QE 28: A LOJA QUE VENDIA TEMPO E O ÁLBUM DE NANDO (1981)

QE 28: A LOJA QUE VENDIA TEMPO E O ÁLBUM DE NANDO

Cláudio Fernando, o Nando, era um dos irmãos mais novos de Ismael Lennon. Influenciado pelos meus álbuns de recortes, montou o seu próprio – só que dedicado à MPB. Suas páginas eram povoadas por matérias de Rita Lee e dos Doces Bárbaros, além de recortes de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia.

0 arnaldo b 1981

Anos depois, quando comecei a escrever Balada do Louco, a biografia de Arnaldo Baptista, recorri ao álbum do Nando – devidamente devolvido, como manda o respeito. Ali estava a matéria “Das vaias nasceram os Mutantes”, da Contigo, provavelmente de 1968, com uma foto que décadas mais tarde se espalharia pela internet. No mesmo volume, encontrei também um recorte da Visão (fev./1981), de onde sairia a imagem que acabou virando a capa do livro.

Pouca gente sabe, mas no início dos anos 80 existiu, por um curto período, na QE 28 – na parte superior do comércio antigo – uma pequena loja de vocação indefinida. O certo é que vendia revistas antigas. Foi ali que resgatei uma publicação de 1966 sobre os Beatles, já tratados como homens de negócios, com menção à Lenmac Enterprises Ltd., criada em 1964. Não se vendiam apenas revistas: vendia-se passado.

Voltei outra vez em busca de um exemplar da mesma safra. Encontrei uma matéria sobre os Rolling Stones que relatava a necessidade de fechar as portas dos teatros para evitar que o público abandonasse o local antes do show. No entanto, a revista dos Rolling Stones desapareceu ou foi vendida. Muito provavelmente foi ali que Ismael Lennon comprou a matéria sobre Os Mutantes.

Pouco tempo depois, no mesmo comércio – ou quase no mesmo ponto – surgiu uma lojinha de discos novos. Durou pouco. Era uma aparição: música encravada entre bancas de frutas, legumes e açougues. Quando fechou, fui até a casa do dono, um conjunto abaixo, e comprei dele um LP: Ringo's Rotogravure, de Ringo Starr.

Fica o desejo de que aquele empreendedor tenha encontrado destino mais generoso – à altura do esforço de ter levado cultura para dentro de um cotidiano improvável.

O conjunto “M” da QE 32 era uma passarela contínua. Por ali desfilava, diariamente, uma fauna humana variada: gente de bicicleta, outros arrastando chinelos, vendedores de porta em porta, representantes comerciais, idosos pedalando devagar com caixas de quebra-queixo. E havia o inesperado – como o velho que cortava cabelo de meninos na calçada, cena que me levava direto a Penny Lane.

A QE 30 terminava ali; começava o “M”, estendendo-se em linha reta até as QE 34 e 36, já perto da rodoviária. Talvez por isso o fluxo fosse tão intenso. O “M” era o conjunto dos blocos comerciais novos; nós vivíamos nos blocos “B”. Essa movimentação constante intrigava minha mãe – sobretudo porque eu conhecia todo mundo e passava horas parado nas esquinas, conversando.

Numa dessas esquinas, o menino Reginaldo, de bicicleta, distribuía os poucos exemplares do fanzine sempre que saía uma nova edição. Em casa, por causa do endereço já conhecido, eu recebia um fluxo contínuo de pacotes com tabloides xerocados vindos de todo o país. O carteiro tinha permissão para abrir o que fosse classificado como “impresso”. Naquele tempo, publicações como O Pasquim e Movimento não eram bem vistas – tampouco as revistas independentes.

Sabendo da minha curiosidade, o carteiro, às vezes, me entregava exemplares do Granma, órgão do Partido Comunista de Cuba. O assinante havia se mudado; em vez de devolver, ele arrancava a etiqueta e me repassava os números.

Era domingo, dia de lazer. A praça estava cheia, atravessada pelo reggae. Eu ficava de frente para o bloco comercial, diante de uma casa do conjunto “M” – posição curiosa, quase indiscreta. Alguém poderia olhar da janela e me ver do outro lado. Eu evitava chamar atenção.

Foi ali que, distraído, conversava com um rapaz da minha idade. Não chamava atenção até puxar assunto:

– Você é o Mário “LeMac”?

Não corrigi a pronúncia. Ele continuou:

– Conheci um “LeMac” em Goiânia, do movimento de legalização da maconha.

O coração acelerou. Sinal vermelho.

Nessas horas, assumo o tom professoral:

– Você está enganado. Não é “LeMac”. É “LenMac”, de John Lennon & Paul McCartney, dos Beatles.

Virei-me sem olhar para trás e mergulhei na multidão. Depois, um bar. Demorei a voltar para casa. Antes, observei: o rapaz não estava de campana.

Foi ali que “LenMac” deixou de existir.

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