Rosário Salvou Rosebud das chamas

Orson Welles por Glauber Rocha

 

Se Orson Welles recusa o cinema como instrumento de criação, não é por falta de crença no fato fílmico.

Sua indignação é a impossibilidade em dispor desses meios com os quais poderia alcançar uma Nova Dimensão, a região interpretativa ainda indevassável da existência do homem sobre a Terra.

Quando se fala no "imponderável" que a câmera poderia descobrir e a montagem poderia criar (tornar "ponderável", "real"), muita gente pensa que se trata de uma utopia ou de uma atitude "formalista", como se esse , 'formalismo' fosse reacionário.

A busca do "imponderável" cinematográfico jamais foi o alienado jogo da forma na forma, do plano no plano ou da luz na luz, embora tais conflitos abstratos valham como a melhor pintura moderna não figurativa.

Recusa-se uma existência formalista para o cinema porque seu próprio e incontido poder de criar no conflito a problemática imprevisível leva até mesmo o intencional jogo da forma pela forma abstrata de criar uma Entidade.

Partindo daí (e numa sala de montagem temos verificado que o princípio teórico se realiza na prática) podemos romper com o cinema narrativo-literário e partir para aquele em que a câmera e a montagem CRIAM uma dimensão fílmica sobre o tema e não CONTAM uma Heuztória com pré-existência literária.

Depois de Eisenstein, nunca um cineasta foi tão fílmico como Orson Welles.  Aos que veem a importância participante do cinema nos conflitos sociais e no complexo humano, essa observação torna-se fundamental para destruir a acusação pejorativa ao formalismo.

Se Eisenstein foi o maior intérprete da revolução soviética e das transformações radicais trazidas pelo socialismo, Orson Welles é o maior intérprete da tragédia imperialista.

Seu tema preferido foi o poder configurado no Homem, à maneira de Eisenstein em Alexandre Nevsky e  nos Ivans.

Orson Welles se postou no ataque vigoroso ao homem corrompido pelo poder e sempre derrubou esse Ditador com a força de quem abate e destrói um verme.

A denúncia vai até a derrubada, através do simbolismo fílmico, embora o tema continue quando finda a intriga.

Orson Welles não interpreta uma transformação à maneira de Eisenstein, porque essa revolução não se passou nos Estados Unidos .

Mas Orson Welles. "provoca no filme" essa derrubada, abre possibilidades de revolucionar sem nenhum dogmatismo, crente na absoluta corrupção desumana dos poderosos.

Orson Welles detesta e esmaga o chefe de imprensa de “Cidadão Kane” (1941), como o Chefe de Polícia de “Touch of Evil - A Marca da Maldade”, 1958, ou Othello, Macbeth, Arkadin e bufões como Falstaf.

Desmistificou a genialidade e se transformou no alterego dos Estados Unidos.

Poderia Orson Welles ser tão poderoso, não fosse através de "seu estilo"? Hollywood expulsou Orson Welles.

Na Europa ele filmou Kafka, metáfora da verdadeira história da família Ambersons Kennedy (The Magnificent Ambersons/Soberba, 1942; Le Proces/O Processo, 1962).

Quando Orson Welles filma “Cidadão Kane” (1941), os Estados Unidos estavam em guerra aliados com a União Soviética contra o Nazi-Fascismo.

“Cidadão Kane” é o sucessor de “O Grande Ditador” (Chaplin, 1940).

Montagem tonal e dramática do movimento psicológico de personagens inconscientes do processo materialista da história dentro de urna natureza  alienada e de uma cenografia alienante.

Kynema é linguagem total devido à ‘imprevisibilidadeimaginária’ que se manifesta com maior frequência na linguagem audiovisual do que na literária.

A montagem narrativa produziu um efeito ilusório da História que levou o teórico André Bazin a ver na Profundidade de Campo um espaço psicológico que exclui o tempo social da História.

André Bazin supervaloriza a montagem tonal dramática (montagem interna de origem litero-plástica) e idealiza a montagem externa como divisor e unificador dos tempos da mise-en-scéne neurótica dentro do plano em campo profundo, técnica desenvolvida  por Orson Welles em “Cidadão Kane”.

