Alissa Ordabai: Nicky Hopkins e o encontro entre a música clássica e o rock (2026)
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Eu sentia que Nicky Hopkins precisava de um biógrafo que compreendesse tanto a música clássica quanto o rock, entendidos como universos culturais distintos. Em 2016, depois de me mudar de Londres para Nova York, trabalhei como negociadora de contratos e gerente de turnês de três pianistas: Murray Perahia, Evgeny Kissin e David Fray. Nesse período, também gerenciei duas turnês mundiais da violinista Hilary Hahn. A sra. Hahn sempre se mostrou receptiva a músicas que ultrapassam o repertório clássico, mas fiquei impressionada com o quanto a fronteira entre a música erudita e a popular continuava firmemente estabelecida.
Murray Perahia, por exemplo, tem um conhecimento extraordinário da história da música clássica e de suas correntes espirituais. É compreensível que a música popular não ocupe um lugar entre seus interesses. O que me fascinava, porém, era perceber até que ponto esses dois universos musicais haviam permanecido separados mesmo durante seus anos de formação, quando o rock começava a emergir como força cultural. E essa separação funciona nos dois sentidos. Até hoje, muitos músicos de gêneros populares têm um conhecimento rudimentar da música clássica — quando têm algum. Há exceções, mas a divisão persiste.
Hopkins, por outro lado, conhecia os dois mundos. Na verdade, ele era a própria ponte entre a tradição clássica e o rock. Tendo recebido formação em conservatório, introduziu a música clássica — diretamente do século XIX — na própria estrutura do rock. Aquelas notas agudas de piano que derramam uma chuva de sons cristalinos sobre Monkey Man, dos Rolling Stones? Isso vem do Noturno nº 15 em fá menor, de Chopin — não como citação direta, mas como abordagem sonora. E aquelas passagens do álbum ao vivo de Jerry Garcia, de 1975, em que a mão direita de Nicky esvoaça nas notas agudas como um beija-flor? Ali está o Noturno nº 19 em mi menor. As ondulações que lembram água em Jealous Guy, de John Lennon? Isso é Debussy, da Suite bergamasque. Você também ouve tudo isso em Beck-Ola, de Jeff Beck, e em centenas de outros álbuns que mudaram a história da música e nos quais Hopkins tocou.
Para mim, a história de Nicky Hopkins trata da entrada da cultura erudita no gênero operário que é o rock e de como o rock, até hoje, tenta esconder que boa parte de seu sucesso dependeu de uma competência altamente especializada. Mais tarde, Hopkins foi apagado de retrospectivas, documentários e reedições de álbuns icônicos justamente porque era importante demais — importante de uma maneira que contrariava o mito do rebelde do rock sem formação, que cria espontaneamente.
Mas o rock não é o único campo em que isso acontece. No cinema, franquias populares dependem do trabalho de diretores de fotografia de elite. Na moda, técnicas da alta-costura ficam escondidas nas roupas de rua. Na política, intelectuais escrevem discursos para populistas. Na gastronomia, chefs de restaurantes estrelados pelo Guia Michelin elaboram cardápios de fast-food. Em sentido mais amplo, portanto, meu livro trata da maneira como a cultura moderna esconde seus próprios processos.
Hopkins teve um azar extraordinário quando se tratou de contar sua história. Na época de sua morte, em 1994, estava trabalhando em sua autobiografia com Ray Coleman, jornalista musical britânico. Coleman disse à imprensa que o livro seria publicado “em breve”. Os anos passaram. O próprio Ray já morreu, mas seu filho se recusa a publicá-lo. E esse silêncio também tem sua própria narrativa. Nicky nunca foi de enfeitar as coisas com laços. Sabendo o quanto era franco ao falar, certamente aborda em seu livro Page, os Stones, Lennon, os Kinks, Spector, Oldham e dezenas de outras figuras extraordinárias com quem trabalhou — sem dourar a pílula.
