A vida tal como existe (2023)

mário pazcheco

Houve um tempo em que eu trabalhei na central de bibliotecas, e, por motivos essenciais, embora não muito importantes para os demais, eu nunca conseguia chegar no horário. Compromissos como buscar a criança na escola e enfrentar o trânsito durante o almoço tornavam minha pontualidade uma missão impossível. Como resultado, uma pequena fila de usuários segurando livros começava a se formar no corredor, chamando a atenção da funcionária mais velha do setor e do chefe, um gaúcho que anteriormente fora agente da Polícia Federal.

Minha chegada diária se tornava um pequeno espetáculo teatral. Ao adentrar a biblioteca, eu abria a porta, acendia as luzes, abria as janelas e ligava os computadores utilizando a senha do setor. Para manter as aparências, eu precisava representar o papel de um funcionário relapso, sem muita expressão ou sinal de inteligência, como se fosse apenas um burocrata há muito tempo enraizado naquele ambiente.

Perto das 17 horas, quando finalmente conseguíamos atender ao último usuário e sentávamos um pouco para organizar a confusão mental do dia, fui surpreendido pela visita inesperada de um amigo. Ele exclamou: "É aqui que você se esconde!" Sem entender se era um pesadelo ou a realidade, levantei abruptamente da cadeira, atravessei a portinha do balcão e o retirei da sala segurando pelo braço.

Ao levá-lo para fora, fiz duas perguntas de forma direta: "O que aconteceu ou quem morreu?" Surpreendentemente, ele respondeu: "Nada disso, estou precisando de uma grana e vim lhe vender o meu computador novo." O tal "computador novo" era um modelo sem potência comprado nas Casas Bahia, com programas instalados cuja procedência era duvidosa. Consciente de que a máquina não valia mais nada, recusei a oferta: "Não posso comprar nada. Não tenho dinheiro. Não insista. Agora vamos, falta uma hora para o turno acabar."

No retorno à biblioteca, meu chefe, o gaúcho grande e branco, questionou: "Quem era esse cara?" Respondi com franqueza e uma certa melancolia: "Meu amigo, um Amigo do Conic. Ele veio me vender um computador usado." Surpreendentemente, meu chefe aceitou a resposta, percebendo que eu também era vítima das circunstâncias.

Hoje, essa situação pode parecer uma piada grotesca, mas na época, foi o suficiente para me fazer cogitar ingressar na ordem da igreja Universal, tamanhas eram as reviravoltas e surpresas da vida cotidiana.

0 A 1

Uma das experiências mais reconfortantes do mundo é aproveitar a cachaça em um boteco durante um dia ensolarado, usando óculos escuros e com a mente envolvida em emoções, filtrando a paisagem quando vultos estranhos surgem. De repente, ouço alguém chamar:

"Oi, Pacheco! Você poderia ser meu avalista em um empréstimo no Banco de Brasília?"

"Olha, querida, sei que você é uma pessoa honesta e esforçada. Só que, no momento, já tenho três empréstimos descontados em folha e não disponho de margem para contrair um novo empréstimo", respondo. Providencialmente, aproveito a desculpa da hora do almoço e abandono a mesa como uma mosca tonta.

Poucos meses depois, descubro que o avalista teve seu pagamento suspenso, bloqueado judicialmente por falta de pagamento. O amigo avalista me envia uma mensagem tocante e repugnante: "Estou sem água, papel higiênico, sem trabalhar, sem passagem de ônibus, sem pagamento do mês, fui bloqueado. Por favor, faça um Pix de qualquer valor."

 

NATAL DOS MALAS

Almeida era um vendedor ambulante, percorrendo ruas e praças com seus oratórios tríplices esculpidos em madeira de lei. Às vésperas do Natal, ele estacionou no bar para relaxar e jogar conversa fora. Almeida era conhecido por ser uma pessoa amigável e espirituosa, alguém em quem nunca pensaríamos em passar para trás. No entanto, isso acabou acontecendo.

