Irmão Victor: Passos simples para transformar gelatina em um monstro (2016)
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Passos simples para transformar gelatina em um monstro – Irmão Victor (2016)
por: Tiago Rabelo
No meio do oceano de dissonâncias existenciais/desistenciais de nosso triste tempo, escuto, por recomendação de André Gurgel (Protofonia), um disco que me deixou boquiaberto com a combinação perfeita de referências alheias e distantes, que lembram o dito de Leon Tolstói: “Cante tua aldeia e serás universal”. O projeto pessoal de Marco, um músico de Passo Fundo – Rio Grande do Sul, que gravou sozinho esta surreal colagem sonora com homenagens subliminares aos espaços e pessoas de sua cidade. A inspiração do nome da one man band é de um irmão marista da escola onde Marco estudou, e sua fixação com o personagem Diógenes Luis Basegio, médico proeminente de Passo Fundo, membro afastado da Academia Passo-Fundense de Letras, figura icônica que caiu na práxis comum do brasileiro alçado ao poder, sendo acusado de desmandos como deputado estadual, tendo renunciado ao mandato (ele iria cantar rap em uma faixa: D.U.R.O.), me chocando com a percepção pessoal de uma obra tupiniquim aos moldes de A Wizard, a True Star, de Todd Rundgren, álbum desconhecido no Brasil, lançado em 1973 e que fez a cabeça de gente como Steve Harris, do Iron Maiden. A sequência psicodélica-psicosólida de harmonizações jazzísticas e erupções oníricas do tipo: “O gorro do Papai Noel não entra na cabeça de quem já aprendeu a fórmula de Bhaskara, e já saiu na noite, e já deitou na cama com alguém; crescer é uma merda, tudo se paga, vamos dar uma volta!”. Não consigo dissociar a magia de quem não se esforçou em parecer démodé, blasé ou qualquer termo cafona-dândi para um disco virtual que, se fosse lançado em formato LP/CD, estaria guardado na minha estante ao lado de discos d’Os Mutantes, do Lóki, do Arrigo Barnabé ou de Itamar Assumpção, com a diferença de ser algo de nossos tempos, imaculadamente fresco, mesmo com a fórmula cheirando a naftalina, sem laivos de patchouli.
Existem diversos trechos das letras que me percorrem a sinapse cerebral todos os dias desde que ouvi o álbum, mas me prolongar em divagações sobre onde andará o Pedro Alcides, ou a dúvida se “enforcar neném” é uma metáfora sobre masturbação, é uma missão pessoal e intransferível que deixo para o leitor...
Aos que leem o dopropriobolso.com — e, apenas por isso, já são parcela insignificante daquilo que se condiciona chamar de “cultura contemporânea” — e, por tal razão, sendo almas marginais ao mainstream, peço que escutem algumas vezes esta obra-prima; e, se não for capturado e abduzido na primeira audição, com certeza ficará com uma sensação estranha a lhe remoer a mente!
Dedico o texto aos queridos e geniais Mário Pazcheco, Antonio Celso Barbieri, André Gurgel, Thomé de Souza e Célio de Moraes.
Músicas:
- Órbitas ao redor da estátua de Vítor Mateus Teixeira
- O Tendel
- O Famoso Ritual do Feto Suspenso
- Vamos dar uma volta
- D.U.R.O.
- Mingus Loratadino No. 1
- Eu morava perto do quartel
- Assistindo “A Vaca e o Frango” com a Salete
- Onde é que foi parar o Pedro Alcides?
- Mingus Loratadino No. 2
- A Flor do meu bairro se mandou
- Ascensão e Queda do Pub 540