UMA MIRÍADE DE SONHOS SOBRENATURAIS E, PORTANTO, PESADELOS MATERIAIS (2026)
- Details
- Hits: 46
UMA MIRÍADE DE SONHOS SOBRENATURAIS E, PORTANTO, PESADELOS MATERIAIS
Não me acho muito velho. Mas essa semana voltei no tempo.
Voltei para quando comecei a ler sobre rock e os caras que escreviam falavam das suas coleções de Tiger Beat e 16 Magazine. E eles falavam com uma tristeza: tinham perdido as revistas.
Perder revista é uma dor que só quem coleciona conhece.
Aí, na Beat Chapter - que eu chamo carinhosamente de Lar das Maravilhas - eu vi a Hullabaloo. Descobri um monte de revistas que eu desconhecia. Muita, muita preciosidade.
Todas aquelas revistas da contracultura que eu só tinha visto em livro. Até fiquei sabendo ali, lendo a descrição de um lote, da virada da International Times. No começo dos anos 70, pra competir com a Oz, a IT mudou a pauta e foi pro sexo. Da psicodelia pro porn chic. Eu tinha visto isso na prática na capa nº 129 que comprei: uma pin-up pintada, peito de fora, anunciando o filme do Fritz The Cat.
Fiquei maravilhado. Muito feliz. Sou muito grato por essas cinco revistas que arrematei. Foi uma grande oportunidade de contemplação.
É como um oásis quando você está com muita sede. Só que um oásis tão grande que você pode morrer afogado.
É isso que são essas cinco revistas: gratidão e realização.
O LAR DAS MARAVILHAS E O PERIGO DE NÃO EMERGIR
No texto anterior falei das americanas 16 Magazine e Tiger Beat. Revista que, naturalmente, tratava das bandas americanas daquele período, mas também de grupos como Herman's Hermits e tantos outros que hoje são alvo das pesquisas da australiana It's Psychedelic Baby! Magazine.
De vez em quando traduzo alguma coisa que me interessa. Me divirto, mas tomo cuidado para não poluir a cabeça mergulhando demais. Porque quando a gente mergulha nessas maravilhas, corre o risco de não conseguir voltar à superfície.
Na Beat Chapter fiquei curioso com a Time Out. Que revista seria aquela, surgida no explosivo 1968 e apresentada por Paul McCartney numa entrevista? Imagino algo além da música, com pautas sociais, políticas, culturais e de moda. E fico pensando quantas revistas inglesas daquele mesmo período desapareceram dos radares, embora seus arquivos estejam sendo vendidos na internet.
Vi inúmeras edições da Fabulous Magazine, que até então só conhecia por foto na rede. Digamos que prefiro o material mais documental e histórico. Vi também dezenas de revistas dos Monkees. Percebi que muitas eram reedições inglesas, o que talvez explique por que estavam disponíveis. O mercado inglês trata com muito cuidado suas publicações, inclusive as de super-heróis.
Mas, né? Não podemos confundir o real brasileiro com o dólar, muito menos com a libra esterlina. Os preços fazem os olhos da gente revirarem como os do Tio Patinhas naquele quadrinho em que ele arregala as órbitas e vemos cifrões subindo em direção ao cérebro. É uma visão maravilhosa, desde que a gente não esteja com o cartão de crédito na mão.
Nunca tinha ouvido falar na The Northern Beat Scene Magazine. Também senti falta da Monkees Monthly e não encontrei a japonesa Music Life. Você conhece?
Eu não frequento eBay, Discogs e outros endereços desse tipo. Só o YouTube, e faz tempo que não vou a feiras. Depois da experiência com a Beat Chapter, dei graças a Deus por nunca ter ido ao Velho Mundo para sangrar meu cartão de crédito.
Tenho um amigo em Londres - eu brigo feio com todos os meus amigos. Ele me convidava, convidava, insistia. Quando o conheci, há uns quinze anos, a primeira coisa que disse foi:
"Estou atrás de uns discos ingleses dos Beatles."
Nada excêntrico, convenhamos. Mas foi o suficiente para ele me bloquear!
Dois anos depois, o sujeito voltou a me procurar. E o mais engraçado é que, anos depois, veio à minha casa e trouxe presentinhos dos Beatles, entre eles o sensacional Photograph, o livro de fotografias do Ringo Starr.
Esse amigo, quando vem ao Brasil, traz revistas inglesas para o maior beatlemaníaco do Brasil, um sujeito que faz excursões anuais a Liverpool. O cara entende muito. Eu já sou mais recluso, bicho do mato. Estou satisfeito com o que consegui. Vejo valor até em jornais amassados que recolho na rua.
