Da fita lacrada ao acetato perdido: os primeiros registros do Velvet Underground (1965–1966)

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Da fita lacrada ao acetato perdido: os primeiros registros do Velvet Underground (1965–1966)

O pacote com carimbo postal de 11 de maio de 1965, que Lou Reed enviou para si mesmo, é um documento histórico fundamental para compreender os primórdios do Velvet Underground. Trata-se de um envelope registrado, endereçado ao próprio Reed em Freeport, Nova York, com a anotação manuscrita de seu nome e endereço. Dentro dele havia uma fita cassete com gravações caseiras de algumas de suas primeiras composições, feitas antes mesmo da consolidação da banda.

À primeira vista, era um artefato modesto: uma fita de áudio guardada em uma simples caixa de papelão, com o carimbo postal de 11 de maio de 1965 e o remetente e destinatário idênticos: Lewis Reed. Mas, se existe um “Rosebud” no arquivo de Lou Reed — um objeto revelador de sua juventude artística — é este. A caixa, ainda lacrada, foi encontrada em seu escritório após sua morte, em 2013. Somente quatro anos depois, quando a Biblioteca Pública de Nova York adquiriu o material por meio de sua esposa, a artista Laurie Anderson, os arquivistas abriram o pacote e reproduziram a fita.

O que encontraram foram algumas das primeiras gravações conhecidas de canções escritas por Reed para o Velvet Underground, em versões acústicas simples, quase folk, que surpreenderam fãs e pesquisadores. Naquele momento, Reed trabalhava na Pickwick Records, uma gravadora de baixo orçamento em Nova York, onde compunha músicas comerciais para projetos descartáveis. Foi nesse período que conheceu John Cale, com quem registrou as canções. Reed então enviou a gravação para si mesmo, e ela permaneceu lacrada por quase cinquenta anos.

A fita continha versões iniciais de músicas que se tornariam centrais no repertório da banda, entre elas:

• “Heroin”
• “I’m Waiting for the Man”
• “Pale Blue Eyes”
• “Wrap Your Troubles in Dreams”
• “Men of Good Fortune”

Enviar a gravação para si mesmo era uma prática comum entre compositores. O objetivo era criar uma prova de autoria, usando o carimbo postal como registro de data, proteger os direitos das músicas e manter um registro físico das composições. Esse método era conhecido informalmente como poor man’s copyright (o direito autoral do homem pobre), embora não substituísse o registro oficial.

Hoje, o pacote de maio de 1965 é considerado um dos documentos mais importantes da gênese do Velvet Underground, anterior às sessões profissionais de 1966 no Scepter Studios. Ele revela que a estética da banda — letras urbanas, temas sombrios e abordagem minimalista — já estava delineada antes da entrada de Andy Warhol e antes do primeiro álbum. O material serviu de base para o lançamento póstumo Words & Music, May 1965, editado em 2022, reunindo essas gravações iniciais e outras demos inéditas.

No ano seguinte, em 1966, surgiria o segundo grande documento desse período inicial: o acetato produzido nas sessões financiadas pelo executivo Norman Dolph. Décadas depois, esse disco seria encontrado por acaso em uma venda de objetos de família em Chelsea, Nova York, por um colecionador canadense chamado Warren Hill, que o comprou por apenas 75 centavos de dólar.

O objeto revelaria ser uma raridade extraordinária: a gravação da primeira demo profissional do Velvet Underground, considerada perdida por mais de duas décadas. O acetato havia sido feito em abril de 1966, quando a banda, então associada à Factory de Andy Warhol, gravou suas primeiras sessões com a intenção de conseguir um contrato.

Segundo o próprio Dolph, o acetato original teria sido entregue a Warhol ou a um dos integrantes do grupo. Anos depois, ele desapareceu, e o produtor passou a supor que o disco poderia ter sido furtado junto com a coleção de vinis de Lou Reed durante um assalto ao apartamento do músico — hipótese nunca comprovada, mas frequentemente citada para explicar o sumiço da peça.

Essa demo em acetato acabaria servindo de base para o álbum seminal The Velvet Underground & Nico, lançado em 1967. O reaparecimento do disco transformou-o em uma das gravações mais raras e valiosas da história do rock.

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Anos depois, outro capítulo dessa arqueologia sonora viria à tona. Em novembro de 2022, o Museu Andy Warhol anunciou a descoberta e a digitalização de raras fitas-matriz do álbum de estreia da banda. As fitas monofônicas de rolo-a-rolo, contendo versões alternativas e mixagens das nove músicas iniciais, haviam permanecido guardadas entre os arquivos pessoais de Warhol desde os anos 1960.

Essas gravações, feitas no Scepter Studios em abril de 1966, oferecem o som mais próximo das sessões originais que deram origem ao disco de 1967. O material foi apresentado ao público na exposição The Velvet Underground & Nico: Scepter Studio Sessions, inaugurada em maio de 2023 no Andy Warhol Museum, em Pittsburgh.

Assim, a história inicial do Velvet Underground pode ser compreendida como uma espécie de arqueologia em camadas: primeiro a fita doméstica lacrada de 1965, onde as canções aparecem em estado bruto; depois o acetato de 1966, primeiro registro profissional da banda; e, por fim, as fitas-matriz do estúdio, que documentam o momento em que aquelas músicas se transformaram em um dos álbuns mais influentes do século XX.

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