Josef, após muita conversa animada, conseguiu persuadir Almeida a vender-lhe o oratório fiado, alegando que seria um presente para sua nora devota de Santo Antônio, seja o santo casamenteiro, do milagre dos pães ou ambos. O que ocorreu é que depois do Natal, Josef desapareceu, talvez tenha saído do Distrito Federal para se esconder em algum lugar. E o pobre Almeida, dia após dia, aparecia no Conic à procura de Josef, o desaparecido.

Em um desses dias, Almeida me encontrou para contar a história e acrescentar um novo pedaço: ele teria vendido a peça a crédito porque Josef afirmou que eu seria o avalista e que poderia confiar em mim. Ao ouvir isso, fiquei irritado com Almeida: "Não me envolva em suas tramoias. Não tenho nada a ver com isso. Devia ter me consultado. Dá vontade de te colocar na cadeia. Não vou pagar por nada além das contas de mesa que já pago." Almeida diminuiu diante da reação e nunca mais foi o cara sorridente comigo. Evitou o Conic por cinco anos, e eu nunca tive coragem de perguntar se ele recebeu. Quanto a Josef, veio com uma conversa mansa pedindo ajuda para conseguir emprego no sindicato, mas não tive coragem de tocar no assunto, pois não sabia quem era mais problemático, se ele ou Almeida, e eu não pretendia ser trouxa.

0 A 2

0 A 3   Nas noites de sábado, costumávamos carregar um LP debaixo do braço para curtir nas festas. Eu passava uma goma no cabelo, dava brilho nos sapatos e cuidava da camiseta, que não era algo tão abundante naquela época. Em uma dessas ocasiões, o som rolou na casa do Alfredo, e eu levei o IN ROCK – um LP com um encarte incrível.

   Por descuido, esqueci o disco por lá, e poucos dias depois, percebi que ele havia sumido da pilha na sala do Alfredo. Quando questionei, ele apenas mencionou que o irmão dele havia mexido nos discos. De maneira sorrateira, retirei uma edição original de PRA ILUMINAR A CIDADE da pilha e a coloquei do lado de fora da janela. Subsequentemente, troquei esse disco em um sebo e consegui repor o "In Rock" e outros...

   Anos se passaram, quando na Vila Planalto, encontrei novamente o irmão do Alfredo. Para minha surpresa, ele me disse que o meu "In Rock" estava na casa do irmão dele, mas que não havia visto o PRA ILUMINAR.... Fiquei completamente surpreso com o reaparecimento do meu LP tantos anos depois, mas até o momento, não tenho notícias sobre o paradeiro do LP do Jorge Mautner e nunca cheguei a vê-lo novamente.

   –

   O Conic transformara-se em um aglomerado de pessoas sem escrúpulos. Antes do encerramento do expediente, tornara-se hábito tomar uma cerveja no início da noite das sextas-feiras. Obviamente, era necessário agir com rapidez, limitando-me a, no máximo, duas cervejas antes de retornar para casa, sob a desculpa de evitar um trânsito mais intenso. A persistente fragrância de cerveja impregnava a atmosfera.

   Enquanto eu estava à mesa, divagava sobre quantas parcelas ainda restavam do carnê de prestações do carro. A cada quatro anos, renovávamos o boleto para adquirir um carro de segunda mão mais novo, já que o anterior não suportava mais as demandas. Foi nesse momento que um "investidor" se juntou a mim, um homem jovem e eloquente, ansioso para discutir oportunidades de investimento.

   Estávamos no auge da década de 90, quando esquemas de pirâmide começavam a se proliferar. Envolviam inserir o próprio nome na última linha de uma lista e enviar adiante via email até que seu nome alcançasse o topo, sendo crucial "não quebrar a corrente". Não sabia se as pessoas aderiam a esses esquemas para saldar dívidas ou como uma forma desesperada de pagar o aluguel.