Certa vez, um amigo que vive viajando me trouxe o álbum duplo em vinil The Hunt, de Dexter Gordon e Wardell Gray, dois tenores. Acho que é o grande disco da minha coleção. Mas acho isso de tantos outros que fica difícil escolher um só.
Lá no Lar das Maravilhas encontrei a The Rolling Stones Book! Gosto de imagens de capas de revistas e jornais. Vi muita coisa de Robert Crumb, embora os preços sejam de assustar. Hoje parece que a gente precisa esconder a predileção por desenhos de mulheres volumosas, mas aquelas figuras estavam estampadas em inúmeras capas. E isso é magnífico, pensando nos dias de hoje. Eu mesmo sempre escondi o que estava folheando.
Você conhece tantas revistas underground argentinas e espanholas! Eu me deliciava com aquelas verdadeiras musas e com os cartuns inteligentes. Nem tive tempo de olhar as revistas sobre a Beat Generation. É coisa demais para uma cabeça só.
E é aí que mora o perigo: não posso mergulhar demais, senão não emerjo.
Faço muitas coisas, sou muito mimado e às vezes meio agressivo até. Tenho minhas parcerias com o nobre Julimar, sou produzido pela minha esposa e apadrinhado pela Alissa.
E continuo com os mesmos medos da infância, inclusive o de ir ao dentista.
No fim das contas, posso passar horas descobrindo revistas, capas, desenhos, discos e pedaços esquecidos da história. Posso me aventurar por arquivos de outros países sem sair de casa. Mas continuo sendo esse sujeito meio bicho do mato, satisfeito com suas descobertas, cercado de maravilhas e tentando não se afogar nelas.
Porque uma coisa é mergulhar na história. Outra, bem diferente, é conseguir emergir para contar o que encontrou.
ADENDO DE BANCADA - O NEGÓCIO DA VEZ
Hoje, na hora do almoço, fui buscar dois pacotes com quinze revistas ao todo, publicações dos anos 60 e 70. Vieram de um leilão no Facebook, organizado pelo Cesar Gibis, um leiloeiro legal, honesto e de preços ótimos, lá do Rio Grande do Sul. Faz bons anos que compro dele. Vou vencendo os lances, acumulando as compras e esperando a encomenda.
O problema é o cheiro insuportável de mofo. Revista antiga pode carregar poeira, bolor e outros agentes capazes de provocar alergias e rinite. Não é material indicado para todo mundo, muito menos para quem tem sensibilidade respiratória.
Faz seis anos que deixei de ser um colecionador compulsivo. Hoje, só compro quando aparece um bom negócio. Foi assim com esse álbum duplo do Jimi Hendrix Experience, com gravações na Rádio 1 da BBC, lançado pela etiqueta Riko - aquela que, em meados dos anos 90, levava meu dinheiro com CDs indispensáveis do Badfinger. O álbum deve ser do final dos anos 80 e é uma daquelas coisas difíceis de encontrar por aqui. Dei sorte: não precisei pagar os olhos da cara.
Sou bastante competitivo e, na hora da análise, a informação decide. Conhecer o material faz diferença na hora de avaliar um lance, reconhecer uma oportunidade e saber até onde vale a pena ir.
É só para dar uma ideia de como anda meu colecionismo no dopropriobolso: quinze revistas antigas, históricas, compradas por um preço excelente. E, junto com elas, a possibilidade de revisitar o passado, quando eu tinha quinze anos e folhear essas publicações em bancas, bibliotecas e consultórios era chic.
Naquela época, eu folheava. Hoje, compro quando vale a pena. O prazer, esse continua o mesmo.
Serviço:



Here is a summary in English for Alissa / Jon for your site:
A Myriad of Supernatural Dreams and Therefore Material Nightmares / The Wonderland and The Danger of Never Coming Up for Air
I'm not that old, but I went back in time to when I started reading about rock. Writers talked about their collections of Tiger Beat and 16 Magazine - and how they had lost them.
On Beat Chapter - which I call The Wonderland - I found Hullabaloo. I discovered a ton of magazines I didn't know existed, so many treasures. All those counterculture magazines I'd only seen in books. I even learned there about how International Times (IT) changed its editorial line in the early 70s to compete with Oz, shifting to sexual content. I was amazed and truly happy. I'm deeply grateful for the five magazines I won. It was a great opportunity for contemplation. It's like an oasis when you're desperately thirsty - an oasis so big you could drown in it.
In my previous post I talked about the American 16 Magazine and Tiger Beat, which covered American bands but also groups like Herman's Hermits that are now researched by Australia's It's Psychedelic Baby! Magazine. From time to time I translate something that interests me. I enjoy it, but I'm careful not to pollute my mind by diving too deep. Because when you dive into these wonders, you risk never coming back to the surface.
