Arnaldo Baptista e a Patrulha do Espaço — O show que deixou de ser mito (1978)
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Arnaldo e a Patrulha do Espaço Ao vio no Teatro São Pedro (SP)
Noite final da temporada de três dias
"Mamãe da rua" (Somente a Patrulha do Espaço)
"Sexy Sua"
"Raio de Sol"
"Emergindo da ciência"
"Será que baby sou eu?"
"Singin' Alone"
"O meu barato" (Guilherme Lamounier)
"Benvinda" (Mutantes - alone)
"Te amo podes crer"
"Balada do Louco"
"Corta Jaca"
Aparece sem a introdução, pois o rolo foi trocado pela primeira vez
"Cowboy"
"Sanguinho Novo"
"Sunshine"
"Sr. Empresário"
"Posso perder minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha o rock'n'roll" (Mutantes)
"Sr. Empresário" (primeiro bis)
"Sanguinho Novo" (segundo bis)
"Sr. Empresário" (terceiro bis)
"Sunshine" (quarto bis)
"Tudo bem, tudo bom/Roll Over Beethoven"
14 de maio de 1978

Arnaldo Baptista e a Patrulha do Espaço — um show entre a memória e a criação
A gravação revela um espetáculo de características singulares, no qual Arnaldo Baptista transita entre o repertório dos Mutantes, sua produção solo e a sonoridade da Patrulha do Espaço. Mais do que um simples registro de apresentação, a fita permite acompanhar diferentes formas de atuação do músico: do rock pesado e elétrico da banda às intervenções solitárias de Arnaldo, passando por improvisações, comentários ao público e momentos de criação espontânea.
A sequência conhecida começa com “Mamãe da Rua”, executada somente pela Patrulha do Espaço. O registro funciona como uma espécie de prólogo instrumental para o que viria a seguir.
“Sexy Sua” abre o espetáculo propriamente dito. A partir daí, a apresentação assume uma dinâmica vigorosa, com a banda funcionando como contraponto à presença de Arnaldo.
Em “Raio de Sol” e “Emergindo da Ciência”, a combinação entre o instrumental da Patrulha do Espaço e a presença vocal de Arnaldo evidencia uma característica que se tornará recorrente durante todo o registro: a versão ao vivo possui personalidade própria e não deve ser entendida como mera reprodução das gravações de estúdio.
“Será que Baby Sou Eu?” mantém essa característica, enquanto “Singin' Alone” amplia a dimensão mais pessoal do repertório de Arnaldo.
Na sequência aparece “O Meu Barato”, composição de Guilherme Lamounier, incorporada ao repertório. Sua presença é reveladora da liberdade com que o espetáculo foi construído, sem uma preocupação aparente em limitar o repertório às composições mais diretamente associadas à trajetória de Arnaldo.
“Benvinda”
Em “Benvinda”, dos Mutantes, ocorre um dos primeiros momentos em que Arnaldo se apresenta sozinho. Antes de cantar a música, porém, ele constrói no teclado um preâmbulo instrumental.
O procedimento é significativo: em vez de simplesmente iniciar a canção pela introdução conhecida, Arnaldo estabelece uma atmosfera própria e conduz a execução até a entrada da voz. Quando começa a cantar, apresenta a letra completa.
A passagem demonstra como, ao vivo, o músico podia reconstruir uma composição já conhecida, modificando sua apresentação e transformando a interpretação em uma experiência diferente daquela registrada em disco.
“Te Amo Podes Crer”
Também executada por Arnaldo sozinho, “Te Amo Podes Crer”, dos Mutantes, ganha ainda uma dimensão documental quando o músico comenta no palco que a composição foi feita com Liminha.
A fala espontânea insere a música dentro da própria memória de Arnaldo e acrescenta à gravação um testemunho sobre a autoria e a história da composição. São justamente esses comentários, muitas vezes ausentes de registros oficiais, que transformam uma fita de show em documento histórico.
“Balada do Louco”: a composição acontecendo diante do público
“Balada do Louco” constitui talvez o momento mais revelador de toda a gravação.
