“Nossa Senhora, Espero que o Diabo Tenha Misericórdia” (2025)
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2025 – 13 DE OUTUBRO
“Nossa Senhora… eu espero que o diabo tenha misericórdia.”
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Sei quem é, já ouvi falar, mas não conheço.
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Meu Facebook virou uma mistura de lavagem cerebral com diarreia dizimística. Cada post parece um teste de resistência: números de seguidores, streams do Spotify, likes que se perdem no vento. A experiência digital é uma falácia das grandes, um pequeno enfrentando um gigante de algoritmos e egos inflados.
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Essa pergunta — “E se Deus fosse preto?” — não é brincadeira. É uma das provocações mais potentes do século XX. Não quer resposta literal; quer nos confrontar com poder, preconceito, representação.
🕊️ No campo teológico, desafia séculos de imagens do divino feitas pelos dominadores: por que Deus foi pintado de branco se Ele é para todos?
⚖️ No campo social, questiona o racismo estrutural, a colonização da espiritualidade. Autores como James Cone e Oliveira Silveira mostraram que Deus com rosto negro é Deus ao lado dos oprimidos.
🎨 Na arte, Giselda Trindade e Gregory Porter cantam a mesma revolta, lembrando que a fé só é libertadora quando devolve a Deus todas as cores da humanidade.
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É TEMPO DE ORKUTICÍDIO
A notícia dizia: “Raio mata dois pescadores no rio Araguaia.”
O comentário abaixo: “Ainda bem que compro peixe na peixaria.”
Outro, frio: “Ninguém é obrigado a nada.”
E o pior: “Se macumba funcionasse, preto andava de iate.”
A frase interrompida na TV soou como um presságio: “Nossa Senhora… espero que o Diabo lhe…” – e carregue, talvez, o peso de tudo. Fiquei ali, pensando se minha cabeça encolheu ou se o mundo encolheu dentro dela.
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Stélio Nato era um rato de primeira, daqueles que a gente conhece de outros carnavais e canaviais. Fui convidado para um casamento — cenário improvável para minhas ereções sociais — e lá estava ele, gravata vermelha, tesoura ameaçadora: “É a gravata do noivo. Estamos arrecadando para a diária do motel.”
O empresário ao lado pagou 200 reais para a felicidade imediata do Rato. Ele ainda me olhou: “E você?” Respondi seco: “Eu passo.” Peguei um cálice de champanhe e o encarei com intimidação silenciosa.
Stélio Nato era mestre na arte da manipulação cultural: rodízios de datas, substituição de porteiros, taxas sobre taxas. No fim, sobrava quase nada para as bandas, e eu tinha que assistir, impotente, como se estivesse representando uma banda na minha própria casa.
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Entre o divino negro, os algoritmos enlouquecidos, os raios no Araguaia e os ratos de gravata vermelha, percebi que vivemos num teatro de espelhos: cada um grita, poucos escutam, e a irracionalidade responde por nós. Resta, talvez, um cálice de champanhe e a certeza de que o diabo terá muito trabalho para carregar o peso de tudo isso.