O Conic e a cortina da eternidade (2026)

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o capitalismo covarde compra por cinco dólares o voto de suas próprias vítimas

O Conic se transformou numa figura de contenção da realidade em seu espetáculo mais espatafúrdio. Continua sendo um arrabalde que nos atrai para trás das coisas que nos seduzem: o colecionismo, o sexo, os discos, os livros, as histórias que ainda resistem nas esquinas.

O colecionismo continua impondo uma caça aos dias de verdade. É preciso procurar aquilo que ainda não morreu. O sexo, por sua vez, age ardente na noite, como se soubesse que a madrugada é sempre uma forma provisória de eternidade.

A Kingdom Comics foi a primeira que vi abandonar a loja física para vender suas coleções pela internet. Depois veio a loja de instrumentos musicais da esquina. E hoje percebi mais uma lacuna: a butique de roupas e calçados da esquina evaporou.

Ficaram os poucos restaurantes do almoço. Os sebos resistem como podem. A Barbearia Caracóis permanece ali, como se cortar cabelos fosse também uma maneira de cortar o tempo — aparar os excessos dos anos enquanto o próprio Conic envelhece diante de nós.

Mas parece que a cortina da eternidade vai fechando o tempo e, em breve, todos seremos engolidos por alguma coisa que ainda não sabemos nomear.

A que se atribui tamanha ação de desprezo?

Somente os bons compositores poderão arbitrar os fatos próximos da poesia, se é que ainda existe alguma poesia capaz de explicar o que acontece.

O Conic de hoje é uma prisão de segurança máxima sem presos políticos e sem os criminosos dos temíveis comandos da capital. As grades proliferam por todos os lados. É um fato curioso dessa ocupação que chegou até onde não podia mais chegar — e ninguém sabe por quanto tempo ainda permanecerá ali.

E quando for embora, o cenário será ainda mais desastroso.

É uma combinação do futuro que traz lágrimas. Uma destruição silenciosa que ocorre nas capitais enquanto o capital observa, calcula, lucra e espera.

A cada dia o condomínio fica mais caro. A cada dia fica mais difícil vender. A cada dia alguma coisa desaparece.

Berlin Discos, Filial do Rock, FunHouse, o Mercadinho do Natinho e a Barbearia Caracóis ainda oferecem alguma forma de resistência cotidiana. Uns através dos discos, outros da comida, outros dos encontros e outros simplesmente mantendo abertas as portas para que o Conic continue sendo um lugar onde as pessoas ainda possam chegar.

Talvez seja isso que tenha restado do Conic: alguns lugares onde ainda se pode entrar, conversar, tomar um café, cortar o cabelo, procurar um disco  e fingir, por alguns minutos, que o tempo não está fechando a porta.

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 Crônica de garimpo

Zé, ou José Pereira, da Filial do Rock, é apaixonado por duas ou mais coisas — entre elas, comprar e vender discos e torcer pelo Flamengo. É um dos últimos praças que ainda podem lhe oferecer um café com biscoitos de queijo enquanto você procura alguma coisa nas prateleiras.

Zé entende a fissura colecionista de um beatlemaníaco. Sabe que o sujeito entra numa loja atrás de um disco e pode sair de lá carregando outro completamente diferente, porque o garimpo tem dessas coisas.

Na sua loja, levei o primeiro álbum dos Wings, de 1971: Wild Life. Não era a edição original, mas a edição dupla de colecionador de 2018, quando as coisas já começavam a ruir economicamente e, mais adiante, seríamos atacados pela epidemia que mudaria tanta coisa.

E, sem tirar os pés da loja, ainda encontrei o compacto simples de Do They Know It's Christmas?, de 1984, do Band Aid — aquele lançamento feito para arrecadar dinheiro e chamar a atenção do mundo para a fome na Etiópia.

O legal de ir ao sebo é que você sempre constata que deixou de comprar alguma coisa décadas atrás.

O tempo passa, os discos continuam aparecendo e a nossa longa vida sempre nos permite conversas voltadas para o dia de amanhã. Afinal, nunca se sabe quando será a última vez que você entrou numa loja, tomou um café, encontrou um disco que ama e saiu de lá levando um pedaço do passado debaixo do braço.

Filial do Rock

61 8679-5400

Luis Moreira e a FunHouse

O papo com Luis Moreira é mais político, mais amargo, mas nunca deixa de preservar a luta que ele trava no Conic com suas feiras de discos.

Ouvir os lojistas é perceber onde você anda, por onde circula e em que lugar você está pisando. Cada conversa ajuda a entender um pouco mais o território.

Na loja do Luis, vi um par de CDs dos Breeders. Mas será que minha filha sabe lá quem foram as Breeders?

A FunHouse segue a ideia do próprio nome: é um amontoado de coisas legais, onde você pode encontrar a peça que faltava para completar o seu quebra-cabeças. É preciso olhar, mexer, procurar e deixar que o acaso também trabalhe.

Luis Moreira me convida para a próxima feira. E eu vou, porque ali sou sempre bem recebido.  A feira acontece no Conic, no dia 10 de outubro de 2026, celebrando dez anos de sua estreia!

FunHouse Discos

(61) 3225-7489

61 8116-7574

Natinho, o guru das ruas

No Conic, todo mundo é uma referência cultural do underground, mas Natinho é um guru das ruas e da moda das camisetas. É um capo, um artista marginal na melhor das correntes, daqueles que unem os elos de Afonso Brazza e de Mário Pazcheco.

Eu uso as camisetas do Mercado do Natinho como se fossem minha terceira pele — aquela que nos protege do sol e dos maus-olhados.

Natinho me forra de pôsteres promocionais de sua loja. Fala da vida, da luta e da arte. Depois me mostra seus últimos versos, cuja inspiração é o próprio Conic: cena radiofônica e imagens fortes sob o concreto da vila.

Na saída, avistei uma foto de Natinho, de abril de 1986, durante um concerto de rock na Praça do Congresso, vendendo suas camisetas e ostentando um dos maiores topetes daquele ano vibrante.

Quase quarenta anos depois, ele continua ali. A camiseta mudou de corpo, o Conic mudou de cara, mas a rua ainda reconhece os seus.

Mercadinho do Natinho

61 99209 - 7491

 

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