Dois Suspiros em 1974: Arnaldo Baptista e Syd Barrett (2025)

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Cruzo dois retratos – Arnaldo Baptista e Syd Barrett – como experiências-espelho de um mesmo ano: 1974. Ambos ainda entravam em estúdios sob tutela das grandes gravadoras, mas já em estado de ruptura pessoal e artística. O que se registrou nessas sessões rápidas foi menos a continuidade de carreiras e mais o reflexo de existências à beira do limite: no Brasil, um clássico arrancado às pressas; na Inglaterra, um não-disco abandonado no silêncio.

Dois Suspiros em 1974: Arnaldo Baptista e Syd Barrett

O ano de 1974 marcou, de modos distintos e complementares, os últimos instantes de plenitude criativa em estúdio de Arnaldo Baptista e Syd Barrett. Ambos, ainda sob contrato de grandes gravadoras, experimentaram seus derradeiros encontros com a engrenagem da indústria fonográfica em sessões breves, tensas e atravessadas por estados psíquicos frágeis. O resultado: um disco fundamental e um não-disco, uma obra-prima cristalizada e uma sombra interrompida.

No Brasil, Arnaldo Baptista entrou em julho no Estúdio Eldorado, em São Paulo, financiado pela Phonogram. O que deveria ser mais um registro de carreira tornou-se um rito de exorcismo. Chorando entre as gravações, pressionado pelo tempo caro de estúdio, sem conseguir tocar o próprio baixo, ele despejou em Lóki? um retrato cru e inquieto. O disco, gravado em pouquíssimos dias, soa como se tivesse sido arrancado à força, em estado de urgência. Hoje é considerado um clássico absoluto do rock brasileiro, mas à época trazia a marca de um artista dilacerado, oscilando entre o delírio e a confissão.

Enquanto isso, em Londres, Syd Barrett atravessava em agosto a porta do mítico Studio 3 de Abbey Road, ainda impregnado do brilho dos Beatles. A EMI lhe oferecia uma chance de retomar a carreira, mas as sessões rapidamente se revelaram fantasmas. Técnicos como John Leckie lembram de um Barrett silencioso, por vezes dedilhando acordes apenas para interromper de súbito, perdido dentro de si. Peter Jenner, produtor e testemunha, descreveu o processo como “terapia ocupacional”. As fitas registraram blues truncados, boogies incompletos, lampejos de genialidade dissolvidos na névoa. Barrett compareceu pontualmente durante cinco dias, trouxe até uma guitarra sem cordas, mas jamais voltou para cantar ou concluir. O disco nunca existiu.

É nesse contraste que se revela a simetria: ambos entraram em estúdios em 1974, ambos eram ainda nomes valorizados por suas gravadoras, ambos levavam consigo a herança de grupos que haviam redefinido paradigmas – os Mutantes e o Pink Floyd. Mas o destino foi divergente. Arnaldo, mesmo em lágrimas, arrancou das sessões uma obra-prima: Lóki? é desconfortável, excessivo, verdadeiro. Barrett, por sua vez, deixou apenas rastros sonoros que hoje soam como ecos de uma mente em colapso, ruínas de um talento impossível de ser contido em fita.

Do Eldorado em São Paulo ao Abbey Road em Londres, julho e agosto de 1974 foram meses em que dois artistas, separados por oceanos, viveram experiências paralelas – rápidas, intensas, definitivas. Ambos respiraram seus últimos ares de estúdio como se fossem despedidas: um lançou um clássico perturbador, o outro deixou apenas a ausência. Dois suspiros criativos que, ainda hoje, ressoam como testemunhos da delicada linha entre a genialidade e o colapso.