On Beat Chapter I got curious about Time Out. What kind of magazine was that, born in the explosive 1968 and introduced to me through a Paul McCartney interview? I imagine something beyond music, with social, political, cultural and fashion issues. I also wonder how many British magazines from that period have disappeared, even though their archives are being sold online.
I saw countless issues of Fabulous Magazine, which until then I only knew from photos on the internet. I prefer more documentary and historical material. I also saw dozens of Monkees magazines. I noticed many were British reprints. The British market seems to take great care of its publications, including superhero comics.
But you know how it is. You can't confuse the Brazilian real with the dollar, let alone the British pound. Prices make your eyes spin like Scrooge McDuck in that comic panel where dollar signs shoot up to his brain. It's wonderful, as long as you're not holding your credit card.
I'd never heard of The Northern Beat Scene Magazine. I also missed Monkees Monthly and couldn't find the Japanese Music Life.
I don't use eBay, Discogs and the like. Just YouTube, and it's been a long time since I went to a record fair. After my Beat Chapter experience, I thanked God I never went to the Old World to bleed my credit card dry.
I have a friend in London - I have fierce arguments with all my friends. He kept inviting me, insisting. When I met him, fifteen years ago, the first thing I said was: "I'm looking for some British Beatles records." Nothing eccentric. But it was enough for him to block me! Two years went by and he got back in touch. Funny thing, years later he came to my house and brought me little Beatles gifts, including Ringo Starr's sensational photographic book Photograph.
Whenever this friend comes to Brazil, he brings British magazines for Brazil's biggest Beatlemaniac, a guy who does annual trips to Liverpool. That guy really knows his Beatles. I'm more of a recluse, a woodland creature. I'm happy with what I've managed to collect. I even see value in crumpled newspapers I pick up off the street.
Once, a friend who travels the world brought me the double vinyl The Hunt, by Dexter Gordon and Wardell Gray, two tenor saxophonists. I think it's the greatest record in my collection. But I feel that way about so many others that it's hard to pick just one.
On The Wonderland site I came across The Rolling Stones Book! I love images of magazine and newspaper covers. I found plenty of Robert Crumb material there, although prices are scary. These days we have to hide our fondness for drawings of voluptuous women, yet those figures were on countless magazine covers. And that's magnificent when you think about the world we live in today. I used to hide whatever I was looking at, too.
You know so many underground magazines from Argentina and Spain! I used to delight in those real-life muses and their clever cartoons. I didn't even have time to look at the Beat Generation magazines. It's too much for one mind.
And that's where the danger lies: I can't dive too deep, or I'll never come back up.
I do a lot of things. I'm pretty spoiled and sometimes even a little aggressive. I have my collaborations with the noble Julimar, my wife produces my work, and you're my patron. And I still have the same fears I had as a child, including going to the dentist.
In the end, I can spend hours discovering magazines, covers, drawings, records, and forgotten fragments of history. I can venture into archives from other countries without ever leaving home. But I'm still that somewhat reclusive creature, happy with my discoveries, surrounded by wonders, and trying not to drown in them.
Because diving into history is one thing. Actually making it back to the surface to tell people what you found is quite another.
ADDENDUM
At lunchtime today I picked up two packages with fifteen magazines in total, 1960s and 1970s publications. They came from a Facebook auction organized by Cesar Gibis, a nice, honest auctioneer with great prices from Rio Grande do Sul, in the extreme south of Brazil. I've been buying from him for years.
The problem is the unbearable smell of mold. Old magazines can carry dust, mold and other agents that cause allergies and rhinitis. It's not material for everyone, especially for those with respiratory sensitivity.
It's been six years since I stopped being a compulsive collector. Today I only buy when there's a good deal. That's how it was with this double Jimi Hendrix album, Experience, with recordings on BBC Radio 1, released by the Riko label, which in the mid-90s took my money with indispensable Badfinger CDs. The Hendrix album must be from the late 80s and is one of those hard-to-find things here. I was lucky: I didn't have to pay an arm and a leg.
I'm quite competitive and, when it comes to analysis, information is decisive. Knowing the material makes a difference when evaluating a bid, recognizing an opportunity and knowing how far it's worth going.
Just to give you an idea of how my collecting is going on a budget: fifteen old, historic magazines bought for an excellent price. And, with them, the chance to revisit the past, when I was fifteen and leafing through these publications at newsstands, libraries and doctors' offices was chic.
Back then, I leafed through them. Today, I buy when it's worth it. The pleasure remains the same.

