14.610 Dias de Amizade e Rock
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Los Skrotinhos di siempre!
14.610 Dias ao Léu
14.610 dias se passaram desde o primeiro aniversário de Leo Saraiva, em 15 de fevereiro de 1986 — ano em que o conheci — até o domingo de ontem. Isso quer dizer que já comemoramos o aniversário dele 38 vezes desde então.
E o melhor de tudo é que quase o mesmo grupo continua se reunindo em torno dele: sua irmã Sueli, Gaffa, Zédson, Júnior, Marly, Wesley, Afonso, Hugo e, claro, eu. O que isso significa? Significa girar como um pião e cair na palma da mão. Significa aportar sempre na mesma mesa cativa de algum boteco decadente e sem petiscos da QE 28.
É um atentado cultural nos dias de hoje, numa cidade sitiada pelo conformismo e pelo reacionarismo que se escondem sob a palavra “conservador”. Com certeza, e com cerveja, não somos conservadores: nem nos modos, nem nos cabelos, nem nas roupas distintas e rotas. Gente jovem também apareceu no aniversário de Leo Saraiva — afinal, ele consegue atrair pessoas de camadas com menos peso e idade.
A música é o elo vital que nos une desde aqueles dias maravilhosos de 1988, quando a família Saraiva vivia na QE 30. E, por causa da música, acho que nunca brigamos de verdade; no máximo, viramos a cara uns para os outros por causa da repetição insistente da cold wave. Mas nunca abandonamos o dark, o punk e até a new wave. Killing Joke ainda fala alto.
E ontem, estranhamente para um bar que ostenta os mestres do Black Sabbath dos anos 70, o som era quase bubblegum, com uma setlist acompanhada de clipes. E, incrível, alguns eu nunca tinha visto. Foi bizarro ver vídeos de Lord Sutch e até das The Shaggs. Pô, se eu soubesse que as músicas eram tão divertidas, tinha chegado mais cedo.
E chega a parte em que a conversa fica séria. Às vezes, os nós da vida também alimentam o estômago: falamos do que acontece na rotina de pessoas sexagenárias, das idas e vindas a consultas médicas e até das consultas virtuais de exames no ChatGPT. No fim, chegamos à conclusão de que a ocupação é a melhor realidade possível. Vimos a felicidade de Edson Salazar trabalhando com o Setorial de Rock e a mesma satisfação do Júnior no IBICT. Assim, deixamos nossas vidas e lembranças rolarem numa tarde divertida que virou uma noite alegre, como só pode ser um domingo de sol, incrivelmente ensolarado em pleno Carnaval.
Com Denizar, falamos da possibilidade de reunir as estrelas do rap de Brasília, e o baterista Ronaldo Gaffa desejou a mim e a Marizan os melhores votos de casamento. Em alguma estante perdida, Gaffa ainda puxou informações sobre o livro O Velho Jazz: Suas Raízes e Seu Desenvolvimento Musical, de Gunther Schuller, publicado no Brasil pela Cultrix — uma obra fundamental para entender as origens do jazz, detalhando o desenvolvimento do gênero, suas raízes, estilos primitivos e evolução técnica, dessas que ainda se encontram em sebos.
No fim das contas, nossa origem musical brota dos mesmos ramos de uma grande árvore — alguns vindos dos anos 70 e assim por diante, regressando até os anos 60. De Jackson do Pandeiro a The Smiths, passando por The Cure, tudo se conecta nesse tronco comum. Foi, sem dúvida, um aniversário retrô.
Milestones: Júlio Junk, em seu impecável Fusca vermelho 66, apareceu para encher o tanque; o gráfico Hugo veio de longe — e, como Gaffa, enfrentou quilômetros de sacrifício em nome da amizade.
1986: um ano depois do Rock in Rio — Celebration
Quarenta anos de amizade entre os Skrotinhos dizem muito sobre o clima cultural de 1986. Era o Brasil recém-saído da explosão do Rock in Rio, quando o país ainda vibrava com a ideia de um futuro possível, mais leve e mais barulhento. Os sons pareciam mais esperançosos, as bandas surgiam em cada esquina e a juventude acreditava que o rock podia mudar alguma coisa.
Naquele momento, o humor e os quadrinhos também viviam um auge. Era o tempo da turma de Angeli e Glauco e Laerte, com suas tiras e personagens que misturavam anarquia, sarcasmo e crítica social. Ainda ecoava a presença de Henfil, cuja obra seguia influenciando toda uma geração de desenhistas e leitores. Ao mesmo tempo, o espírito debochado que daria forma ao Casseta & Planeta já circulava entre jornais, revistas e programas de humor, criando uma nova linguagem para o riso brasileiro.
Na música, o rock nacional vivia seu momento de ouro. Bandas como Legião Urbana, Titãs, Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho dominavam rádios e programas de TV. Em Brasília, o cenário começava a ganhar contornos próprios, com os primeiros passos do que viria a ser uma cena subterrânea forte e persistente.
A imprensa musical também ajudava a formar esse clima. A revista Bizz se tornava uma espécie de guia espiritual para quem queria descobrir bandas, tendências e histórias do rock. Era leitura obrigatória para qualquer jovem que sonhasse com guitarras, fanzines e shows improvisados.
Olhando para trás, celebrar quatro décadas de amizade nascida naquele tempo é mais do que um brinde: é um marco afetivo. Nossa amizade antecede em três anos a fase seguinte, de 1989, quando comecei minha jornada pelo subterrâneo do Conic. Ou seja, antes dos bares, dos palcos improvisados e das noites infinitas, já existia esse núcleo, essa pequena confraria moldada pelo som, pelo humor e pela vontade de estar junto.
Por isso, brindar quarenta anos não é apenas comemorar o tempo passado. É reconhecer que aquela energia de 1986 — um ano depois do Rock in Rio, cheio de expectativas e descobertas — continua viva em cada reencontro, em cada história repetida, em cada música que ainda nos faz girar como um pião e cair, de novo, na palma da mesma amizade.

