Rolando Castello Jr.: Hope I die before I get old (2026)
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Só o macaco Isla – um bicho de pelúcia – acompanhou a conversa. Ou seja: nada de depoimentos, nada de fotos.
Time wits for no one
Aos 50 anos, a frase de Júnior – dez anos mais experiente – me atingiu como um aviso: o tempo não espera por ninguém. Era a consciência de que o fluxo é um só e o destino, inevitável. Ontem, dez anos depois daquele diálogo, o refrão mudou para a rebeldia irônica de My Generation. O problema é que a conta da vida não fecha: somamos rostos para depois subtrair ausências.
Júnior relembrou Luiz Barata Cichetto e as conversas terminais sobre a saúde que falhava. No meio do relato, surgiu um objeto enigmático: o estancador (stopbar) cromado, com a marca Gibson gravada. Era o que restara da SG vintage que Dudu sacrificou no Teatro Pixinguinha, num gesto de entrega absoluta – e imprudente, já que não tinha outra guitarra. O retorno daquela peça, anos depois de lançada ao público, é um mistério de estrada. Júnior corta a poesia com o valor de mercado:
– Dez mil dólares jogados fora.
No balanço final, entre o que se quebra e quem se vai, fica a sensação de que a estrada consome tudo o que é sólido. É o preço do pacto.
Gone Gone
Estamos na mesma Brasília há mais de vinte anos.
Mesmo assim, nos vimos pouco. Menos ainda nos falamos ao telefone.
Ultimamente, mensagens – como quem reaprende a existir no tempo do outro.
Júnior vive em trânsito, em idas constantes a Buenos Aires. Eu, no meu ostracismo – espécie de ponto fixo no mapa.
Mas encontrar Júnior é outra coisa. É como visitar um velho mestre.
Logo no início, misturamos The Rolling Stones com The Who, como se fosse a única conversa possível.
Ele lembra quando Ezequiel Neves lhe deu um exemplar de The Who Sell Out – reedição dos anos 70, com uma mixagem diferente, dessas que só alguns ouvidos percebem.
Júnior emprestou o disco.
E nunca mais voltou.
Às vezes ele tenta lembrar para quem foi. Mas o nome… gone. Gone.
Geração “Forever”
A imagem da Patrulha do Espaço nos anos 70 era um manifesto silencioso: urbano + marginal + artístico.
Chapéu meio folk, meio country. Camisa aberta, peito à mostra. Jaqueta jeans. Boca de sino varrendo o chão.
Era linguagem.
Júnior, vindo da Argentina, trazia as camisas florais.
Parecia uma reencarnação – não de alguém, mas de um estado de espírito: o outsider.
Foi aí que ele explicou.
Disse que existiu a geração perdida.
Mas aquela… era outra coisa.
Era a Geração Forever.
E você pensa: “Forever o quê? Um super-herói que foi visitar a consciência cósmica e se perdeu no caminho?”
Mais ou menos isso.
Era o nome dos que foram… e não voltaram direito. Ficaram no fluxo. Para sempre.
Uma vez, Júnior entrou numa viagem com o tecladista Bartô.
Bartô levava o ácido a sério – papel até nos olhos, dizia.
No meio da travessia, decidiu: – Vamos lá pra casa.
Silêncio.
Alguém ainda perguntou, sem convicção: – Será seguro?
A porta abriu.
E ali, sem transição, Bartô desabou na própria origem: começou a pedir perdão à mãe.
Assim, de repente.
Como se toda a viagem tivesse sido só o caminho de volta.
E o Dudu?
Aquele que mencionamos lá atrás.
Por que saiu da banda?
Júnior, já com o humor herdado do velho companheiro Kokinho, respondeu seco: – Tava noivo.
Pausa.
E completou: – Nessas horas, são outros que decidem o futuro.
Não teve como. A gente riu.
Porque algumas histórias terminam assim mesmo – sem solo, sem aplauso, só com a vida entrando no meio do ensaio.
Júnior é história viva do rock’n’roll – dos contatos, das estradas, dos bastidores.
Pode lembrar uma mistura improvável de Lou Reed com Hell Angels – mas ele corta: – Como você exagera, Brô.
Mas não é exagero.
Ele conhece as linhas que escreveram os livros do rock.
Agora mesmo fecha o dele: 60 anos de bateria e rock.
Tocou com guitarristas subestimados.
Gravou em três países – México, Argentina e Brasil.
O toque é feroz, direto, reconhecível à distância.
E, ainda assim, foi ele quem ensinou: a última coisa que a gente pode se chamar é lenda.
Porque as lendas… já morreram.
Num apartamento das quatrocentas da Asa Sul, em Brasília, Júnior atravessa a angústia da virada de domingo pra segunda.
O corpo já sabe: vem mais uma semana, mais um combate.