   Ouvindo a história com total desdém, finalmente, sem proferir palavra, chamei o garçom e pedi a última rodada. O orador, visivelmente frustrado, levantou-se abruptamente da mesa, gritando que eu não desejava ser um homem rico.

 

Não faço ideia de como começou essa história de ser chamado de "empresário" musical; nunca imaginei que minha paixão por comprar LPs pudesse me conferir tal estima. Lembro-me claramente de um jovem entusiasmado que se aproximou para me falar sobre sua banda, mal sabendo afinar os instrumentos. Mais uma vez, ouvi a mesma história, baseada na lenda viva de Renato Russo, o icônico líder da Legião Urbana que ainda estava entre nós na época.

A curiosidade me levou a questionar sobre o tipo de música que fervilhava na mente desse aspirante a músico. Em diversas sextas-feiras, nos encontrávamos, e ele divagava comigo sobre o complexo mundo da música. Em meio a essas conversas, sugeri que poderia ajudá-los, mencionando que em casa havia um palco com um tablado um tanto precário, mas repleto de energia, onde poderiam ensaiar se quisessem. Expliquei que o desafio seria chegar até lá, e que todo o transporte, equipamento e som ficariam por conta deles. Claro, também pedi que trouxessem seu próprio lanche.

O jovem músico deixou de me importunar, saindo do local aos berros, acusando-me de não querer "investir" na banda ao não patrocinar instrumentos e ensaios. Naquele momento, senti como se tivesse perdido a oportunidade de descobrir o próprio Gengis Khan.

Em casa, havia uma estante dedicada aos livros emprestados, incluindo um exemplar de EMPREENDEDORISMO PARA VISIONÁRIOS. Eu lidava com empréstimos e débitos referentes às diárias de trabalhadores braçais, conhecidos como "oreias". Certa vez, recebi a visita de um amigo lojista do Conic, que insistiu em levar o livro, mesmo após o alerta de que aqueles exemplares pertenciam a outras pessoas. Isso foi um ponto negativo para ele, e observei sua audácia com desagrado.

Ele buscava expandir seu negócio e procurava um "investidor", enquanto eu estava preocupado em sair para comprar café, açúcar e Danone. Naquele sábado, o único prazer que não abri mão foi ler a Folha de S. Paulo. Percebi que o empresário estava ansioso para mudar o rumo da minha vida, pois a partir dali, perderia os fins de semana livres, independentemente do meu desejo.

Como a conversa não progredia, deixei a casa e fui para o espaço da parceria, que era pequeno e desprovido de paredes, resultando em poeira em um ambiente que deveria ser hermeticamente fechado para a impressão de camisetas. Mostrei o espaço, concordando em cedê-lo, desde que ele assumisse os custos e instalasse uma pia de água. Deixei claro que não tinha a intenção de me aventurar naquele empreendimento, pois precisava cuidar da minha família.

A conversa se extinguiu como uma vela ao vento. Já estava preocupado com a constante lista de atividades para aquele espaço, que era um palco, começando a lamentar ter insistido em mantê-lo ativo e vibrante.

Os Los Bonitos era um notável trio pós-punk com habilidades musicais excepcionais. Como éramos vizinhos, trocávamos informações sobre música diariamente. Eles estavam ávidos por oportunidades de serem empresariados de alguma forma. A dinâmica mudou quando apareceu um empresário notavelmente diferente deles, um pouco mais velho. Confesso que senti ciúmes, pois, devido à nossa proximidade, pensava que eu era como o quarto integrante de Os Los Bonitos.

Sem dar muitos detalhes, eles assinaram a papelada e seguiram em frente. No entanto, nesse cenário, havia algo estranho acontecendo. Não fui eu que levantei a lebre sobre os hábitos do empresário, que, coincidentemente, trabalhava com bandas de pagode na região de Samambaia, e eu o reconhecia das festas do Clube da Saúde.