As lutas de classes estão ausentes do processo que leva Kane a herdar uma fortuna, casar com a sobrinha do Presidente, se candidatar a Governador de um Estado e criar estética na figura de sua fracassada mulher cantora de ópera.

Welles faz uma crítica psicológica e não econômica de Kane, metáfora de poder fálico imperialista, mas explica o poderio econômico pela paranóia política frustrada.

'Rosebud, Tema Psicológico, e não a luta de classes nos Estados Unidos e no mundo, Tema Histórico, é a infra-estrutura, temática de Kane, coincidente com a explosão nuclear de Ivan II.

No fluxo fílmico de Kane a luta de classes se reflete na psicologia mística do autor/personagem que a ela não se refere porque despreza o escravo.

O proletário é a consciência do narrador interpretado por Ioseph Cotten, alterego de Kane, o Rosebud pobre e velho no sanatório feliz.

No campo profundo de Welles se processam contradições inter-imperialistas.

Um capitalista pode matar o outro mas nunca destruir o sistema que deve ser defendido contra o fantasma ausente do proletariado.

O imperialista Kane morre e Welles filmonta a reconstituição psicológica de sua História identificando no indecifrável mitonironanista, Rosebud, processo cosmetafórico de personagens.

O limite dialético é estabelecido pelo método de investigação retórica que não desestrutura o mito Rosebud.

A montagem Kubexpressionista de Cane materializa uma concepção circular da História cheia de som e fúria contada por um idiota que não significa nada.

É o clímax shakespeariano, Othello, Calian de Welles.

O expressionismo alemão gera uma estética fenomenológica cuja função é mascarar a História na linguagem que em Hollywood substitui a economia, a sociologia, a política, a psicanálise, a linguística, a antropologia e a filosofia pela psicologidealista freudiana, espaço social sem' tempo social.

É Quinlan, é Arkadian, é Macbeth, é Othello, é Falstaf, é Don Quixote, é o Diabo, é Kane, é Roosevelt, é Truman, é Roquefeller, é Júlio César, é Hitler, é Stalin, é Welles!

Glauber Rocha in, O Século do Cinema, edição da Alhambra

 

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Cidadão Kane foi salvo por milagre

Por Lourenço Fragas*

Acreditem se quiser: o mundo só conseguiu ver a obra-prima de Orson Welles, “Cidadão Kane”, por interferência divina.

Randolph Hearst, o big boss da imprensa americana na época (1941), não gostou de  servir de inspiração para o filme, que retratava sua discutível fortuna e a incontestável falta de caráter, exigindo o sacrifício da obra.

Welles conta em sua autobiografia como salvou “Cidadão Kane” da fúria inquisitorial da censura da época, livrando-o das chamas da intolerância e do ódio de Hearst.

"Houve uma exibição para Joe Breen, que era na época o chefe da censura, para decidir se o filme seria ou não queimado. Porque os estúdios estavam correndo a maior bola para que fosse queimado", denuncia o criador de Kane ..

Diante um  boquiaberto  Peter Bogdanovich, Welles deixa escapar: "O filme só não foi queimado porque deixei escapar um terço". "O quê?",  devolve o ainda mais boquiaberto interlocutor.

Esperteza - Welles, bem humorado, revela que no dia da exibição fatal levou no bolso um terço. Quando terminou a exibição, ele se levantou e deixou o rosário cair diante do censor Joe Breen, "um bom católico irlandês".

O efeito foi fulminante e apaziguador. Em tom de galhofa Orson Welles arremata: "Se eu não tivesse feito isso, não haveria Cidadão Kane". Que Deus o abençoe por isto.

Apesar do providencial jogo de cena  diante do censor, Welles deixa visível sua  irritação ao comentar seu mais venerado filme.  Ele garante ao entrevistador,  que desde a última projeção da cópia final nunca mais viu “Cidadão Kane”.

Sua explicação “É horroroso ficar com tudo trancado numa lata para sempre. É por isso que não assisto”. Contra as investidas de Hearst, respaldadas pelas grandes cadeias de cinemas com um boicote ao filme, Welles propôs sua compra à RKO, detentora dos direitos sobre ele.

