Abaixo a mistificação

Abaixo a mistificação
(Glauber Rocha*)


Glauber Rocha, diretor de cinema: Ernesto Geisel tem tudo para fazer do Brasil um país forte, justo e livre

"Visão me pede para responder alguma coisa, eu também estou procurando uma resposta, a rainha Tomíris que matou Ciro era de um povo que costumava sacrificar aos deuses mais potentes os mais velozes seres humanos. Quando saí do Brasil, em 1971, deixei nas mãos do Tarso e do Maciel um artigo pra Já, onde anunciava que em 1974 baixava uma luz e as sete cabeças da besta se desintegrariam: depois, em outras ilhas, Marcos berrou no meio da viagem: Petróleo! E sabíamos que não era nosso na matéria mas Idéia; quem me encontrou nestes anos em vários continentes se lembra do que estava anunciando. (...)

Visão me pede para responder sobre arte no Brasil de 1964-74: são dez anos de Bode, daquele Demoz que crava fundo as patas no dorso da pelbe. Reagimos, o sangue correu em Jardim das Piranhas, Antônio das Mortes falou ao terceiro mundo, esperamos agora, sobretudo Eu, que sou protestante, Luz e Ação. Acho que Geisel tem tuado na mão para fazer do Brasil um país forte, justo e livre. Estou certo inclusive que os militares são os legítimos representantes do povo. Chegou a hora de reconhecer sem mistificações, moralismos bobocas, a evidência: Costa era quente, frias eram as consciências em transe que não viram pintar as contradições no espelho da história. Em 1968 eu era albuquerquista e Antônio das Mortes é o profeta de Alvarado e Khadafi. (...)

Vejam as coisas: agora a história recomeça. Os fatos de Geisel ser luterano e de meu aniversário sera a 14 de março, quando completo 35, me deixam absolutamente seguro de que cabe a ele responder às perguntas do Brasil falando para o mundo. Não existe arte revolucionária sem poder revolucionário. Não interessa discutir as flores do estilo: quero ver o tutano da raiz. (...)

Comecemos por economia política e vejamos como se articula o desenvolvimento da superestrutura sobre o subdesenvolvimento da infra-estrutura, etc. Acho Delfim Netto burro, idem Roberto Campos. Chega de mistificação. Para surpresa geral, li, entendi e acho o general Golbery um gênio - o mais alto da raça ao lado do professor Darci. Que Celso Furtado é ametáfora do terceiro mundo dragado pela Wall Street Scout. Que Fernando Henrique é o príncipe de nossa sociologia. Que leio e curto a revista Argumento. Que Chico Buarque é o nosso Errol Flynn. Que entre a burguesia nacionalinternacional e o militarismo nacionalista eu fico, sem outra possiiblidade de papo, com o segundo. De Cinema Novo? O novo é sempre viveterno e São Bernardo ainda surpreendeu incrédulos da geração 50. Não tenho nada de pessoal contra troipicanalhistas: detesto a finura sutil dos machadianos, o revisionismo time-life da moçada abrilhantada. Sou um homem do povo, intermediário do cujo, e a serviço. Força Total pra Embrafilme, Ordem e Progresso".

**Nice notes, o nosense udigrudi do texto glauberiano evaporou. Rocha não sabe que Argumento, projeto original de Fernando Gasparian, morreu no quarto número, vítima da censura em 1973. De valioso fica o registro histórico do termo tropicanalhas, preterido como título de CD em pleno ano 2002 por medo de retaliação cultural da camarilha. Colocado na encruzilhada, Glauber proclama o experimentar o experimental de Hélio Oiticica dando partida ao udigrudi sem "conciências em transe". Rocha será combatido pelo próprio invento-veneno. Enquanto vivo, a radicalidade o flambará e o imolará como profeta em transe esquecendo o espelho da história.

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