Um dia, ouvi alguém chamar: "Mário, chama os Los Bonitos!". A resposta foi que eles não tocavam mais de graça, agora tinham um empresário. Os Los Bonitos subiram rapidamente, apresentando-se em festivais, danceterias e shoppings, chegando até a participar de festivais fora do Distrito Federal. Tudo estava indo bem, inclusive a preparação de um videoclipe e a presença na TV e nos jornais.

Meu último contato com eles foi por meio de um convite para a festa de aniversário do baixista. Foi uma festa grandiosa, cheia de pessoas bonitas (os novos amigos) e com abundância de cerveja e comida. A empolgação estava no ar. No entanto, como os Los Bonitos subiram, eventualmente desceram. O que sei é que nunca mais ouvi ou li sobre a banda. Talvez tenham seguido outros caminhos ou, como comentei na época, "devem ter passado em algum concurso".

A reviravolta veio quando descobri que o empresário fugiu com todo o dinheiro da banda e desde então nunca mais foi localizado. Trinta anos se passaram, e Os Los Bonitos tentaram ensaiar um retorno com um novo baterista. A pergunta era: "Vocês vão competir por espaço com as bandas atuais, enfrentando a espera para tocar e investindo dinheiro do próprio bolso?" Quando mencionei que não tinha instrumentos, microfones, luzes ou caixas, eles questionaram: "Como você faz esse rock do próprio bolso?"

0 A 4

   O Garçom, um homem branco de meia idade, andava de um lado para o outro no submundo. Se você se sentasse em um bar suspeito para pedir uma cerveja, ele aparecia do nada, como se fosse seu anjo salvador ou o diabo à espreita por sua alma. Esses bares geralmente ficavam em subsolos ou saunas, mas entre esses extremos, havia um depósito de revistas, e eu costumava revirar aquele baú.

   Num determinado momento, o Garçom, que mais parecia o "Chefão", um tipo de Tranca Rua associado à proteção, justiça e sabedoria, surgiu na viela. Ele alertou as garotas de programa de que estar ali naquela noite não seria seguro, pois haveria um arrastão da polícia militar. Mesmo em meio ao frenesi do desejo e vício em cocaína, as meninas se alinharam para o ponto noturno. Infelizmente, as poucas trabalhadoras da noite foram arrastadas para o presídio feminino chamado "Colmeia", encerrando assim o ponto de prostituição na viela.

   O Garçom era considerado um protetor e se você estivesse envolvido em algum ato profano, como "dar um tapa" ou "fazer sexo no estacionamento", ele certamente apareceria para corrigir a situação. Era melhor evitar esses comportamentos naquelas redondezas.

   Numa noite, estávamos na mesa do bar na esquina, e quando alguém se aproximava do balcão para pedir uma dose, eu nunca negava pagar por tal aperitivo. O Garçom, ou Tranca Rua, apareceu para uma rápida conversa e fez uma previsão: "Vai aparecer um homem jovem com cara de estudante e vai pedir carona a vocês. Não o deixem entrar no seu carro." Estávamos cientes do programa de observação do governo sobre dependentes químicos, mas também havia traficantes que tentavam se aproximar de nossas mesas com histórias como "você está sumido" ou "você sabe que tem crédito na casa".

   Fomos ao bar da esquina para nossa peixada, e uma generosa nota de 50 reais cobriu tudo. Como previsto, apareceu um rapaz pedindo carona para a 109 Sul. Ele ficou ansioso, e em pouco tempo, tornou-se insistente. Sendo o único com carro na mesa, percebi que o pedido era direcionado a mim. Com trejeitos ousados, virei para ele e disse: "Aqui estão dois vales transportes; ali naquela esquina passa uma linha de ônibus, a 'Zebrinha', que vai te deixar lá. Vaza!" A mesa ficou surpresa com meu comportamento, talvez apenas Carlão, o homem mais bem informado do Conic, tenha entendido meu desabafo. Naquela época, o tráfico de cocaína era considerado um crime hediondo, capaz de levar alguém à prisão por um bom tempo, mesmo que fosse considerado um "traficante privilegiado".

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