TOP TOP FOI DEMAIS! 🤘 (2026)

1966, o ano vivo

Se você atirar uma pedra para o alto e ela cair em algum lugar da cultura brasileira, há uma boa chance de ela escolher 1966: o ano em que muita coisa estava mudando.

A música popular brasileira vivia uma disputa cada vez mais evidente entre a Jovem Guarda, identificada naquele momento como o novo rock brasileiro, e a MPB.

Na televisão, a TV Record concentrava alguns dos programas musicais mais importantes do país. Aos domingos, Jovem Guarda, com Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa. Às segundas-feiras, O Fino da Bossa, com Elis Regina e Jair Rodrigues.

Era como se a música brasileira estivesse disputando o mesmo espaço. Surgiam novos ídolos. Além de Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, surgiam Elis Regina, Jair Rodrigues e Chico Buarque.

No hit parade:

Não tinha “Satisfaction”. Tinha “Quero que vá tudo p'ro inferno”, de Roberto Carlos. Tinha “A volta”, de Os Vips. Tinha Help!, dos Beatles. Tinha Isto é Renato & seus Blue Caps.

E, em São Paulo, estavam surgindo novos sons. Em 15 de outubro de 1966, estreava na TV Record O Pequeno Mundo de Ronnie Von, um programa diferente da fórmula tradicional da Jovem Guarda. Tinha fantasia, ficção científica, contos de fadas, imaginação, personagens, um cenário que parecia ter saído de um livro ou de outro planeta.

E naquele cenário fantástico, O' Seis se reduziu a três. Nasciam Os Mutantes. Não era Jovem Guarda. Não era MPB. Não era simplesmente Beatles. Era outra coisa.

Por isso, tenha durado tanto. Porque o Brasil estava descobrindo que podia pegar aquilo que vinha de fora e transformar em outra coisa.

Brasília tinha apenas seis anos. Era uma cidade nova, ainda procurando sua identidade cultural. E também aqui começavam a aparecer seus próprios grupos de rock. Em 1966, surgia a Matuskela, uma das primeiras bandas ligadas à história do rock brasiliense.

Ou seja: enquanto muita gente que nasceu em Brasília naquele ano estava chegando ao mundo, uma cidade inteira também estava começando a criar sua própria trilha sonora.

 top live Foto: Rodrigo Souves

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by @picnikbsb 

Acordo em 2026

Nós estamos olhando para aquele mesmo ano com seis décadas de distância.

E é impressionante perceber o quanto daquela experiência ainda está entre nós.

Porque os Mutantes não ficaram presos em 1966.

Em 2026, não só a polarização musical está no ar, assim como a polarização política. A ideia de ir ao show é flanar acima das suspeitas e discordâncias, experimentar o bálsamo do baseado e ver a saia colorida da menina girar.

E hoje, sessenta anos depois, muita gente que nasceu em 1966 está completando 60 anos. Aqui, nesse show, também há gente nascida em 1970, 1980, 1990 e 2000.

Pá!

Sessenta anos depois, podemos perceber como os Mutantes foram pioneiros em sua experiência comportamental, existencial e musical. Os Mutantes estavam ao lado de bandas californianas que tinham mulheres em suas fileiras, como The Mamas and the Papas, Jefferson Airplane e Big Brother and the Holding Company. Talvez isso ajude a entender por que o som dos Mutantes continua atravessando gerações e públicos diferentes, sem perder sua capacidade de provocar identificação tanto entre homens quanto entre mulheres.

Foi no final do século XX, em 2000, que chegou ao público Tecnicolor, álbum gravado pelos Mutantes em 1970. E é ele que norteia os arranjos ao vivo desta apresentação da Top Top. Ouso dizer que eles foram muito mais influenciados por esse álbum do que pelo próprio Jardim Elétrico.

Antes da apresentação, o seguro maestro da banda, o contrabaixista Dado Nunes, aperta as notas e as passagens. Seu toque no contrabaixo é intrigante e econômico, bastante diferente do toque de Arnaldo, que era mais transversal. Mas, quando pode, ele desanda nas escalas atribuladas.

