1982: A Pistola, as Multas e as Algemas
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1982: A Pistola, as Multas e as Algemas
mário pazcheco
Eu ainda era novato ao volante. Tinha pouco mais de seis meses de carteira e acabara de completar dezoito anos. Era o final de 1982, quando implantaram mudanças de sentido em algumas praças do Guará, com placas indicando mão e contramão. Eu seguia corretamente pela minha faixa quando um carro surgiu na direção oposta. Apontei para a placa e mantive o curso. O outro motorista, muito mais velho e experiente do que eu, respondeu exibindo uma pistola pela janela.
Segui em frente impávido. Naquele instante, descobri que havia gente acostumada a substituir a razão pela intimidação. Perdi parte do idealismo, mas nunca traí a mim mesmo.
Com o passar dos anos, percebi que os instrumentos de pressão nem sempre se apresentam de forma espetaculosa. Às vezes, eles se manifestam nas pequenas autoridades, nas vaidades e nos ressentimentos cotidianos.
Quando transformaram a Via das Praças em mão única, obrigando os motoristas a contornarem a praça sempre no mesmo sentido, a medida trouxe mais aborrecimentos do que soluções. Vieram as multas, as reclamações e a sensação de que alguém parecia empenhado em atormentar a vizinhança.
Tarso, vizinho e agente do Detran, começava cedo. Antes das sete da manhã já havia carros autuados. As notificações apareciam sem que ninguém soubesse ao certo quem as aplicava. Agia discretamente, o que alimentava rumores e ressentimentos. Muitos o consideravam excessivamente rigoroso. Foi através da matrícula funcional que descobriram que o autor das multas morava justamente em frente à praça.
Alto, magro, de barba rala e sempre envolto num enorme casaco de couro, Tarso nunca foi uma figura popular. Depois da enxurrada de autuações, menos ainda. De vez em quando aparecia na vidraçaria para encomendar algum serviço. O pedido acabava ficando para depois, enquanto ele se estendia em histórias intermináveis para uma plateia que fingia escutar e fazia de conta que comprava o peixe que ele vendia.
Os anos passaram. Tarso adoeceu e partiu. E nós, sobreviventes daqueles tempos da Via das Praças em mão única, continuamos por aqui, guardando as lembranças, os ressentimentos e as ironias de uma época que o tempo acabou transformando em histórias das cidades-satélites.
Tocaia & Gandaia
Velhos policiais aposentados, faladores e sempre de óculos escuros, passavam horas escorados no balcão do bar, espalhados pelos bancos como se ainda estivessem em serviço. Um deles apontou para mim e ordenou:
— Venha aqui!
Falou em tom de comando, como se ainda estivesse diante de um recruta.
Respondi na lata:
— Vai se foder! Vai encher o cu de rola!
O pessoal do bar não entendeu nada. Por baixo do casaco, porém, brilhava uma argola metálica: a ponta de uma algema pronta para fisgar algum pulso desavisado. Marinho não gostava desse tipo de brincadeira. Quem caísse na armadilha seria alvo das gozações por semanas.
Naqueles poucos segundos de tensão, aproximei-me do engradado e apanhei uma garrafa, num gesto interpretado literalmente pelos presentes. Rapidamente, muitos se meteram no meio para evitar que a coisa desandasse.
O dono do bar, sempre de óculos escuros, coçava a barba sem conseguir esconder o sorriso. Sabia que aquilo era mais uma das encenações de Marinho.
Depois do episódio, desapareci do bar por uma temporada.
O que ninguém sabia é que, na noite anterior, eu havia sonhado exatamente com a cena das algemas. Quando ele me chamou, eu já pressentia que vinha pela frente mais uma brincadeira de gosto duvidoso. E, por isso mesmo, não estava disposto a ser o palhaço da vez.
Hoje, olhando para trás, vejo que a pistola, as multas e as algemas tinham algo em comum. Eram diferentes rostos da autoridade exercida sem grandeza. O tempo passou, os personagens desapareceram, os bares mudaram, mas as histórias ficaram. E são elas, afinal, que sobrevivem às cidades e aos homens.


