Tributo ao Evangelho Psicodélico de Júpiter Maçã (2026)
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Tributo ao Evangelho Psicodélico de Júpiter Maçã
Uma celebração para freaks, hereges, beats e sonhadores.

No palco, os integrantes da Banda Mais Lama são:
Fucins – contrabaixo; Paulinho – guitarra psicodélica; Souves – guitarra rítmica e vocais; Dudu – bateria e Hugo – teclados
texto: mário pazcheco com imagens de marizan fontinele
2026, 14 DE JUNHO – Missão árdua é compreender e exercer a arte da recriação, da releitura e da reencarnação de uma obra. Trata-se do delicado trabalho de refazer e reinterpretar um modelo original, atravessando standards e transformando-os em um novo som, em matéria-prima para novas criações. Obras capazes de ganhar outra vida pelas mãos daqueles que as admiram. É um processo semelhante ao do oleiro diante do barro: parte-se de uma forma conhecida para moldar algo único, preservando a memória da origem sem abrir mão da invenção.
Um Lugar do Caralho, duas vezes..
As Tortas e as Cucas
Querida Superhist x Mr. Frog
Pictures and Paintings
Eu e Minha Ex
Walter Victor
As Outras que Me Querem
Sociedades Humanoides Fantásticas
O Novo Namorado
Miss Lexotan 6 mg Garota
The Freaking Alice (Hippie Under Groove)
Essência Interior
Mademoiselle Marchand
Síndrome de Pânico
Beatle George
Modern Kid
Hey Girl What You Gonna Do

Alguns estavam ali apenas para ouvir "Eu e Minha Ex", disparada com desdém e ironia pelo vocalista. Outros acompanhavam mentalmente cada virada de pratos do baterista, antecipando os golpes como velhos iniciados em um ritual conhecido. Muitos cantavam em uníssono. Muitos dançavam diante daquele sermão dominical travestido de missa elétrica de fim de noite, conduzida pelo som vigoroso do órgão.
Casais bebericavam cervejas e vinhos enquanto o suor e a umidade da noite se misturavam ao ambiente. Havia os que insistiam em registrar cada instante nos celulares, acumulando vídeos e fotografias como quem tenta aprisionar o efêmero. Uma estranha sensação de pertencimento pairava pelo recinto.
Sim, eles estavam gostando. Gostando daquele samba do crioulo doido transformado em bailão de Jovem Guarda psicodélica, vindo das ladeiras do Bonfim e da Pompeia para desembarcar na Liverpool brasileira. E tome uma enxurrada de fuzz cortando o vazio horizontal da cidade de concreto chamada Brasília.
Na Asa Sul, entre a W3 e seus personagens noturnos, o tormento elétrico parecia invocar Hendrix em versão tropical, enquanto guitarras, órgãos e amplificadores erguiam uma catedral de ruídos para os fiéis da celebração.
Ah, o Santo Graal deles era Syd Barrett. Também era o Santo Graal de Júpiter Maçã, ou melhor, de Flávio Basso, seu alter ego mais terreno e igualmente mítico. A identificação era tamanha que, por momentos, parecia que todos nós poderíamos ter integrado sua banda, participado de sua ascensão, de suas quedas, de seu martírio particular, de suas entrevistas desconcertantes na televisão e daquela voz fanhosa que parecia chegar de outra dimensão.
— Vocês gostaram de "Modern Kid"?
A pergunta ecoava como uma senha secreta para iniciados.
Incrivelmente, o vocalista seguia um roteiro invisível, como se estivesse obedecendo a uma cartilha psicodélica escrita décadas antes por Barrett, Basso e outros santos padroeiros da excentricidade. A banda, que se chama justamente A Banda Mais Lama da Cidade, comprimida naquele espaço e naquele instante, disparava raios fulgurantes em direção ao público.
Diante do palco, as pessoas dançavam em câmera lenta, como personagens de um filme underground projetado entre fumaça, luzes e amplificadores. E não, eu não estava doidão. Era apenas o efeito daquele transe coletivo em que a música suspendia as leis normais do tempo e transformava Brasília, por algumas horas, em uma província perdida entre Liverpool, Porto Alegre e os confins da imaginação lisérgica.
A Infinu é o salão dos descolados, uma espécie de Sala da Justiça da cultura alternativa — um território que dificilmente será invadido ou depredado, porque dele emana uma justiça compartilhada pelos seres comuns, inquietos, afoitos e apaixonados pela arte de viver. Gente disposta a curtir a vida até onde o bolso apertado permite, mas sem abrir mão da intensidade.
Em meio àquela tribo, fui acolhido como um velho hippie, um sobrevivente dos tempos em que a psicodelia prometia abrir as portas da percepção e reinventar o mundo. Ninguém estranhou minha presença. Pelo contrário, senti-me parte daquela linhagem invisível que atravessa gerações.
Quase me perdi em seus labirintos, corredores e salões decorados por quadros astronomicamente coloridos, explosões visuais que pareciam ter sido pintadas sob a influência das mesmas visões que um dia atravessaram San Francisco e alimentaram os sonhos lisérgicos dos anos sessenta.
Ao deixar o lugar, carregava a sensação de ter visitado um universo paralelo, uma pequena república da imaginação instalada no coração da cidade. Prometi a mim mesmo voltar mais uma vez. Não apenas para assistir a um show, mas para reviver aquela experiência rara de pertencimento, descoberta e encantamento.
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by @picnikbsb
Tributo Ao Júpiter Maçã * Banda Mais Lama