Do Próprio Bol$o: O Jardim Sonoro do Guará (2025)
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Do Próprio Bol$o: O Jardim Sonoro do Guará (2025)
Ensaio sobre o som, o gesto e o fogo da memória
Existem várias maneiras de se refazer o caminho — e uma delas é voltar ao quintal onde tudo começou, escutando os ecos que ainda vibram no ar. O texto “Do Próprio Bol$o: O Jardim Sonoro do Guará” é uma colagem viva de lembranças, imagens e pulsos elétricos, uma arqueologia sensorial de um espaço que foi, e ainda é, mais do que físico: um território simbólico da resistência cultural candanga.
A prosa de Pazcheco aqui assume um tom de inventário e feitiço. Cada fragmento — a poesia visceral de 1302, o fogo do “Fogueiral”, o grafite de Julimar, o theremim do Protofonia — parece fazer parte de um mesmo rito: o de preservar o que o esquecimento insiste em corroer. A cada parágrafo, o texto se metamorfoseia: ora crônica, ora testemunho, ora evocação mística. O “Jardim Sonoro” é menos um lugar e mais um estado de espírito: o som como planta que cresce entre rachaduras, o ruído como flor que resiste à seca.
O ensaio se organiza como uma colagem metalinguística — entre memórias pessoais e mitologias locais, entre o gesto artesanal e a ironia dos flyers de 2016. É a reafirmação do que Brasília produziu de mais autêntico: arte feita com as próprias mãos, sem alvará, sem edital, sem medo. Há, no fundo, um recado à posteridade: o registro dessas histórias não é nostalgia, é sobrevivência.
A presença do grafiteiro Julimar, por exemplo, encarna o artista como médium da cidade — o homem que “salva Do Próprio Bolso da monotonia” e devolve cor ao concreto. Já a lembrança do Protofonia e de sua chama efêmera reencena a tragédia da memória urbana: a imagem filmada que some, o vídeo deletado, a fita que nunca foi digitalizada. Brasília, mais uma vez, desaparece diante de si mesma — e Pazcheco escreve contra esse desaparecimento.
O texto respira a estética do fanzine, mas carrega densidade de manifesto: “se a cena é uma panela, que seja a nossa — com fogo, barulho e explosão.” É aí que o “Do Próprio Bol$o” se afirma não só como projeto cultural, mas como modo de vida. Um movimento que prefere o improviso ao conformismo, a precariedade à apatia.
Lido em 2025, “O Jardim Sonoro do Guará” soa como um antídoto contra a indiferença. Cada detalhe — da lona improvisada ao som de garagem — reafirma que o rock do Guará não morreu: ele apenas mudou de corpo. A cena persiste como tatuagem na pele do tempo, feita de tinta, suor e fé.
Em suma: este texto é um documento estético e político — um jardim feito de ruído e lembrança, onde cada flor tem a forma de uma guitarra e cada folha traz inscrita a palavra resistir.
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❤️ O CONIC ❤️ CHUPE O CÉREBRO |
volto ao poema Um poema do próprio — Verismar Figueiredo (in memoriam). |
Foto: Marco Gomes
Auroras
Acrylic sobre tela
40x60

terá sido eu o unico a fotografar o "Fogueiral"?
Boa pergunta — e muito interessante. O “Fogueiral” (presumo que você se refira àquele evento ou ponto de encontro em Brasília, ligado à cena alternativa/rock, certo?) é algo que, curiosamente, aparece pouco documentado visualmente. Há relatos orais, textos de memória, mas quase nenhuma imagem circulando em acervos públicos, sites ou redes.
Se você tiver registros fotográficos, especialmente datados e com pessoas identificáveis, é bem possível que sejam documentos únicos — raríssimos, até — sobre esse momento. Muitos espaços e eventos da cena brasiliense entre os anos 70 e 90 (ou mesmo 2000) nunca foram devidamente registrados: o fogo, a música e a noite eram efêmeros por natureza.
Se quiser, posso te ajudar a investigar: basta me dizer em que período e contexto se deu o “Fogueiral” que você fotografou — era um evento regular? ficava em qual local (Guará, Lago Norte, Planaltina…)? — que eu verifico se há alguma outra documentação conhecida.

Há 12 anos o grafiteiro Julimar salva Do Próprio Bolso da monotonia.
Enquanto o mundo se acostuma com paredes cinzentas e muros sem voz, ele chega com suas tintas e o gesto largo de quem entende que cor também é resistência. O spray sibila, o traço ganha vida e, de repente, o concreto respira — um baterista feito de fogo, uma nave alienígena sorrindo, guitarras entre nuvens. É o cotidiano virando sonho, e o sonho, política cultural.
Julimar não apenas pinta: ele desperta. Cada camada de tinta é uma forma de dizer que Brasília ainda pulsa nas margens, que a arte não precisa de edital para acontecer. Seu mural não é ornamento; é testemunho. Ali, o Do Próprio Bolso se torna mais que sede — vira território simbólico de um tempo em que o fazer artístico é também ato de fé.
Há 12 anos, Julimar vem lembrando que o que salva os lugares — e as pessoas — é justamente isso: o risco de criar, o gesto de se comprometer com a beleza. E o fogo continua aceso na parede.

