Ivan Cardoso: Condenado ao terrir!

Ivan Cardoso: Condenado ao terrir!
(Mário Pacheco)

Um cineasta profundo, de gênio, o maior dos novos cineastas, visão simultânea, voraz, antropofágica urbana e ao mesmo tempo injetada constantemente por uma estranha melancolia, uma poesia tristonha e dourada, cintilante como a loucura. 
O mundo pop de suas imagens é revestido de uma camada de extasiante e permanente beleza. 
Ivan Cardoso é um alquimista que destilou mil abismos e maravilhas de nossa alma brasileira e os transformou em imagens de uma arte pop com requintes de rococó.
(Frases cunhadas por Jorge Mautner).

Em novembro de 2003, estive com Ivan Cardoso no lançamento do livro De Godard a Zé do Caixão, no Saguão do Hotel Nacional; ele sacou que eu procurava registrar alguma cena histórica, me equilibrava entre cameraman e entrevistador, sem atingir objetivo algum; nenhum conhecido apareceu para ajudar nas perguntas. Ivan Cardoso, me deixou bastante à vontade enquanto ele vislumbrava uma gatinha, chegou a distribuir meu cartãozinho do próprio bol$o.

O nome de Ivan Cardoso é associado ao cinema marginal, a Torquato Neto, a Hélio Oiticica, aos Irmãos Campos e várias fotos históricas feitas por ele, que primeiro apareceram na Folha de S. Paulo e depois em dois livros: "Ivampirismo - O Cinema em Pânico" (Ivan Cardoso e R. F. Lucchetti) e o recente "De Godard a Zé do Caixão".

Não tive coragem de perguntar se ele perseguiu o Caetano Veloso para matá-lo, pois o baiano estava azarando uma mulher sua e, menos coragem ainda de perguntar-lhe porque especulavam que ele seria um dos principais fomentadores do suicídio do poeta Torquato Neto. Naquela tarde preferi ficar calado e não perder o amigo.


Uma Filmografia de Ivan Cardoso

"Nosferatu no Brasil"

"Nosferato do Brasil ainda está sendo filmado. Semana passada vimos os três primeiros rolos e vários slides, tudo fantástico. Ivan Cardoso é outro cara que eu estou namorando agora: filmes de vampiro, transas por aí, você acha que eu ia perder uma maravilha dessas? Quando você puder ver essas coisas vai dar pulos. O filme está incrível e as caras que providenciei para mim são inacreditáveis. Tomei um susto quando vi. Fantástico! Quero fazer filmes com Ivan e mais alguns. O que você acha? Ivan me disse que ia mandar pra você alguns stills do filme, mandou? Gostou". Trecho de carta de Torquato para Hélio Oiticica, outubro de 1971.

"Essa turma do cinema marginal vai de ácido, vai de tudo quanto é droga e no entanto só fazem filmes fossudos e doentes, ao contrário do que se espera de quem usa ‘drogas’ etc., por aí”. Trecho suprimido por Torquato da sua entrevista com o cineasta Antonio Calmon, a qual o fez desistir de ser repórter entrevistador.

 

— Não vou é sair por aí publicando trechos de cartas que você ou outro amigo me mande. Tem muito disso na praça hoje em dia. Acho o fim da picada.
(De Torquato para Hélio Oiticica
)

Na saborosa, picante e divertida correspondência pessoal entre Torquato e Oiticica mais "asneiras" antídoto contra a "pasmaceira" que recentemente foi publicada nos dois volumes "Torquatália (Do Lado de dentro)" (organizado por Paulo Roberto Pires). Surpreendente é que Hélio Oiticica abandona o formalismo que marca suas teses e emprega uma linguagem livre e bilingüe misturando português/inglês e muitas sacadas dos maiores absurdos - verdadeiras páginas de diário - que qualquer aprendiz de cafajeste sem conhecer os labirintos e as intenções denominaria de delirante diálogo de gurus.

No fluxo turístico Brasil/Londres/Nu York dos anos 70, além dos embaixadores - os portavozes alimentavam na mídia as fofocas e ilações via disse-me-disse cujos pingos nos is só seriam postos quando os agentes principais retornavam, não foi assim do retorno de Glauber quando as elites piraram? O Movimento queria a cabeça do cineasta em transe, proliferaram trocas de acusações nas página de O Pasquim, envolvendo a manutenção do status e Caetano e Gil decerto enfrentaram antes o mesmo clima hostil onde nem tudo era odara.

"Os mais progressistas são na realidade os mais diluídos reacionários e irracionais" ainda hoje os preponentes desta frase com suas carecas protuberantes e sorrisos amarelos não crêem que, - O Brasil é um país condenado ao terror! Devido às suas ações pela manutenção do status quo.