Até hoje, o único livro publicado sobre Hopkins é o de Julian Dawson, lançado em 2011. E os problemas dessa obra são enormes. Ela viola os princípios básicos da escrita biográfica: a verificação da procedência das informações, o confronto dos testemunhos, a revelação dos interesses das fontes, a distinção entre evidência e inferência e a responsabilidade para com as pessoas retratadas. Em meu artigo sobre esse livro, destaco alguns dos problemas metodológicos mais graves, assim como sua incapacidade de dizer algo significativo sobre a musicalidade de Hopkins: https://www.ordabai.com/julian-dawson-book-on-nicky-hopkins
Dez capítulos do meu livro já foram publicados on-line: https://www.soviethistorylessons.com/who-was-nicky-hopkins
Mas não afirmo ter todas as respostas sobre a vida de Hopkins. Se os leitores quiserem ouvir o próprio Nicky falar — sobre sua inteligência, sua estranheza, seu humor, sua vulnerabilidade e sua seriedade —, terão de fazer campanha para que Mark, filho de Ray Coleman, publique as memórias de Nicky. Façam campanha como os leitores fizeram quando pressionaram o espólio de Sylvia Plath a deixar de reter as cartas de Ted Hughes. Ou como estudiosos e leitores pressionaram durante décadas até que a correspondência privada de Kafka, guardada em Israel, fosse finalmente liberada. Façam campanha como a pressão contínua tornou impossível que o espólio de Harper Lee mantivesse Go Set a Watchman fora de circulação.
Então vocês ouvirão a voz do próprio Nicky — sem filtros, sem punições, límpida como um sino, exatamente como sua música.
Miscelânea — Nicky Hopkins: entre Chopin e o rock
Organizei a sequência alternando as referências clássicas com as gravações de rock. Assim, o leitor pode comparar os universos sonoros mencionados por Alissa.
1. Frédéric Chopin — Nocturno nº 15 em fá menor, Op. 55 nº 1
A referência clássica que Alissa aproxima da sonoridade de piano em “Monkey Man”.
— Maurizio Pollini
2. The Rolling Stones — “Monkey Man” (1969)
Hopkins ao piano, no álbum Let It Bleed. Alissa identifica na passagem de piano uma aproximação com Chopin.
3. Frédéric Chopin — Nocturno nº 19 em mi menor, Op. 72 nº 1
A segunda referência de Chopin mencionada por Alissa, relacionada à movimentação da mão direita de Hopkins nas notas agudas.
4. Jerry Garcia Band — apresentação de 31 de dezembro de 1975
Hopkins nos teclados. O registro foi lançado posteriormente como GarciaLive Volume Five. É uma boa oportunidade para escutar sua atuação em contexto de improvisação.
5. Claude Debussy — “Clair de lune”, da Suite bergamasque
Alissa associa as ondulações do piano em “Jealous Guy” à linguagem musical de Debussy.
6. John Lennon — “Jealous Guy” (1971)
Aqui a participação de Nicky Hopkins está documentada: ele toca piano na gravação. A própria página oficial de Lennon identifica o músico e comenta sua contribuição.
7. Jeff Beck — Beck-Ola (1969)
Álbum citado por Alissa como outro exemplo da presença da linguagem pianística de Hopkins no rock.

Alissa Ordabai
É escritora, pesquisadora e profissional da indústria musical, com experiência na negociação de contratos e no gerenciamento de turnês de pianistas como Murray Perahia, Evgeny Kissin e David Fray, além de ter trabalhado em turnês internacionais da violinista Hilary Hahn. Seu interesse pela trajetória de Nicky Hopkins nasce justamente de sua familiaridade com dois universos musicais que raramente dialogam: a música clássica e o rock. Em sua pesquisa, Ordabai investiga o papel de Hopkins como elo entre essas tradições, destacando a sofisticação de sua formação pianística e sua contribuição para álbuns fundamentais da história do rock. Também questiona o apagamento do músico da memória oficial do gênero e defende a publicação de sua autobiografia inédita, por acreditar que a voz do próprio Hopkins ainda tem muito a revelar sobre os bastidores da música popular.