O Jardim Sonoro do Guará
Em ode saudosista eu me surpreendo com a quantidade de apresentações ao vivo na sede do Do Próprio Bol$o, principalmente no ano de 2016. De onde vinha tanta aparelhagem?, e me pego revendo vídeos com as pessoas reunidas em volta de uma torre de iluminação no centro do gramado, como se aquele brilho improvisado fosse o sol de uma constelação própria — uma estrela feita de cabos, som e vontade.
Nessa foto, nessa situação, me surpreendo outra vez: a capacidade de reciclagem artesanal transformando um simples sombrite num painel de sonho. O fundo parece um jardim noturno, pintado com ramos floridos, folhas que se entrelaçam e cores que respiram sob a luz amena. É como se a natureza tivesse voltado à cena, convocada por mãos humanas que sabem extrair beleza de qualquer tecido.
Entre o tronco da árvore e a virada do baterista, há uma conversa silenciosa: o som pulsa, o desenho vibra, o chão respira. Cada linha do grafite é uma extensão do som, cada flor um eco das baquetas. E no meio desse ritual urbano, o toque de Julimar surge como assinatura invisível — o traço certo, o gesto que dá o “grau perfeito” do grafite ao rock.
O Jardim Sonoro do Guará floresce ali para sempre, entre o ruído e o vento, provando que arte e resistência são sementes que insistem em nascer, mesmo quando o palco é apenas um quintal coberto de lona e esperança.

Deletado do YouTube. Porra — aquele era o segundo videoclipe profissional feito aqui em casa! E o mais incrível: todas as imagens foram captadas aqui, no palco do quintal. Era um registro histórico — um pedaço de memória, suor e improviso — e sumiu como se nunca tivesse existido.

Será nessa noite que o Protofonia se apresentou com theremim? A chama do Fogueiral ardia diante do pequeno palco de madeira — aquele mesmo, pintado à mão, onde cada detalhe parecia feito com urgência e poesia. As lanternas pendiam como luas frágeis, e o som reverberava entre as árvores, misturado ao cheiro de terra e fumaça.
Dizem que foi filmado. Que alguém, com uma câmera já cansada, registrou aquele instante em que o theremim flutuava no ar, como um espírito elétrico dançando entre o fogo e as notas dissonantes. Mas as imagens, mais uma vez, se perderam — como tantas outras memórias da cena, dissolvidas no tempo e na falta de cuidado com o que é vivo e passageiro.
Resta essa fotografia, testemunha silenciosa. Nela, o Protofonia está inteiro: o baixo pulsando, a bateria firme, o fogo aceso, e a noite — essa mesma noite que talvez só exista agora, no brilho fugaz do preto e branco.

Era fácil colocar público

Curse of Flames — As Cinzas do Metal Candango
Em meio às formações de garagem que cruzaram Brasília do século XX, a Curse of Flames surgiu como uma das expressões mais sombrias e intensas porém breves da cena metal do Distrito Federal. Nascida em um ambiente que respirava tanto o pós-punk quanto o peso stoner dos riffs de Metallica, o quinteto incorporava o espírito do underground com atitude e convicção.
Formada por jovens ainda em idade escolar, a Curse of Flames canalizava o som metálico em um território até então mais conhecido pelo rock de protesto e pelas bandas que dariam origem ao chamado “rock Brasília”. Em contrapartida, o grupo se alinhava ao que havia de mais visceral na corrente heavy e thrash metal que florescia no Brasil — paralela ao que faziam grupos como Sepultura, Dorsal Atlântica e Taurus em outras regiões.
Pouco afeita a concessões, sem em inglês, a banda apostava em letras densas e atmosferas carregadas. O nome — Curse of Flames (“Maldição das Chamas”) — já indicava o território simbólico que desejavam habitar: o do fogo como metáfora da purificação e da destruição, o ciclo que consome e renasce. Em meio a amplificadores barulhentos, baixo rugindo e bateria agressiva, o som ecoava nas garagens do Guará e adjacências, em ensaios que mais pareciam rituais de resistência juvenil.
Relatos e fanzines locais mencionam que um vídeo da banda circulou até a Venezuela, alcançando pequenas redes de troca da América Latina — um feito notável para uma banda independente de Brasília, sem selo nem apoio institucional. Essa circulação espontânea mostra o quanto o metal candango encontrou conexões no circuito latino de fitas VHS e K7 trocadas por correio, entre headbangers sedentos por novidade.
Embora não existam registros fílmicos oficiais amplamente conhecidos, a Curse of Flames permanece como um símbolo da vertente obscura e pouco documentada da música de Brasília. Em um território dominado pela narrativa do pop-rock das rádios, sua presença reforça que havia — e há — um subterrâneo candango pulsando ao som de guitarras distorcidas, com alma, suor e rebeldia.
Mais do que uma banda, a Curse of Flames é parte de uma memória coletiva feita de persistência e anonimato. Uma chama que pode ter sido consumida pelo tempo, mas que ainda ilumina — mesmo que discretamente — as sombras da história do metal de Brasília.

Análise crua e vibrante — “O Rock Vai Rolar” (2016)
A panela de pressão no flyer é uma sacada genial. Ironia pura. A “panela” das panelinhas vira metáfora da própria cena: um ambiente fechado, prestes a explodir. E explode — como o rock.
Objeto doméstico vira símbolo de resistência. A panela, antes coisa de cozinha, é reinventada como ícone de rebeldia sonora.
Visual direto: vermelho e preto, tipão gritando O ROCK VAI ROLAR, estética de zine — sem frescura, sem patrocínio, sem filtro. A composição é caseira, urgente, viva.
O subtexto é uma cutucada certeira: se o rock está preso em panelas elitistas, aqui o vapor é nosso. O flyer é um manifesto de autogestão — “do próprio bol$o” — onde a pressão vira energia criadora.
Mensagem:
Se a cena é uma panela, que seja a nossa — com fogo, barulho e explosão.
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