"HO" (1979).
Luciano Figueiredo, coordenador do Projeto Hélio Oiticica, prefere nem lembrar de Ivan. O Projeto HO administra o acervo do artista plástico Hélio Oiticica e Luciano é acusado pelo cineasta de usar no catálogo do projeto, sem permissão, cinco fotografias do documentário "HO", filme de Ivan sobre o trabalho do artista - seu parceiro no tempo em que ainda tentava fazer vanguarda. "Nada do que ele, Ivan, diz é verdade. Quem vai provar isso é justiça", prometeu Luciano Figueirdo.

"Segredo da Múmia"
Regina Casé se recusou a rodar algumas cenas 'pesadas'. "Era uma seqüência de sexo oral, uma das mais lindas que eu já vi", diz Ivan. "Ela alegou que o namorado não tinha gostado da cena. Os atores só são felizes na hora de assinar o contrato".
"Só para, 20 anos depois, ele vir beber no meu pires, criando esse terrir de araque que foi a novela Vamp na Globo", (Ivan Cardoso ironiza o velho desafeto Antonio Calmon).

"As sete vampiras"
"Exagerado, alucinado e distorcido filme. Onde um clima de antigos thrillers detetivescos se cruza com clichês da chanchada (materializada em emblemas vivos como Ivon Curi, Colé, Wilson Grey e Zezé Macedo) e um erotismo tipicamente anos 80". (Antonio Querino Neto, Folha de S. Paulo, 8 mar. 1992).

"O Escorpião Escarlate" 1993
Versão cinematográfica do "Anjo", célebre personagem de histórias em quadrinhos. Depois de rodar grande parte do filme, o diretor descobriu que estava trabalhando com negativos vencidos. "Uma obra que poucos diretores conseguem fazer".
Herson Capri processou Ivan por ter usado dublê de corpo numa cena sexualmente ousada de seu personagem, que origianalmente se negara a a fazer.

1991 Fevereiro

Wilson Grey não aparece na cerimônia de entrega do Prêmio Golfinho de Ouro, no Teatro João Theotônio. Representa-o, o diretor Ivan Cardoso – o primeiro a lhe dar o papel de protagonista, em "O segredo da múmia"– recebe o troféu e o cheque de Cr$ 53 mil.

"No Rastro da Navilouca"

"Vou retrabalhar os muitos filmes que realizei com Torquato Neto e outros artistas, de forma que possa traçar um retrato da Contracultura nos 70". (Ivan Cardoso).

"À meia-noite com Glauber"

Colorido. 35mm com 16 minutos, montagem de Francisco Moreira. Telecineclipe sobre a obra de Glauber Rocha, Hélio Oiticica, José Mojica Marins e Rogério Sganzerla em depoimentos tomados na década de 70, originalmente o título era "À meia-luz com Glauber na zona proibida". A intenção inicial de Ivan Cardoso era realizar um média-metragem sobre o encontro de Glauber Rocha com Hélio Oiticica, no apartamento de Daniel Más, no Rio de Janeiro ao final de 1978. Ivan Cardoso, fotografou este encontro, que saiu como reportagem especial da revista Vogue, de janeiro de 1979.

Durante o desenrolar do processo Ivan Cardoso percebe que o documentário tem que ter Glauber Rocha como figura central e Hélio Oiticica como interlocutor de Glauber e do texto que Haroldo de Campos escreveu especialmente para os dois. Segundo o diretor:

— O filme se transformou num filme sobre a 'Estética da Fome' somada a 'Estética da Vontade de Comer'. Nesta vertente — Eu coloco o Mojica e o Sganzerla, especialmente. Por isto há imagens no meu curta também do Zé do Caixão e de 'O Bandido da luz vermelha'. O diretor também quis utilizar trechos do curta 'Di-Glauber', mas não pôde.

Quando dona Lúcia soube que tinha o Zé do Caixão e que não era exclusivo sobre Glauber Rocha, estrilou: — Deus me livre, não tem nada de Zé do Caixão. Se ele colocar Zé, eu tomo o filme e mato ele.

— Na verdade é um diálogo virtual com a experimentação no cinema. Ivan Cardoso. (...) Mais que engajado, Glauber foi amante da experimentação, seus filmes são trash, B. Os piores filmes brasileiros. Mas por serem os piores, são os melhores. (...) O lado desconhecido de Glauber o lado pop, trash, experimental, psicodélico.

"Fui a 40 festivais com 'À meia-noite com Glauber' e ganhei quatro prêmios, um no Brasil e três no exterior". (Ivan Cardoso).