Executada por Arnaldo sozinho, a música deixa de ser apenas uma interpretação de um clássico dos Mutantes e passa a funcionar como uma pequena demonstração do próprio processo criativo do compositor.
Durante a apresentação, Arnaldo percebe uma melodia sugerida pela plateia. Ele a escuta, assobia o motivo melódico e, em seguida, procura reproduzi-lo no teclado, transpondo a ideia para o instrumento.
O episódio é particularmente valioso porque registra, em tempo real, uma característica do método de criação de Arnaldo: a capacidade de captar uma ideia musical externa, experimentá-la vocalmente e depois procurá-la harmonicamente no teclado.
Não se trata, portanto, apenas de uma curiosidade de palco. É um raro documento do compositor trabalhando diante do público — ouvindo, testando, procurando e transformando uma ideia musical em matéria sonora.
“Corta Jaca”
Com “Corta Jaca”, o registro sofre uma interrupção técnica. A música aparece sem sua introdução porque, naquele momento, o rolo de fita precisou ser trocado pela primeira vez.
A ausência não deve ser interpretada como uma escolha artística ou uma edição posterior. Ao contrário, a falha faz parte da própria história do documento sonoro. A gravação preserva, assim, as limitações técnicas inerentes ao registro em fita de rolo e permite compreender que estamos diante de um documento de campo, e não de uma gravação produzida em estúdio.
“Cowboy”, “Sanguinho Novo” e “Sunshine”
“Cowboy” recoloca o espetáculo em sua dimensão coletiva e elétrica. A Patrulha do Espaço assume novamente o papel de força motriz do show.
Em “Sanguinho Novo”, essa característica se intensifica. As versões ao vivo registradas na fita são particularmente enérgicas, tanto instrumental quanto vocalmente.
O mesmo pode ser percebido em “Sunshine”, cuja execução reforça a diferença entre o repertório de estúdio e sua transformação no palco. A presença de Dudu Chermont e dos demais vocais acrescenta uma dimensão coletiva que não aparece da mesma maneira nas versões de estúdio.
“Sr. Empresário”
“Sr. Empresário” surge como um dos grandes momentos do encerramento. A música retornará várias vezes durante os bis, assumindo praticamente a função de tema de despedida.
Essa repetição é reveladora da relação estabelecida entre banda e público. O espetáculo não termina necessariamente quando chega ao fim o repertório previamente planejado. A reação da plateia prolonga a apresentação, e a banda responde retomando músicas que já haviam sido executadas.
“Posso Perder Minha Mulher, Minha Mãe, Desde Que Eu Tenha o Rock'n'Roll”
A inclusão de “Posso Perder Minha Mulher, Minha Mãe, Desde Que Eu Tenha o Rock'n'Roll”, dos Mutantes, reforça a dimensão retrospectiva do espetáculo. A canção recupera uma parte fundamental do repertório ligado à história dos Mutantes e a recoloca dentro de uma formação posterior, ao lado da Patrulha do Espaço.
É justamente essa sobreposição temporal que torna a apresentação tão interessante: músicas de diferentes períodos da trajetória de Arnaldo convivem no mesmo palco.
Primeiro bis — “Sr. Empresário”
O público exige o retorno da banda e “Sr. Empresário” reaparece no primeiro bis.
A repetição não é apenas uma reprise. Ela demonstra que a música havia adquirido uma função particular dentro da apresentação: era uma das peças capazes de reativar imediatamente a energia do público.
“Viva a libertação dos escravos”
Em determinado momento, durante essa fase final do espetáculo, ouve-se Dudu Chermont gritar:
“Viva a libertação dos escravos!”
A frase integra o ambiente espontâneo da apresentação e deve ser preservada como parte do documento. Assim como os comentários de Arnaldo, ela registra o clima social, político e comportamental daquele momento histórico.
A segunda perda de material
Durante a virada da fita de rolo, perde-se novamente um trecho da apresentação. Nesse ponto desaparece também uma passagem musical que, até o momento, não foi identificada.
