Célio de Moraes: O Mingus da Ceilândia (2026)

A última vez que vi meu amigo querido foi no show das bandas Mais Lama e Os Merah. Ele me abraçou, como de costume, e, como sempre, me passava a sensação de que éramos amigos de outros carnavais. Sempre me perguntava: “Vai tocar aí hoje, Reginald?”, segundo ele, a variação primária do meu nome. Sempre um lord, eu me sentia seguro com ele, principalmente no velho oeste da cena desnutrida de Brasília. Ele me via como um irmão.

Nesse dia, chegamos a falar do episódio de saúde anterior, que o tinha deixado internado por alguns dias, mas ele, inabalável, disse: “Enquanto eu estiver aqui, vamos pro jogo!”.

Talvez o jogo o tenha levado para longe da gente, ou talvez ele mesmo não se importasse com quanto tempo iria durar, desde que durasse de forma memorável, como sempre foi. Tivemos a banda A Seda, que tocava Joelho de Porco, Terço, Made in Brazil, Patrulha, entre outras, com Janari e Marta Benevolo. Mesmo com o fim da banda, ele sempre me falava que queria que eu assumisse os teclados do Terno antes de Débora o fazer, pois acreditava na minha musicalidade.

Talvez eu tenha perdido meu urso pardo mais querido, meu amigo de todos, e, apesar das distâncias, nossas piadas eram cada vez melhores. Célio trabalhava na Infraero quando o conheci, e o rock o fez tomar decisões difíceis e que cobram caro, como largar o emprego fixo e, futuramente, o casamento, depois da turnê na Alemanha. Mas, sempre que eu o questionava, ele fazia parecer que não se importava com nada disso e que as escolhas foram assertivas.

Sinto muito por Arnaldo, que fica e sofre de verdade essa perda. Nós fazemos romance. Se pudesse voltar atrás, teria aceitado o convite para fazer a canja e tocar com Os Merah naquele dia, que provavelmente seria “Lagoa de Lontras”, que ele amava tocar comigo. Não fui ao enterro, pois estava com as crianças, e uma delas estava meio doente, e, se fosse, talvez perdesse esse lado lúdico de ainda não acreditar nisso. (Bleyvs)

04-12-1970

11-04-2026

0 Celio de Moraes

Célio de Moraes e Bleyvs em ação — o contrabaixo não era instrumento, era extensão da alma. No calor das noites que ajudaram a construir a história do som em Brasília.

Nome completo: Célio Ribeiro de Moraes. Músico, contrabaixista — o Charles Mingus da Ceilândia. Assim como Mingus, não era ele que tocava o instrumento; era o contrabaixo que tocava Célio. De presença imponente, cabelão elétrico e uma conexão rara com a chamada “música das esferas”, ele carregava som e espírito no mesmo corpo.

Ficamos amigos pouco antes de ele abraçar a música em definitivo. Conheci Célio no prédio da Infraero, no SCS, onde também encontrávamos Mário Linhares. Foi Carlinhos Guimarães quem me apresentou a ele, morador do Guará I — e foi o próprio Célio quem trouxe a primeira banda da Ceilândia para tocar aqui em casa: o Terno Elétrico.

Nos tempos da Brazilian Blues Band, nos divertíamos muito acompanhando Celso Blues Boy. Célio sempre tinha uma história — especialmente da turnê pela Alemanha. Aqui em casa, se juntava a Rabelo e Bleyvs e formava o trio Os Paladinos.

Vivemos também uma fase intensa com o Os Merah; eu levava a galera para tocar na Asa Norte, e varávamos noites ao lado de David Kauss.

Fica aqui o meu protesto: a vida é rápida demais quando se trata de figuras gigantes como ele. Deixamos nosso carinho ao Arnaldo, filho do Célio.

Neste vídeo, aparece um pouco dessa história.

Texto de despedida diante do jazigo

CELIÃO – BLUES EM COMPASSO ETERNO
Por Digá @edgaita74

No grave das cordas, ele escrevia destinos,
walking bass firme, como trilho de trem antigo,
cada nota encaixada em síncope e silêncio,
um fraseado que não se aprende — se vive contigo.

Era groove na veia, pulsação de igreja e estrada,
baixo falando mais alto que qualquer palavra.
No compasso do blues, ele dobrava o tempo,
ghost notes sussurrando histórias não contadas,
dominava a tensão entre o acorde e o vazio,
resolvia na tônica como quem cura almas cansadas.

Não era só técnica — era intenção em cada ataque,
era música com propósito, não só espetáculo barato.
Nos palcos de Brasília, ele era chão e céu,
segurava a banda como pilar invisível,
Túnel do Tempo, Motorock, noites sem pressa,
onde o improviso virava algo quase indizível.
E ali, entre mestres e risos soltos no ar,
o baixo dele ensinava sem precisar explicar.

Quando a vida pesou e o mundo ficou turvo,
foi no groove dele que você encontrou direção,
porque músico de verdade não toca só para a plateia —
ele resgata gente no meio da escuridão.
E ele fez isso leve, como quem nem percebe,
transformando dor em blues com naturalidade breve.

Nunca vi veneno sair da boca daquele homem,
só piada, só riso, só presença generosa,
um coração afinado em frequência rara,
daquelas que não se compram — só se honram.
Era mestre sem pose, gigante sem anúncio,
dos que deixam saudade antes mesmo do anúncio.

Agora o palco é outro, mas o som continua,
porque groove bom não morre — só muda de lugar,
e onde tiver uma linha de baixo bem tocada,
pode ter certeza: tem um pouco dele a vibrar.

Brasília perde um músico — o mundo ganha ressonância,
Celião PRESENTE, em cada nota, em cada lembrança.

Minha homenagem de gratidão ao amigo @celiocce, que parte deixando um leve vazio.
Cara que me deu força, deixando fazer uns blues que me ajudaram a superar certas dificuldades quando meu emocional não estava legal, distraindo a mente e o coração.

Que parta em paz, irmão, e faça muito barulho onde quer que esteja!