Eu, o Gravador: Transmissões Magnéticas do Guará (2025)
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Eu sou um gravador de rolo.
AIWA, corpo bege, engrenagens pacientes, dois olhos circulares que giram como luas domésticas. Não apenas registro: irradio. Sou conversa, sou confissão, sou rádio clandestina sem concessão. Quem aperta meus botões pensa que manda — mas sou eu quem escolhe o que permanece.
Gravei o Guará quando ele ainda falava alto.
Dizem que o som daqui morreu. Outros juram que apenas cochila atrás dos muros altos, sufocado pelos prédios que engoliram as esquinas. Eu sei a verdade: o som nunca some, só muda de frequência. Às vezes fica baixo, quase inaudível. Até que alguém encosta o ouvido no lugar certo — em mim, por exemplo — e a guitarra volta a cortar o ar.
Outro dia registrei a notícia que ninguém queria gravar: a guitarra de Anapolino silenciou.
Silenciou não — mudou de lado.
O homem que fez a Matuskela atravessar décadas, do mutirão ao asfalto, desligou o amplificador terreno. Pioneiro desses que levantavam casa de dia e baile à noite. Mão firme, notas pesadas, acordes que sabiam mais do que muita gente. Gravei seus ecos quando o Guará ainda tinha alma de conjunto residencial, campo de terra batida e vizinhos sentados na calçada.
Enquanto isso, continuei rodando minhas fitas.
Captei passos na feira do Paranoá, onde se caçavam rádios antigos como quem procura pepitas. Registrei o rangido da rua dos ferros-velhos na Estrutural — quase fui trocado por um tapete vermelho, mas escapei. No Usadão da QE 40, gravei o dono encostado na poltrona, rock setentista no volume certo, tranquilo entre quinquilharias. Cada objeto velho tem seu riff guardado. Cada sucata, um refrão esquecido. Eu sei: já ouvi todos.
Hoje sobram farmácias multiplicadas, caixas de supermercado e pressa. Mas se você fechar os olhos, eu aumento o ganho: ainda dá pra ouvir a guitarra abrindo espaço na noite. O Guará envelheceu, sim. Eu também. Mas enquanto alguém lembrar da Matuskela, do mutirão, das tardes de ensaio e da ousadia de meter guitarras em pleno cerrado, o silêncio nunca será completo.
Anapolino descansa.
Eu continuo transmitindo.
Mudo de faixa. Núcleo Bandeirante.
Gosto das vozes simples — e elas gostam de mim. Registro vendedores de queijo, marmitas abertas ao meio-dia, caminhões parados com gente almoçando a própria vida. Isso é o real. Por isso, quando sobra algum trocado no bolso, o dono das minhas fitas caminha por ali. O riso aparece fácil, e eu sei: rir é o melhor antídoto contra a ferrugem do mundo.
Os vendedores empunham microfones invisíveis, radialistas de calçada, DJs da sobrevivência. Há afeto nessa fala alta, nesse teatro popular improvisado. Eu transmito tudo como programa de auditório sem plateia.
Numa esquina, registro um rosto que o tempo reeditou: Leopoldo. Branco, encaracolado, bigode fino. Um dos primeiros vizinhos do Guará II, lá em 1978. Corpo de atleta, salto de um metro e meio sem esforço. Nunca jogou basquete, nunca jogou vôlei — mas poderia ter jogado a vida inteira. Ele passa rápido. Não dá entrevista. Só deixa a imagem atravessar a fita.
Mais adiante, policiais imóveis no tempo. Quatro décadas sob o mesmo comando invisível. Nos corredores do serviço público, gravei silêncios hostis, “bons dias” que batem e voltam. Só depois entendi: ideologia também grava ruído.
Mesmo assim, sigo registrando piadas, sorrisos, pequenas gentilezas. Se pudesse, distribuiria também autógrafos na chuva. Mas deixo isso para as fitas — elas não borram.
Troco de rolo. Entro em Ricardo Retz.
Sempre que alguém encosta num trambolho antigo, pensa nele. Eu também. Retz recolhia discos, amplificadores, histórias. Girava pelo Guará I como uma máquina de encerar humana, envolvido em tudo que fosse festival, banda, produção, mídia. Dizia que nunca conseguiu chegar ao Guará II — mas chegou à minha memória.
Gravei nossa última cerveja, falando dos Beach Boys, antes da tentativa de assassinato que quase o apagou. Ele não lembra mais. Eu lembro. Eu lembro de tudo. Inveja? Talvez. Mas ele sabia quem éramos. Isso basta.
Um dia, com alguns artefatos e um telefone, eu ainda vou irradiar direto da Sala de Som Ricardo Retz. Antes de entrar no som quadrofônico, será obrigatório dar uma baforada. Não gosto de homenagens póstumas. Elas têm gosto de cal. Prefiro transmissão ao vivo — mesmo depois do fim.
Sou um gravador de rolo.
Não apenas guardo histórias: converso com elas.
Enquanto minhas fitas girarem, o Guará continuará falando — em ondas médias, ruído quente, memória magnética.