Blues da Alienação (2026)

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Blues da Alienação

08/07/2026

Ontem eu estava com um bicho-de-pé bem embaixo do dedão do pé direito. Doía e parecia até atrapalhar a circulação do sangue. Meu genro, com um espinho, conseguiu aliviar a dor, e eu sorri.

Estou com os dentes vencidos, sem a carteira de identidade, sem a carteira de motorista e com um par de tênis esperando para ser lavado. Quero arrumar as revistas da biblioteca, tirar a poeira com o espanador. Atchim.

Também quero digitalizar as fitas de vídeo. Algumas já estão no canal do YouTube, e acho que estou ficando viciado em assistir vídeos. A alienação é um produto fácil de consumir: é como ficar olhando o saldo no celular o tempo todo, sem saber exatamente o que se procura.

Criei coragem para comprar uma lata de verniz, e um amigo virá buscar o compressor. Não quero trabalhar em casa amanhã. Talvez eu vá ao zoológico. Sinto saudades do tempo em que as crianças eram pequenas e o mundo parecia caber em um passeio de domingo.

Às vezes penso que estou velho. Às vezes penso na morte, o que talvez seja a coisa mais normal do mundo. A gente toma uma pílula e segue em frente. Mas a cabeça dói, e o pensamento assusta: será algo sério?

Enquanto isso, continuo aqui, entre as revistas, as fitas, a poeira e os vídeos, tentando afinar esse Blues da Alienação e encontrar alguma melodia no meio dos dias.