Três no palco cantam: a voz principal de Júlia, mais os apoios vocais de Gabriel, o guitarrista, e do próprio baixista.

Os teclados não fazem sua parafernália de teclas; elas apenas estão ali, de improviso, na onda, na cor. Já a bateria é bastante diferente, mas atesta que, para tocar aquelas músicas, tem que saber tocar. Saber diferenciar a Top Top dos Mutantes de Sérgio Dias é a primeira deixa para você curtir o show.

São cinco indivíduos que somam seus talentos em progressivas apresentações, que irão mostrar cada vez mais unidade.

Júlia Ferrari nos encantou com sua segurança e destreza. A melhor qualidade é que todos sabiam de cor as letras e, por isso, não precisavam de teleprompter ou outras telas diminutas. Só esse detalhe já gera satisfação.

Por incrível que pareça, canções como “Não Vá Se Perder Por Aí”, “Qualquer Bobagem” e “Fuga Nº II” formam um perfeito triângulo psicodélico. São as mais estranhas, que nos fazem lembrar de outras que sabemos que eles poderiam tocar perfeitamente.

A Top Top, ao tocar ao vivo o repertório dos Mutantes de seus anos iniciais, nos permite ver diretamente as influências de que os Mutantes beberam — e que eles também beberam via Mutantes. Individualmente, eles estão bem à vontade para prestar o tributo aos seus ídolos.

O público

Foi quente e visceral.

No início, dedicaram-se ao rito de registrar o show em seus celulares. Do meio para o fim, esqueceram os celulares e foram dançar.

No começo, o público estava como que diante de uma tevê, para depois experimentar a fervura e coreografar, de diversas maneiras, as músicas.

Muita liberdade e alegria no ar, no palco e na plateia — e a certeza de uma vitória vermelha.

Nós na fita

Tirei o pé de casa e fui ao show como tantas outras vezes, na esperança de encontrar quem entendesse e praticasse aquele tipo de som.

E não é que a magia aconteceu?

Na passagem de som, encontrei Bruno, contrabaixista da MKDT, e Carol, sua esposa. Eles vieram da Austrália passar férias por aqui.

Na calçada, do lado de fora, encontrei Bleyvs e Rodrigo Bomba. Breve, Dudu, o baterista do Mais Lama e o casal Wesley e Lila, juntou-se a nós.

Era um instantâneo de mais de 25 anos juntos, ainda presentes nesses fartos da vida.

Também vi alguns integrantes da banda punk escocesa The Gimme Gimme Gimmes, curtindo o tributo brasileiro ao rock'n'roll!

Repertório

Hey Boy
Não vá se perder por aí
Tecnicolor
Beijo exagerado
Portugal de navio
Fuga Nº II
2001
It's very nice pra xuxu
El Justicero
Cantor de mambo
Baby
Vida de Cachorro
Dunne Bugy
Qualquer bobagem
Balada do louco
Top top
Jardim elétrico
Ando meio desligado
A hora e a vez do cabelo nascer
Minha menina
Posso perder minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha o rock and roll
Panis et circenses

Julia Ferrari - voz

Dado Nunes - contrabaixo

Rodrigo Txotxa - bateria

Tarso Jones - teclado

Gabriel Lourenço - guitarra

0 grace slick

Fiz questão de registrar minha satisfação ao conseguir essa edição inglesa de 1980 do álbum Conspicuous Only In Its Absence de Grace Slick & the Great Society que adquiri nas estantes de discos da Infinu.

Esse disco é ouro para quem curte Mutantes e psicodelia. The Great Society foi a primeira banda da Grace Slick antes do Jefferson Airplane, 1965-66 em São Francisco. As duas músicas que virariam hinos do verão de 1967, "White Rabbit" e "Somebody to Love", nasceram aqui. Ou seja, é a matriz direta do som que influenciou os Mutantes no Divino Maravilhoso.

 

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