"Heliorama" (2004)

Recebe o Kikito de melhor curta segundo o júri da crítica do Festiva lde Gramado, em 2004.
Cine-roteiro Heliográfico para o ins(pirado) Ivan (do Ivampírico Terrir) (Haroldo de Campos)

Exposições

3 julho - 1991
Hall do Kubitschek Plaza. Brasília. Exposição "De Godard a Zé do Caixão".

25 fevereiro a 4 março - 2000
20ª Edição do tradicional Fantasporto: Festival Internacional de Cinema do Porto, em Portugal.

19 agosto - 2002
Exposição "De Godard a Zé do Caixão". É curador das mostras e representante do festival no Brasil. 

Copacabana. Exposição "Hélio & O Tresoitão". A seqüência na qual Hélio Oiticica aparece beijando e lambendo um revólver transformada em fotos.
— Meu avô tinha sido amante de uma cantora portuguesa chamada Ester de Abreu e isso rendeu muito na imprensa da época, porque, a grosso modo, era a história da vedete com o prefeito - lembra Cardoso. — Hélio era leitor de revistas de fofoca, porque era fã de Ângela Maria e outras divas, por isso conhecia meu avô. A seqüência do revólver é atualíssima e tinha passado despercebida em "HO". Tirar prazer de uma arma, que hoje tem conotação ainda mais nojenta que na época, é muito transgressor.


"Hi Fi" (1999 - 8 minutos), revê o subversivo movimento concreto paulista.

"O filme é um mergulho profundo, através de fragmentos magistrais da obra do megapoeta Augusto de Campos, na literatura de vanguarda, revendo o subversivo movimento concreto paulista, ainda desconhecido". (...)
"O filme é uma colagem de contratipos riscados, sampleando takes raros par forjar clipes de alta (in)fidelidade, que revelam um longo rastro cúmplice, entre a tradição poética mais viva versus o cinema experimental", resume o diretor.     

"Um Lobisomen na Amazônia" 2005

— Moreau era o papel que faltava em minha trajetória - conta o ator, Paul Naschy, que contracena com as divas Karina Bacchi e Daniele Winnits e velhos colaboradores de Ivan, como Evandro Mesquita, Julio Medaglia, Tony Tornado e Nuno Leal Maia, o mocinho do filme, no papel do zoólogo Scott Corman - homenagem explícita a um profeta do cinema B, o diretor Roger Corman. Seguindo à própria vontade, esta pode ter sido a última vez que Paul Naschy viveu um lobisomen no cinema.

10 a 15 janeiro - 2006

É homenageado no CCBB Brasília com a mostra "Ivan Cardoso, o Mestre do Terrir", que exibiu três novas produções feitas em 2005, "A marca do terrir" (documentário), "O sarcófago macabro" (telefilme sobre mais um enfaixado faraó egípicio, estrelado por Carlo Mossy) e "Um lobisomem na Amazônia" (Uma homenagem a Boris Karloff e aos veteranos monstros da Universal, o estúdio americano que povoou as salas de exibição com Frankensteins, Dráculas e lobisomens).

O baú do Ivan 19 jul. / 2009

acardoso   Ivan Cardoso, que passou 13 anos longe das telonas, prova que herdou o fôlego milenar de seus personagens macabros. 
   "Tenho tempo de vampiro. Pra quem já viveu meio século, não existe pressa. Uma década passa rápido".


   "Em 1971, Ivan Cardoso (que havia permanecido no Brasil quando da debandada geral) realiza 'Nosferatu no Brasil', mostrando as andanças de um vampiro no país tropical. Com Torquato Neto no papel principal, o filme (uma produção em super 8) retrata bem os esquemas alternativos próprios do 'udigrudi'. Ainda em super 8, Ivan realiza no período 'Sentença de Deus' (1972) e 'A Múmia volta a atacar' (1972), prenunciando o estilo característico que adotaria posteriormente em sua carreira. É importante realçar a proximidade do diretor com Torquato Neto, Hélio Oiticica e por tabela o grupo neoconcreto do Rio de Janeiro. A produção e exibição de 'Nosferatu' é constantemente citada na coluna mantida por Torquato ('Geléia Geral') no jornal Última Hora, entre agosto de 1971 e março de 1972. (...)

