National Gallery mostra fotos dos Beats

National Gallery abre mostra de fotos dos poetas beats

Galeria de Washington traz crônica íntima de escritores como Jack Kerouac, Neal Cassady e William Borroughs

03 de maio de 2010 | 19h 53
EFE

Autoretrato do poeta Allen Ginsberg, o retratista da 'Geração Beat'

WASHINGTON - A National Gallery abre a primeira retrospectiva das fotografias do poeta Allen Ginsberg, que ao comprar para si uma câmara de US$ 13 se transformou no fotógrafo inesperado de alguns jovens que dariam nome à "Geração Beat".

Até o dia 6 do setembro, a galeria de Washington mostra esta crônica íntima e testemunhal da vida de escritores como Jack Kerouac, Neal Cassady e William Borroughs, de suas aventuras sexuais e viagens exóticas que costumavam acompanhar com a experimentação de LSD e todo tipo de drogas.

As 80 fotografias captam "momentos sagrados", como Ginsberg dizia, desde o grito de uma juventude dourada - como a expressão de Kerouac imitando uma expressão de Dostoievski - a uma velhice atormentada, no último dia que o escritor de "On The Road" visitou o apartamento do poeta antes de morrer.

Ginsberg foi o maior promotor daquele grupo de artistas boêmios que se acolheu nas ideias de seu provocador "Uivo", o poema síntese de sua crítica a uma cultura carcomida e que levou seu editor à Justiça por causa da "obscenidade" da obra.

Mas ao mesmo tempo em que seus ideias inspiravam uma geração que corrompeu a moral puritana e conformista da década de 50 dos Estados Unidos, Ginsberg se transformou, sem pretendê-lo, em seu melhor retratista.

Entre 1953 e 1963, fotografou seus amigos nos terraços de Manhattan ou em seus passeios pelas ruas de Nova York, se agarrou a sua solidão e a sua intimidade como a que encontrava na cama de seu amante Borroughs.

Suas fotos também falam de si mesmo. Revelam sua atração por um enfeitado Kerouac fumando sozinho na escada de incêndio de sua casa, ou pelo humor e pelo ridículo de Borroughs dando um sermão em Kerouac sobre porque ele devia deixar de morar com a mãe.

Jack Kerouac em uma rua de Manhattan. Foto: Allen Ginsberg

"Ele queria preservar certos momentos na eternidade, a mesma razão pela qual todos nós tiramos fotografias, porque queremos lembrar essa gente, esse tempo, esse lugar", explicou à Agência EFE a comissária da exposição Sarah Greenough.

Mas quando em 1983 Ginsberg se reencontrou com aquelas imagens esquecidas em um arquivo da Universidade de Colúmbia (Nova York), viu algo mais.

Naquela época, o escritor já tinha alcançado a fama como o poeta que revolucionou a literatura americana com uma renovação estilística carregada de notas expressivas, simples, visuais, diretas, ao ritmo "beat" da improvisação do jazz.

Era um ativista controvertido, defensor dos direitos de homossexuais. Um pacifista, que tinha se reunido com o líder sandinista Daniel Ortega e que tinha saído expulso de Cuba por dizer que o general Raul Castro era "gay".

Esse Ginsberg voltou à fotografia e se deu conta que com a passagem do tempo suas fotos tinham ganhado significado, que aquele meio do qual tinha se esquecido capturou "a sombra do momento", a percepção sagrada do presente, sua máxima aspiração.

Uma nova câmara, uma 3C Leica, foi desde então sua fiel amiga e a carregava sempre para "escrever" pensamentos de poemas.

Com os conselhos de fotógrafos amigos como Frank Robert ou Berenice Abbott, se dedicou ao que ele chamou "instantâneas celestiais" e às quais acrescentou comentários e relatos que colocavam em contextos aqueles testemunhos visuais de uma época.

"Ensinou a si mesmo a ver o mundo com muito cuidado e com muita precisão. Assim como sua poesia influenciada por Kerouac (sua fotografia) realizava a criação espontânea, a fé em que o que acontece no momento tem sua importância e significado", explica a comissária.

A partir de então, suas fotografias amadureceram com ele. Um olhar mais reflexivo se concentrou em amigos, como o cantor Bob Dylan e o pintor Francisco Clemente, e em si mesmo.

Os últimos autoretratos confrontam com sua velhice. Aparece desnudo e enrugado em frente a um espelho, ou vestido com gravata, cachecol e chapéu em seu 70º aniversário. Um ano depois, em 1997, diria adeus a sua época e a sua geração.

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