Um milhão de dólares (CCDB)
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Um milhão de dólares

(Cláudio César Dias Baptista - CCDB)
Um garoto de uns dez anos de idade, vestindo o uniforme azul do Instituto de Educação Caetano de Campos, em cujo brasão se lia NON DVCOR DVCOR, mal se sustinha na vertical sob o peso de uma vasta e gorda valise, que trocava de mão a cada dez passos, enquanto cruzava com o ar mais disfarçado deste mundo a Praça da República em São Paulo, naquele tempo, um lugar decente.
Em sua missão ocultos dos passantes, mas nela visíveis apenas aos olhos ágeis e cônscios do garoto, seguiam derredor, a distância segura, vários homens grandes, fortes, com toda a aparência do que realmente eram: capangas de um poderoso político, governador por três vezes do estado mais rico do país. Armas pesadas avolumavam-se-lhes sob os paletós.
E, liderando a missão, também seguia à distância o pai do garoto, secretário particular plenipotenciário desse político.
Chegado e admitido este a um escritório, o garoto sentou-se e aguardou seus seguidores. Para ele, passou-se um milênio; mas que é um milênio perto de um milhão? Um milhão de dólares norte-americanos?
Esse milênio na cabeça, esse milhão na valise; o garoto reconhece o pai a entrar e entrega-lhe o que tão bravamente portou. Some-se-lhe da cabeça o milênio, some-se a valise no cofre do escritório. Grava-se-lhe no coração a certeza: seu pai o usara para proteger um ideal. Levada por um menino, a valise não despertaria suspeitas e seu conteúdo estaria mais seguro, naquele tempo de crises.
Grava-se-lhe outrossim respeito enorme pelo pai.
O menino desde então cresceu, seu pai morreu; mas aquele respeito não só recresceu como criou raízes em sua personalidade, tornando-o igual ou superior ao pai.
O pai lhe legou parca herança, porque teve o poder sobre São Paulo e muitos milhões nas mãos, mas preferiu ser honesto. E o garoto, um primogênito, tornou-se o mais pobre dos irmãos, porquanto seguiu alegre os passos do pai.
Primeira nota:
O texto acima, “Um milhão de dólares”, é um relato de Cláudio César Dias Baptista (CCDB) sobre seu pai, César Dias Baptista, secretário particular de Adhemar de Barros. Mais do que uma lembrança de infância, o episódio é apresentado por CCDB como uma espécie de memória moral: a valise carregada pelo menino contém uma fortuna, mas o verdadeiro legado deixado pelo pai seria a honestidade.
É importante preservar essa perspectiva. O texto é um depoimento memorialístico de CCDB, e não uma comprovação documental independente sobre a origem do dinheiro, seu destino ou as circunstâncias políticas da operação. A interpretação de que César teria usado o próprio filho para proteger um “ideal” pertence ao relato do autor.
A publicação desta memória também permite perceber como um mesmo episódio pode adquirir sentidos completamente diferentes conforme o narrador. Aqui, a valise não simboliza enriquecimento, mas a passagem de um patrimônio moral de pai para filho. O milhão de dólares é, no fim, quase um detalhe diante daquilo que CCDB considera a verdadeira herança de César: ter tido poder e dinheiro ao alcance das mãos e, segundo seu relato, não ter feito deles uma fortuna pessoal.
Fonte: Cláudio César Dias Baptista (CCDB), “Um milhão de dólares”.
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César Dias Baptista trabalhou a vida inteira como secretário particular de Adhemar de Barros.
Era um homem íntegro, ao contrário do patrão.
Como se sabe, Adhemar, nomeado por Getúlio interventor de São Paulo em 1938, se tornou um dos políticos mais corruptos da história.
O professor de Maluf.
Os filhos de César, Arnaldo e Sérgio, pré-adolescentes, eram convocados pelo "Tio Adhemar" para carregar sacolas de dinheiro até um escritório no centro de São Paulo.
Em troca, ganhavam dezenas de barras de chocolate.
O patrão do pai era dono da Lacta.
Adhemar perdeu os ajudantes a partir do dia em que os meninos se encantaram com a vocalista da banda The Teenage Singers.
Rita Lee era um sonho de valsa.
Do Jornalista Tom Cardoso*
Fonte:
https://www.facebook.com/photo/?fbid=10239474769439527&set=a.1882789041584
Nota sobre o texto de Tom Cardoso
O texto de Tom Cardoso reproduzido acima narra, com humor e ironia, uma história envolvendo César Dias Baptista, secretário particular de Adhemar de Barros, e seus filhos Arnaldo e Sérgio, futuros integrantes dos Mutantes ao lado de Rita Lee.
Alguns elementos da narrativa encontram respaldo em fontes históricas: César Dias Baptista foi secretário particular de Adhemar; Adhemar de Barros teve participação e controle sobre a Lacta; e os irmãos Arnaldo e Sérgio conheceram Rita Lee ainda adolescentes, quando ela integrava as Teenage Singers.
Já o episódio específico das crianças transportando sacolas de dinheiro para um escritório, recebendo chocolates em troca e a suposta interrupção dessa “missão” depois que os irmãos se encantaram por Rita Lee não foi localizado, até o momento, em uma fonte independente que permita confirmá-lo documentalmente.
Por isso, a história deve ser lida como aquilo que é apresentado: um relato atribuído ao jornalista Tom Cardoso, carregado de memória, humor e construção narrativa, e não como uma reportagem documental sobre os acontecimentos.
A comparação com o relato de Cláudio César Dias Baptista — que também recorda ter transportado, ainda menino, uma valise contendo uma enorme quantia em dinheiro enquanto seu pai trabalhava para Adhemar — torna o episódio ainda mais curioso. São relatos diferentes, e não é possível afirmar que descrevam a mesma situação.
O detalhe final, “Rita Lee era um sonho de valsa”, resume brilhantemente o espírito da narrativa: política, dinheiro, chocolate e rock brasileiro reunidos numa única anedota.
Texto atribuído ao jornalista Tom Cardoso. A presente nota distingue os elementos historicamente documentados daqueles que permanecem como relato ou anedota.