A lacuna é significativa justamente porque impede uma reconstrução integral do repertório. O desconhecimento do trecho, entretanto, não diminui o valor da gravação. Ao contrário, a própria ausência passa a fazer parte da história do registro e deixa aberta a possibilidade de futura identificação.
Segundo bis — “Sanguinho Novo”
Após a virada da fita, o espetáculo retorna com “Sanguinho Novo”, agora funcionando como segundo bis.
A execução confirma uma das principais características do documento: a enorme energia das versões ao vivo. Instrumentalmente e vocalmente, a banda apresenta uma intensidade que diferencia essas interpretações das gravações realizadas em estúdio.
O agradecimento aos técnicos
Victor, Lauro e Alemão
Ao final desse momento, Arnaldo agradece aos técnicos de som, reconhecendo a força que deram à banda durante aquela temporada.
É mais um pequeno fragmento que transforma o registro musical em documento histórico. A fala revela que o espetáculo não era produzido apenas pelos músicos: havia uma equipe técnica cuja atuação era reconhecida pelo próprio Arnaldo.
Terceiro bis — “Sr. Empresário”
Como terceiro bis, “Sr. Empresário” volta ao repertório.
A repetição, agora pela terceira vez no encerramento, demonstra o caráter absolutamente particular daquele final de espetáculo. A música deixa de ser simplesmente mais uma faixa do repertório e passa a funcionar como uma espécie de mecanismo de encerramento e reabertura do show, conforme a resposta do público.
Quarto bis — “Sunshine”
E quando parecia que o espetáculo finalmente chegaria ao fim, “Sunshine” retorna como quarto bis.
A quantidade de retornos ao palco revela uma apresentação prolongada pela interação entre músicos e público. Não há aqui uma fronteira rígida entre repertório principal e encerramento: o espetáculo vai sendo reconstruído à medida que a plateia pede mais.
“Tudo Bem, Tudo Bom / Roll Over Beethoven”
O grande desfecho documental da gravação é “Tudo Bem, Tudo Bom / Roll Over Beethoven”.
Durante muito tempo, essa apresentação pertenceu ao território da memória, da narrativa oral e do mito. Com a recuperação da fita, porém, a performance deixa de ser apenas uma história contada por quem esteve presente e passa a existir como documento sonoro que pode ser ouvido e analisado.
A versão apresenta uma configuração particularmente interessante das guitarras: Celso Vecchione, do Made in Brazil, e Dudu Chermont, da Patrulha do Espaço.
O encontro desses músicos transforma a gravação em um documento excepcional da circulação de artistas entre diferentes núcleos do rock brasileiro. A presença de Celso Vecchione acrescenta ainda outra camada histórica ao registro, aproximando universos que, embora distintos, faziam parte da mesma cena underground.
A inclusão de “Roll Over Beethoven”, de Chuck Berry, também evidencia a relação direta daquela geração com o repertório fundador do rock'n'roll. Mais do que uma citação, a música funciona como afirmação de pertencimento: Arnaldo, Patrulha do Espaço, Dudu Chermont e Celso Vecchione se colocam dentro de uma linhagem do rock que atravessa gerações.
Um documento diferente do estúdio
O conjunto das gravações permite perceber uma diferença fundamental entre Arnaldo Baptista e a Patrulha do Espaço ao vivo e suas produções de estúdio.
No palco, as músicas ganham maior dimensão coletiva. Os vocais de Dudu Chermont aparecem com frequência, acompanhados por outros coros, enquanto os instrumentos assumem uma dinâmica mais agressiva e espontânea.
As versões são, portanto, mais do que reproduções das gravações originais. São releituras de palco, nas quais Arnaldo e a Patrulha do Espaço reorganizam o material por meio da energia da apresentação.
Permanece ainda uma questão a ser investigada pela análise sonora: Arnaldo utilizava somente o clavinete ou havia outro teclado presente em determinadas passagens? A identificação precisa dos timbres e das mudanças de registro poderá ajudar a esclarecer essa questão.
O que já é possível afirmar, entretanto, é que a fita registra um Arnaldo profundamente integrado ao ambiente do palco: compositor, intérprete, improvisador e interlocutor da plateia.
