Arnaldo Baptista: O Homem, o Piano e a Cidade do Som (2017)

O Homem, o Piano e a Cidade do Som

Era como entrar num lugar onde o tempo não obedecia mais calendário. No palco do Teatro da Caixa Cultural Brasília, Arnaldo Baptista não fazia um show — ele abria um portal.

Nada de banda, nada de parede de som. Um piano, um homem e um universo inteiro escorrendo pelos dedos. Ali, a música não vinha pronta: nascia. Às vezes tropeçando, às vezes flutuando, às vezes quase desmanchando no ar. A voz não obedecia padrão, o ritmo não pedia licença. E era justamente aí que tudo fazia sentido.

Tinha silêncio de igreja e atenção de ritual. A plateia parecia entender que não estava diante de um espetáculo comum, mas de um acontecimento. Cada nota carregava uma história, cada pausa dizia mais do que muita música cheia de firula por aí. Não era sobre afinação — era sobre verdade.

Entre uma canção e outra, dava pra sentir o passado atravessando o presente: ecos de Mutantes, fragmentos de “Loki”, pedaços de uma vida inteira reorganizados ali, ao vivo, sem rede de proteção. Como se a memória estivesse sendo remontada na frente de todo mundo — e a gente ali, testemunha.

Vi gente de tudo quanto é idade. Para muitos, era o primeiro encontro com Arnaldo ao vivo. E não poderia ser de outro jeito: não era um show para entender — era para sentir. Um tipo de experiência que não se repete, não se explica, não se enquadra.

Saí com a impressão de que não assisti a um artista tocando. Assisti a alguém existindo em forma de som. E isso, hoje em dia, é raro demais.