É nesse intervalo – nem descanso, nem guerra – que nossas conversas acontecem.
Ele abre a estante.
Centenas de livros de rock, todos no original, muitos em formato pocket.
Entre eles, Moon the Loon: The Amazing Rock and Roll Life of Keith Moon.
A vida de Keith Moon ali, comprimida em páginas gastas.
Outro volume, sobre Bill Wyman, veio parar ali pelas mãos do contrabaixista Nelson Brito.
Eu olho e digo: – Esse você não vai precisar devolver.
Ele sorri de lado.
Já estamos na terceira xícara de café.
O incenso estava forte demais – pedi pra apagar.
Comecei a tossir.
A conversa continua.
– Aquela fita ao vivo do Aeroblus virou disco?
Ele levanta, sem pressa, vai até o alto da estante
e puxa o LP:
Aeroblus Archivos Secretos: Capturados Vivos en Buenos Aires 1977.
Reconheci na hora – de anúncio, de memória, de caçador de discos.
Ele segura o vinil um segundo a mais: – Sinto muito… esse não posso te dar.
Pausa.
De repente, muda o rumo.
Vai ao escritório.
Volta com outro.
Coloca na minha mão: Patrulha do Espaço – LP Compacto comemorativo de 21 anos.
Lacrado. 180 gramas. Definitivo.
Fiquei sem palavras.
Júnior fecha a cena:
– LP, pra amigo… não se autografa.

Agora que a coisa pega, vamos falar de Arnaldo Baptista e da Patrulha do Espaço.
Não espere precisão de datas ou mapas.
Júnior não é disso. Prefere contar as piadas.
Mas estava lá.
No banco da bateria, um pouco atrás de tudo,
vivendo por dentro uma das histórias mais intensas do rock nacional.
E eu penso:
– Para de sensacionalismo, Mário.
Depois da estreia no I Concerto Latino-Americano de Rock, vieram mais três shows.
Produção de Mário Buonfiglio, ex-empresário do Made in Brazil.
A banda trabalhou.
E não viu a cor do dinheiro.
Enquanto isso, O Terço foi à Argentina. E a Patrulha… ficou.
A decisão começou numa Kombi, a caminho de uma reunião.
Três já tinham decidido romper.
Mas Arnaldo segurou: – Mário Buonfiglio é como um pai pra mim.
Silêncio.
Nem precisou reunião.
Mal desceram, e Buonfiglio cortou: – Não vou mais trabalhar com vocês.
Júnior pensou: que pai é esse que deixa o filho na rua da amargura?
No início de 1978: três noites no Clube Ilha Porchat.
Camarim insalubre. Banho, quase nenhum.
Nesse clima, Arnaldo foi dormir na praia.
E voltou. De casaco. Na beira do mar.
Aquilo já dizia algo.
No palco, disse mais ainda.
Abriu com “Fique Aqui Comigo” enquanto a banda ainda tocava a introdução de “Sexy Sua”.
Dois tempos. Duas realidades.
No final, leve, sorrindo: – Que legal… a gente podia tocar mais uma semana aqui.
Júnior pensou que era liberdade.
Mas talvez não fosse só isso.
Talvez ali já desse pra ver que a Patrulha não era só uma banda.
Era um lugar onde as fronteiras se confundiam: entre palco e vida, entre lucidez e excesso.
E, no meio disso, seguia o som.
Só os cabeçotes saberão
A chamada “Os tapes perdidos foram encontrados” soa jornalística demais. Fácil.
Talvez a verdade seja outra: os tapes nunca se perderam – foram mantidos em sua precariedade desde o nascimento.
São Paulo, 14 de maio de 1978.
O Teatro São Pedro testemunhava mais um passo ao vivo de uma banda em combustão.
Júnior contratou uma equipe para gravar.
Mas era domingo. Lojas fechadas. Sem fitas.
Então surgiu Eloá – um anjo. Disse que tinha um par em casa.
(O narrador evita detalhes.)
Foram essas fitas que sobreviveram por quase meio século.
Hoje, ainda nas caixas originais.
A segunda exige limpeza e tratamento técnico.
Da fita 1 nasceu, em 1988, o disco Faremos uma Noitada Excelente – cerca de 30 minutos, com solos de bateria e piano.
Mas o essencial permanece aberto:
Começa com “Sexy Sua”? Guarda “Fique Aqui Comigo”? Traz uma “Cowboy” mais pesada? Ou outras surpresas soterradas?
O que, afinal, ficou ali?
Mais que documento: talvez a captura de uma implosão.
Dois shows depois, a banda se desfaria.
É o último registro de Arnaldo, Kokinho, Júnior e Dudu juntos.
Só os cabeçotes saberão.

É Arnaldo, no auge – voz e piano em brasa: incendiário.