Por isso, esse registro deve ser entendido não apenas como uma gravação de show, mas como uma cápsula sonora de um momento específico do rock brasileiro. Nele estão reunidos repertório, improvisação, memória, humor, falhas técnicas, participação do público, colaboração entre músicos e, sobretudo, a liberdade criativa de Arnaldo Baptista.
A partir dessa fita, músicas que pertenciam à memória oral — e, em especial, “Tudo Bem, Tudo Bom / Roll Over Beethoven” — deixam de ser apenas relatos de quem esteve lá. Tornam-se documentos que podem finalmente ser ouvidos, estudados e incorporados à história do rock brasileiro.
Uma nota histórica
O LP Faremos uma noitada excelente... foi gravado no sábado, 13 de maio de 1978, e traz as faixas “Um Pouco Assustador”, “Arnaldo Solista” e “Fell in One Day”, que não foram executadas no show do dia seguinte, domingo, 14 de maio.
A descoberta torna a comparação entre as duas apresentações ainda mais surpreendente. Embora os repertórios sejam diferentes, o show de domingo soa mais nostálgico, mais próximo do rock’n’roll e, sobretudo, muito mais aberto aos improvisos instrumentais. É como se, naquela noite, a banda estivesse menos preocupada em reproduzir um repertório previamente estabelecido e mais interessada em explorar o momento.
Em vários trechos do registro de 14 de maio, percebe-se também uma nítida aproximação de Arnaldo Baptista com a linguagem de Jimmy Smith, particularmente na maneira como o músico constrói determinados momentos instrumentais. A apresentação ganha, assim, uma dimensão diferente daquela registrada no LP.
Outro elemento chama atenção: em dois momentos distintos do show, Arnaldo recorre a clássicos dos Mutantes. A escolha dessas músicas, dentro daquele contexto, transmite uma forte sensação de despedida — quase como se o músico estivesse revisitando uma parte fundamental de sua própria história.
Há ainda um detalhe particularmente revelador: a primeira faixa do registro de 14 de maio começa com a banda se apresentando como Patrulha do Espaço, justamente porque Arnaldo havia se atrasado e o show já havia começado. O episódio, aparentemente circunstancial, ganha outro significado quando analisado em conjunto com todo o restante da apresentação.
E então chegamos a “Tudo Bem, Tudo Bom”. A música se transforma progressivamente em “Roll Over Beethoven”, de Chuck Berry. Com a voz já bastante desgastada, Arnaldo Baptista improvisa o vocal, recorrendo a fragmentos, referências e evocações do rock’n’roll dos anos 1950. Enquanto isso, as duas guitarras — Dudu Chermont e Celso Vecchione — conduzem a improvisação, criando um dos momentos mais espontâneos e reveladores de todo o registro.
O mais importante, porém, é que essa descoberta valoriza ainda mais o LP Faremos uma noitada excelente.... Os aproximadamente 30 minutos registrados no show de sábado passam a ter um novo peso documental, justamente porque preservam três momentos — “Um Pouco Assustador”, “Arnaldo Solista” e “Fell in One Day” — que não se repetiram na apresentação do domingo.
Ao mesmo tempo, o par de fitas com o show completo de 14 de maio de 1978 oferece ao ouvinte algo ainda mais raro: a possibilidade de comparar duas apresentações consecutivas de Arnaldo Baptista e da Patrulha do Espaço, percebendo não apenas as diferenças de repertório, mas também as mudanças de clima, de abordagem musical e de comportamento em palco.
Temos, portanto, uma situação excepcional: o LP preserva três momentos distintos que não aparecem no show de domingo, enquanto as fitas do domingo documentam uma apresentação muito mais longa, improvisada e carregada de referências ao passado de Arnaldo.
Somados, os dois registros permitem reconstruir com uma riqueza incomum um dos períodos mais importantes da carreira de Arnaldo Baptista. O que antes eram registros isolados agora começa a formar um conjunto documental coerente — e talvez estejamos, finalmente, muito próximos de completar uma das lacunas mais significativas da história musical de Arnaldo e a Patrulha do Espaço.