forma de ter alguma coisa para fazer com uma certa regularidade. Seria uma espécie d’”Em Busca do Tempo Perdido”, ou “A Consciência de Zeno” (muito obrigada,biblioteca pública por diminuir minha ignorância.).

Preciso de tempo para pesquisar especificamente sobre algum tema. A autora de Harry Potter tomava notas das suas ideias muito antes de escrever o livro. Mas que tema? Para isso, eu preciso de tempo e como eu vou ter tempo tendo que cozinhar, arrumar a casa e trabalhar? Ok, posso comer na rua. Posso não arrumar a casa. Mas preciso trabalhar. A autora de Harry Potter fazia tudo isso e ainda tinha um bebê.

Eu queria ser uma dessas escritoras muito modernas, cheias de tatuagens e cabelos coloridos, que falam coisas inteligentes e engraçadas, que tem coragem de expressar opiniões polêmicas e escrevem roteiros para programas de televisão, sendo perfeitamente vistas tanto na primeira fila do São Paulo Fashion Week quanto na capa de um caderno literário. Mas acho que sou muito caipira para isso.

Não. Mentira. Queria nada. Acho essas escritoras um pé no saco e estou apenas sendo sarcástica e exaltando o quanto elas são patéticas.

Escreveria uma história intrincada de tramas e personagens ou algo mais subjetivo e circunspeto? Qual meu estilo? Aí depois eu escreveria para uns 3 ou 4 autores que eu admiro e perguntaria, de um jeito irresistivelmente elegante, o que fazer para ser uma escritora. De modo que a minha pergunta já demonstre o meu potencial, entende? Também mandaria meus manuscritos para algumas editoras, prevendo já algumas recusas que seriam narradas com alguma dose de charme num futuro repleto de glória e consagração. Daí para o grande reconhecimento diante do público e da crítica seria um pulo. Quem sabe adaptassem um filme do meu livro? Quem sabe me convidariam para o roteiro, para atuar ser atriz? Já podia até me ver entre Patrícia Melo e Rubem Fonseca – eu, dizendo o quanto eu aprendi com os meus mestres etc – discursando sobre o romance policial na França do pós-guerra.

Não. Meio viado isso.

Seria, eu, uma outsider? Hoje em dia qualquer um que escreva sem pontuação, fale sobre um tema estranho que pesquisou na internet (mas que nunca viu de perto) e salpique umas escatologias aqui e ali acha que é transgressor.

Preciso escolher se eu quero ser a mulher que escreveu Harry Potter (nunca lembro o nome dela) ou a Patrícia Melo. Também preciso tirar a roupa da corda,trabalhar e emagrecer.

Contento-me com restos, migalhas. Durante muito tempo minha luta foi em sobreviver. Viver bem já seria um luxo. Sem minhas manias, obsessões e fobias a me atrapalhar a vida. (Talvez eu fale isso em outra postagem. Em um livro, quem sabe. Uma grande trilogia...). Na próxima crise tudo volta e eu escrevo sobre os mesmos temas. Tenho vários textos idênticos começados e nunca terminados. Às vezes parecem plágios uns dos outros. Minha vida é um plágio dela mesma. É só copiar, colar e cortar partes redundantes. E agora o trabalho é juntar todas as peças. Mas talvez esse seja o meu jeito. Aos tropeços, sangrando, me arrastando. Poderia ser mais fácil, pelo menos para algumas pessoas são. Mas não para mim. Talvez escrever seja esse trabalho de ajustar algumas coisas em alguns lugares e cortar o excesso. Tenho dificuldades em me ajustar. E cortar os excessos...