   "Esta coluna era, aliás, um dos únicos espaços na imprensa da época onde a produção cultural alternativa encontrava eco. Lá são noticiadas a produção e a exibição dos filmes da Belair e de diversos outros filmes marginais. É lá, também, que explode a acirrada polêmica entre Ivan Cardoso e Antonio Calmon, significativa da intensidade emocional havida nas discussões entre o grupo cinemanovista e o marginal. Antonio Calmon, cineasta da geração intermediária entre Cinema Novo/Marginal, toma partido dos mais velhos na polêmica movida pelo 'udigrudi' contra o cinema industrial. Numa entrevista ao próprio Torquato, Calmon declara 'não existir mais a menor possibilidade de se fazer qualquer tipo de cinema experimental no Brasil (...) (esta é) a perspectiva mais bacana que eu vejo para o cinema brasileiro agora: um nacionalismo agressivo, antropofágico também, filmes de uma nacionalidade agressiva de fato - o que é uma linha paralela e não oposta à do governo'. A declaração cai como uma bomba no meio cinematográfico e Ivan Cardoso (na época, devido à idade, 'Ivanzinho') redige uma 'Geléia Geral' inteira sobre o assunto, criticando de forma irônica as posições de Calmon. Nesse artigo, intitulado 'Mixagem Alta não Salva Burrice', são sobrepostas à declaração de Calmon frases de diversos cineastas elogiando o esquema de produção alternativo e o experimentalismo: 'Colonizados e reacionários (...) os sabidos armaram a 'jogada industrial', se uniram ao que há de pior, é claro, e conseguiram fazer os piores filmes de todos os tempos' (de Bressane); 'a cultura liberal progressista, de esquerda tradicional está cada vez mais falida (...) todo mundo sabe que os órgãos que se propunham ser os mais progressistas são na realidade os mais diluídos reacionários e irracionais, tanto é que o Teatro Opinião falhou, como o Cinema Novo também falhou, como a Música Popular Brasileira e essas coisas não estão desligadas uma da outra' (de Sganzerla); 'em 1944 eu tinha uma máquina de 16mm. Fazia umas fitinhas e ia nas cidades do interior e projetava. Pegava os atores, botava trás da tela com alto-falante e eles iam falando. Ganhávamos um dinheirinho e com esse dinheiro íamos fazendo outros. Com essa brincadeira eu fiz dezessete filmes em 16mm' (de Mojica). A conclusão do artigo continua no tom polêmico: 'Capitão Bandeira, Deuses e Mortos, Barões Otelos, Calmons, Simonais, Gustavos, Vera Cruz, índios, carneiros, bodes, ah ah ah ah h ah ah, estou acendendo as velas para ver o desfile de fracassos. Eis umas verdades: nenhum desses filmes dará dinheiro. Nenhum destes filmes deu dinheiro. Nenhum destes diretores fará bons filmes".

Esse artigo botou mais lenha numa polêmica já antiga e o nome de Calmon se torna sinônimo na coluna de Torquato da "opção industrial" por onde havia enveredado o Cinema Novo. A crítica aos "sacerdotes" do cinema brasileiro fica mais aguda, na "Geléia Geral", de 7 de fevereiro de 1972, Torquarto afirma que "Glauber Rocha já era (...) Antonio Calmon disse que não havia mais a menor possibilidade de se fazer um cinema experimental no Brasil. E ilustrava as teorias do novo guru Gustavo Dahl, atualmente transadas nos círculos dos herdeiros (...) o que resta do falecido movimento do Cinema Novo é a nova nefasta aristocracia do cinema brasileiro, do cinema, e a ruptura que já existe exposta desde 1969/70 por Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, nas telas, deve ser mantida, e está sendo".

Na correspondência entre Torquato Neto e Hélio Oiticica - que pode ser encontrada no livro 'Os últimos dias de Paupéria' - sente-se os reflexos que a troca de acusações entre o pessoal do Cinema Novo e os marginais havia produzido. Além do clima paranóico que se respirava por aqueles dias, e que aparece nas cartas sob a forma de uma desconfiança generalizada, Torquato se refere seguidas vezes à polêmica: 'eu estou uma fera porque todo mundo baixou no pé do meu ouvido, de leon a capinam e com sorrisos pra argumentar que prosseguir nessa é, ou gastar energias à-toa ou, quando muito, quando pouco, 'dar cartaz', infantilismo, 'reagir à altura do baixo nível de lá' e outras coisas que não me dizem o menor respeito (...) quando eu cheguei da europa, duda me recomendava que não mencionasse rogério e julinho quando encontrasse alguém, mesmo dos 'queridos' do cinema novo. e era assim mesmo (...) enfim, eu estou achando que essa é uma boa briga e que deve ser mantida tensa em todos os níveis e várias estratégias, acho muito legal que ivansinho tenha sido o novo grilo da moçada, e expliquei isso a várias pessoas 'de formação neoconcretista', mas geralmente as pessoas preferem chamar a atitude de ivan de 'provocação' e 'imaturidade'.*

*Transcrito do livro Cinema Marginal (1969/1973) - A representação em seu limite de Fernão Ramos. Editora Brasiliense, 1987.como é que é, de madrugada, sozinho, nestes lugares muito antigos, eu ficava sempre com a pulga atrás da orelha :-)

 

 

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