Michael Moore: Embaixador da Contracultura

Michael Moore: Talvez o meu próximo filme seja sobre Barack Obama...

Diário de Notícias
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Estreia-se hoje 'Capitalismo: Uma História de Amor', o novo documentário realizado por Michael Moore, que aproveita a crise econômica e financeira mundial para atacar e condenar o sistema capitalista. O DN entrevistou Moore no Festival de Veneza, em Setembro, onde o filme teve a sua antestreia mundial.

Qual é, precisamente, o tema deste seu novo filme, Capitalismo: Uma História de Amor?

Eu falo do sistema capitalista e tento relacionar a presente crise económica com certas irregularidades graves que foram cometidas, com a desregulação financeira, o fiasco da indústria automóvel americana, ultrapassada pela europeia e pela japonesa, a influência que a Goldman Sachs tem em Washington, a especulação com casas de pessoas que foram despejadas na Florida, o desemprego entre a classe operária etc. E analiso também os valores do capitalismo em relação à ética cristã, e concluo que são incompatíveis.

Mas o que é que o levou finalmente a fazer um filme sobre o capitalismo?

Há 20 anos, em Roger e Eu, o meu primeiro filme, mostrei e denunciei o que sucedeu quando a General Motors, a companhia mais poderosa do mundo, decidiu abandonar a minha cidade natal, Flint, no Michigan. Sou filho de um operário da indústria automóvel, e hoje, 20 anos depois, essa mesma empresa declarou falência. A crise hoje propagou-se a uma escala quase universal. E esta ameaça avança sem que ninguém a detenha.

Quem são, na sua opinião, os culpados deste estado de coisas?

São muitos. Wall Street, os bancos, o governo americano, o sistema, os dirigentes incompetentes, sem moral nem ética. Até que os mecanismos do poder mudem, as coisas irão de mal a pior. Não sou um especialista em economia, mas vejo o que acontece à minha volta. Há famílias que acabam a viver na rua porque não podem mais pagar as prestações das suas casas.

Barack Obama representa uma esperança de mudança?

Com Obama, terminaram oito anos de loucuras nos EUA. Tenho esperança e confiança no que ele fará, e tem um discurso ético de enaltecer. Mas estou preocupado que os Democratas possam começar a retirar-lhe apoio, e temo sobretudo a influência que a Goldman Sachs poderá ter sobre este governo. Talvez o meu próximo filme seja sobre Barack Obama...

Você ataca o capitalismo mas os seus filmes têm lucrado e milhões de dólares. Não se terá tornado, sem querer, num pequeno capitalista?

Não me faça rir! Não comprei nenhum iate com os lucros dos meus filmes. Eu reinvesti sempre o dinheiro que ganhei com eles, para fazer outros. O sucesso não é uma questão ideológica.

Mesmo entre grupos liberais, de esquerda, e não só à direita, há resistências e críticas à forma agressiva com que você denuncia, nos seus documentários, os erros e as injustiças políticas, sociais e económicas dos EUA.

Mesmo antes de verem os meus filmes, as pessoas já têm uma certa resistência à minha figura, aos meus 140 quilos e ao meu hábito de usar um boné de basebol. Eu venho de uma cidade operária e falo como um homem da classe trabalhadora.

Quem são os seus espectadores?

Todos aqueles que não querem viver num mundo sem um sistema de saúde digno, onde cada pessoa pode ter uma arma de fogo e um presidente pode declarar guerra sabendo que está a mentir aos cidadãos.

michael
Perfil
Michael Moore

26 Novembro 2009


Nasceu em Flint, no Michigan, em 1954

Estudou jornalismo antes de enveredar por uma carreira no cinema e na televisão

Assinou um clip dos R.E.M. e dois dos Rage Against the Machine, um deles filmado em Wall Street

Além dos seus documentários de "guerrilha" conhecidos por todos, quatro dos quais estão no Top 5 dos mais lucrativos de sempre no género, Michael Moore realizou ainda, em 1995, uma comédia satírica política, Canadian Bacon, onde o presidente dos EUA tenta melhorar os seus índices de popularidade invadindo o Canadá.

Foi um dos seus raros insucessos de bilheteira. Moore fez também várias séries de televisão no mesmo tom contestatário dos filmes, caso de TV Nation e The Awful Truth.

Já escreveu vários livros, o último dos quais Mike's Election Guide, em 2008. Ano em que pôs na Net, de graça, o seu filme Slacker Uprising. "Acho que o mundo me vê como um embaixador da contracultura dos EUA, pelas denúncias que faço nos meus filmes", disse ao DN.

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