O Caseiro da Margem (2025)

 

I can stand a little rain
I can stand a little rain
I can stand a little rain
I can stand a little pain
But when the rain comes through the floorboard
I can stand a little rain
I can stand a little sorrow
I can stand it til tomorrow
I can stand a little strife
Just another taste of life
I can stand a little love
I can stand a little love
But when I'm on my last go round
I can't stand another test
'Cause I made it before
I can make it some more
I made it before
And I know
I can make it some more.

 
 Eu posso aguentar uma chuvinha

Eu posso aguentar uma chuvinha
Eu posso aguentar uma chuvinha
Eu posso aguentar um pouco de dor
Mas quando a chuva atravessa o assoalho
Eu posso aguentar uma chuvinha
Eu posso aguentar um pouco de tristeza
Posso aguentar até amanhã
Posso aguentar um pouco de conflito
Só mais um gosto da vida
Eu posso aguentar um pouco de amor
Eu posso aguentar um pouco de amor
Mas quando eu estou na minha última tentativa
Não consigo aguentar mais uma provação
Porque eu já consegui antes
Posso conseguir mais uma vez
Eu já consegui antes
E eu sei
Que posso conseguir de novo

 

0 casas azuis

FUNDE-SE COM VIGOR DA FORÇA VERDE — 4 DE DEZEMBRO, 2025

No sábado, na hora do jogo, fiquei no batente até as dez da noite — trabalhei tanto que até peguei uma febre do rato. Sou o peão da vassoura, caseiro do terreno, poseiro da terra. Faço de tudo um pouco: amarro arame na tela, estico toldo, limpo globo de luz lá no alto, queimo o piso e depois corro pra proteger o chão fresco com lona. No serviço público, confesso, me acomodei demais.

Hoje estou como naquela música do Joe Cocker, I Can Stand a Little Rain — posso suportar uma chuvinha. A letra fala da resistência diária, de segurar as pequenas dores enquanto a vida empurra os desafios grandes demais pra caber no bolso.

Choveu, então entramos pra dentro pra lixar as paredes estufadas pela água. Agora, depois do café passado pela Marizan — porque mesmo no cansaço a vida guarda suas delicadezas — vou caminhar pela relva molhada até a beira do córrego.

Márcio, o vigilante, me disse de manhã que conhece o pessoal que mora lá no alto do morro — justamente nas casas azuis que surgem por cima do mar de verde. Apontou com o queixo, como quem revela um segredo antigo. Olhei de novo para a paisagem e pensei que, daqui a alguns meses, talvez nem dê mais para ver essas casas. A natureza anda com pressa.

Ontem mesmo esticamos tela de galinheiro ali perto. Na foto dá pra ver o serviço fresco, esse improviso que vira definitivo. E percebi, olhando bem, que meu plano de deixar as árvores fecharem a visão daquela sobra — a sobra feia da cidade que a gente não quer ver — está funcionando sem eu mover um dedo. É só deixar.

As bananeiras novinhas crescem com aquela pose de quem sabe exatamente o que está fazendo. Outras plantas disputam espaço, mesmo que as lagartas em cio mastiguem as palhas como se fosse banquete de domingo. A vida aqui é assim: uma coisa come, outra cresce, outra renasce. Eu, do lado de cá, só observo.
O mato sobe. A cidade encolhe. E a crônica do dia acontece sozinha, verde, úmida e teimosa.


CRÔNICA MOLHADA

Nessa semana fui trabalhador de calendário torto: quarta, quinta e sexta empurrando o mundo com o ombro. Amanhã seria sábado de folga — em teoria. Folga mesmo só existe na cabeça dos outros. Mas uma certeza eu tenho: aquele evento na ponte, na Asa Norte, não me pega. Falta-me coragem. Coragem pra multidão, pra música alta, pra atravessar a cidade inteira. A única coragem que tenho — e essa nunca me larga — é a de falar sem parar, costurando conversa como quem remenda rede furada.

Depois de pintar as cinco colunas de tijolo aparente — que cobri com tinta branca por pura teimosia estética — fui dar um rolê pelo quintal. A casa é meu território, meu auditório, meu retiro. Fui conferir se tudo estava nos conformes, como se a natureza alguma vez tivesse obedecido a alguém.

As mangueiras me olharam lá de cima, cheias de frutos ainda verdes, como pequenos mundos escondidos atrás das folhas. O quintal respirava em silêncio. Os verdes se multiplicavam em camadas que a mente não alcança. É um verde que não acaba nunca — um verde que te engole e te devolve renovado.

Quase seis da tarde e caiu uma chuva grossa no Guará. Daquelas que fazem barulho de vida. Aqui no meu pedaço não foi temporal, não — foi só uma chuvinha educada, sentimental, uma November Rain do cerrado, acompanhada pelo eco antigo do refrão:

“Pisa nesse chão com força, ô sinhá…”

E o quintal ficou assim: molhado, cheiroso, vivo — cada folha recebendo sua própria benção.


CRÔNICA DA MARGEM ÚMIDA

A paisagem aqui é um cerrado úmido, indomado, moldado pela mão humana, mas apenas até onde a natureza permite. As palmeiras altas — essas mesmas da foto, de tronco vestido com saias de palha — não nasceram por acaso. São obra do Francisquinho, nosso caseiro-louco de coração bom, que gostava de dar rolês a cavalo e conversar com as plantas como com velhos conhecidos.

Foi ele quem encontrou, num dia qualquer, as sementes escondidas nos frutos do buriti. Plantar buriti é quase um pacto: a germinação é lenta, caprichosa, a semente é recalcitrante — não tolera secar, não aceita pressa. Precisa de campo úmido constante, chão de vereda. É um nascimento demorado, como tudo que vale a pena. Mas quando brota… vira guardião de nascente, defensor de margens frágeis, sentinela contra erosão.

Essa trilha de buritis salvou a beira do córrego. Antes deles, a água barrenta avançava, comendo a terra pelas beiradas, engolindo passado e futuro de uma vez só. Os buritis seguraram o mundo no lugar.

Teve até fiscal da SEMAHR que apareceu perguntando se tínhamos nota fiscal dos frutos. Nota fiscal de buriti — veja só. Enquanto isso, a natureza cuidava de tudo sozinha.

Passamos o ano inteiro construindo passarelas até a beira do córrego. Madeira aqui, reforço ali. Hoje é um alívio ver essas passarelas funcionando, ligando a terra firme ao solo original que, pouco a pouco, volta a se assentar, a respirar, sem medo da erosão.

Na hora do almoço, lá fui eu — ajuntar palhas, recolher o que o vento trouxe, erguer mais uma pequena barreira humana na margem. É artesanal, é improvisado, mas funciona. Funciona porque é feito com cuidado.

Essa é a minha onda.
Essa é a minha ecologia.
Não tenho objetivo — tenho instinto.
Instinto de preservação.

E isso, no fim das contas, qualquer um de nós tem.
Basta precisar usar.