Álbum de Fotografias — Denny Laine (2025)
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Álbum de Fotografias — Denny Laine
Há imagens que cabem na palma da mão, mas carregam um mundo inteiro dentro. Esta é uma delas. Um retrato pequeno, silencioso, mas atravessado por história, música, moda e atitude — daqueles que funcionam como cápsulas do tempo.
Denny Laine aparece ali em algum ponto entre 1966 e 1967, quando o sonho beat já começava a se dissolver em cores mais ácidas. É o fim de um ciclo com o The Moody Blues e o começo de uma travessia rumo a outros projetos, outras bandas, outras estradas. A foto não foi feita para ser capa definitiva; nasceu como material promocional, dessas que circulavam pelas páginas da Melody Maker, New Musical Express ou Disc & Music Echo. Mesmo assim, resistiu ao tempo, reaparecendo em livros, arquivos e memórias do rock britânico.
O centro da imagem é a guitarra. Uma Rickenbacker elétrica, provavelmente da série 300 (330 ou 360), corpo semiacústico, três captadores — o mesmo tipo de instrumento que ajudou a definir a estética sonora da Invasão Britânica. Lennon, Harrison, Townshend, McGuinn: todos passaram por ela. Nos anos 60, uma Rickenbacker não era só uma guitarra; era um sinal de modernidade.
Mas aqui ela vai além. O corpo do instrumento está tomado por espirais em preto e branco, um desenho hipnótico que conversa com a Op Art, com a psicodelia londrina, com o design mod tardio. É a Swinging London condensada em linhas curvas: Carnaby Street, capas de discos, roupas, pôsteres, tudo vibrando na mesma frequência visual. A guitarra deixa de ser ferramenta e vira superfície artística, antecipando um tempo em que o músico também seria imagem, conceito, persona.
Nada disso é gratuito. A pintura sinaliza a passagem do beat para o psicodélico, o momento em que o pop começa a flertar seriamente com a arte. É a mesma lógica que levou Clapton a pintar sua SG “The Fool”, George Harrison a personalizar instrumentos e Hendrix a transformar guitarras em símbolos quase totêmicos.
A pose completa o sentido. Denny apoia o queixo sobre a guitarra, em posição simétrica, olhar sério, introspectivo. Não há espetáculo, não há gesto exagerado. É um músico que parece pensar mais do que posar. Um artista sensível, em trânsito entre o entretenimento e algo mais profundo — exatamente o lugar onde muitos dos grandes dos anos 60 se encontraram por um breve instante.
Talvez por isso essa imagem dialogue tão bem com as histórias que Denny gostava de contar. Como aquela noite de bebida com John Lennon, quando John pediu um scotch, disse que não gostava de scotch, descobriu que havia Coca-Cola e decidiu inventar ali mesmo um scotch and Coke. Uma história pequena, quase banal, mas que diz tudo: contradição, humor, impulso, liberdade total diante das regras. O mesmo espírito que atravessa a foto.
Denny Laine se foi em 2023, aos 79 anos, deixando um legado que cruza a história dos Beatles em vários pontos — do pop britânico inicial aos estádios do Wings. Esta fotografia fica. Não como monumento, mas como fragmento. Um pedaço de tempo em que música, imagem e atitude ainda estavam sendo inventadas, linha por linha, acorde por acorde, espiral por espiral.


