Carlinhos Guimarães e as Conicções Genuínas do Glitter (2026)
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Não se sabe em que confins foi parar a arte de Carlinhos Guimarães. Por uma espécie de reciprocidade generosa — de ambas as partes — guardo alguns quadros seus, fragmentos que não chegam ao clímax do autor, mas ainda assim carregam vestígios do que ele era. O restante parece soterrado: despedaçado, disperso, perdido sabe-se lá onde. E, no entanto, essa arte insiste em reaparecer. Às vezes, basta o relance de uma imagem de seus quadros nas páginas do Facebook para que tudo retorne de imediato — como se a memória, acionada num clique, recompusesse o que o tempo tentou apagar.
Carlinhos Guimarães era desse tipo que não atravessa a cidade — infiltra.
Habitué das tapeçarias, das tabacarias, dos puteiros do Riacho Fundo II. Das aberturas, nunca dos simpósios. Não tinha paciência pra discurso — preferia o gesto, o risco, o quase flagrante.
Sua arte era glitter. Não o brilho fácil, mas o que gruda, o que denuncia presença depois que o corpo já saiu. Espalhava vestígios. Armava armadilhas como quem reorganiza o espaço sem pedir licença.
Naquela exposição — paredes vigiadas, silêncio de galeria, o prédio lá fora repetindo suas janelas como um mantra burocrático — Carlinhos viu o ponto fraco. O quadro não estava pendurado: estava preso. E tudo que é preso pede ruptura.
Quando Zéantônio tentou retirar, não houve retirada — houve colapso. O quadro se despedaçou como se já estivesse esperando por isso, como se a obra fosse exatamente aquele instante: a quebra, o susto, o erro transformado em acontecimento.
Dentro da ADM, veio o protocolo. Detido. Enquadrado. Nome anotado em papel que nunca vai entender o que aconteceu ali.
Mas Carlinhos nunca coube nesses registros.
Era como essa figura da imagem: um corpo estranho diante da ordem, um acidente elegante, uma ameaça silenciosa. Espinhos nas costas, salto alto na realidade, cabeça em outro lugar.
Desses companheiros loucos que a cidade tenta expulsar, mas que ficam — grudados como glitter — nos cantos da memória.
E desses, convenhamos, jamais nos livraremos.