JUDEE SILL: THE KISS E O BEIJO DOS DEUSES (1973)
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Léo Saraiva:
Quem conhece verdadeiramente minhas preferências musicais sabe, da mesma forma, da profunda admiração que tenho pela obra de certos artistas, digamos, “estranhos”. Músicos erráticos, desconhecidos, obscuros e que, por injusta e dolorosa infelicidade, tiveram uma existência muito precoce. Vidas ceifadas na tenra juventude por uma combinação de elementos trágicos ou tristes, escolhas equivocadas ou mesmo infortúnios para além de suas possibilidades de conduzir o próprio destino.
Seus discos não vendiam pela absoluta impossibilidade de inserir suas obras — deslocadas do tempo comum — na obviedade do mercado fonográfico, que sempre regurgita o mesmo discurso. O legado artístico desses párias é, entretanto, maravilhosamente colorido por canções de uma beleza imensurável. Músicos-poetas que, com coragem, ousadia e talento em estado puro, condensaram notas em verdadeiros diamantes musicais. Melodias de um universo onírico, pleno de paisagens e tinturas únicas que, em doses nem sempre salomônicas, misturam deslumbramento, encantamento e tristeza.
Essa moçada escreveu um capítulo à parte na história da música pop. Refiro-me a gênios como Nick Drake, Tim Buckley e Jeff Buckley — pai e filho que legaram uma obra espetacular e unanimemente consagrada —, assim como Laura Nyro, Nico e Sandy Denny.
E refiro-me também, especialmente, a essa princesa que agora podemos ouvir: JUDEE SILL.
Californiana, órfã de pai, filha de mãe alcoólatra e de padrasto autoritário. Heroinômana, prostituiu-se para bancar o vício. Na cadeia, presa por porte de drogas e momentaneamente longe do vício, foi beijada pelos deuses da música e começou a compor em profusão.
Perfeccionista, Judee podia levar um ano para escrever uma canção. O disco de onde foi tirada essa música sublime, “The Kiss”, é Heart Food, lançado em 1973. Infelizmente, o álbum teve o mesmo destino do primeiro por ela lançado. Ou seja, não vendeu quase nada.
Assim como Nick Drake, Judee Sill foi aos poucos desaparecendo do cenário musical. Não se tem certeza do que aconteceu depois, mas ela certamente retornou ao abissal vício da heroína. Judee Sill morreu de overdose em 1979, com apenas 35 anos.
Ficaram para sempre suas canções celestiais, como essa “The Kiss”.
God bless you, Judee.