Mitos – Não conseguiu. Sua idéia, outra genial sacada, era exibir o filme em circuito alternativo, utilizando tendas de circo. “Se eles tivessem me vendido, teriam se livrado do problema e eu teria ficado independente e bem de vida para sempre”, calculava Orson Welles.

Ao longo da entrevista, uma minuciosa autópsia de Cidadão Kane, Welles vai demolindo com golpes vigorosos, mas sem  perder a ternura jamais, os mitos criados em  torno de sua produção.

O cacoete de parte da intelectualidade, de  descobrir símbolos e significados em obras de arte, não tem a menor  importância para Welles.

Para a estridente cracatua em uma das cenas de “Cidadão Kane”, Welles tem uma explicação singela: “Ela estava lá para acordar o pessoal que cochilava no set durante as filmagens”.

Bogdanovich não deixa a conversa esfriar e, mesmo diante de um casa vez mais irritado Orson Welles, não perde a pose. Habilidoso, mostra o timing exato de um bom entrevistador.

Bastidores - Por conta disso o leitor fica sabendo tudo sobre os bastidores das filmagens de Cidadão Kane, os enquadramentos  que revolucionaram o cinema,  a iluminação, fotografia, trilha sonora, escolha dos atores...

 Sabe, por exemplo, que o personagem central se chamaria Craig, e não Kane, nome que na época foi associado com Caim, que tem pronúncia parecida em inglês.

O próprio batismo do filme merece um registro à parte. O nome surgiu, conta Welles, depois de um concurso entre o pessoal que participou das filmagens. De todos, somente um ficou na memória do diretor, de tão ruim que era.

A autora da barbaridade, segundo ele, foi uma secretária que sugeriu “A Sea of Upturned Faces (literalmente Um Mar de Rostos Virados para Cima).

O cineasta avisa aos garimpeiros de curiosidades que quem tiver paciência para ler os créditos de Cidadão Kane vai topar com o nome de Alan Ladd (Os Brutos Também Amam), que no filme interpreta um anônimo repórter, daqueles que usavam chapeu na época. Foi a sua estréia no cinema.               ,

Outra surpresa: Welles nega que tenha inovado alguma coisa na maneira de filmar:

"Eu não sou um homem chegado a inovações. Mas sou tido como inovador, e calmamente aceitei alguns aplausos por coisas que, no fim das contas, não fui eu que inventei”.

A História, por uma questão de bom senso, não concordou com ele.  

Correio Braziliense, 23 ago. / 1995

 

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Dulce Damasceno de Brito encontra Orson Welles*

 

No entanto, apesar do meu deslumbramento com astros e estrelas, havia um desejo há muito acalentado: conhecer pessoalmente Orson Welles, o revolucionário realizador de Cidadão Kane. Era um homem difícil, desligado das convenções hollywoodianas, mas que concordou em me receber após a leitura de meu currículo de correspondente brasileira. O encontro aconteceu na manhã de 12 de novembro de 1956, no bangalô-camarim que Orson ocupava nos estúdios da Universal, onde dirigia e interpretava “A Marca da Maldade”, com Charlton Heston, Janet Leigh e a participação especial de sua amiga, Marlene Dietrich.

O filme só seria lançado dois anos depois, porque o perfeccionista Welles sempre fez questão de supervisionar pessoalmente o processo de montagem e outros detalhes técnicos. Por isso, passava dia-e-noite no estúdio e me recebeu no bangalô de robe de chambre para o breakfast daquela manhã, para mim, histórica ... Havia acabado de sair do chuveiro e ainda não vestira o surrado terno do detetive de “A Marca da Maldade”. Entre uma garfada e outra de seu ham & eggs e caneca-após-caneca de café preto, Welles declarou-se um feminista de primeira, elogiou meu corte de cabelo à Ia Shirley MacLaine e me deixou bem à vontade. Por isso, antes de me despedir do gênio, tive coragem de lhe fazer uma pergunta que me intrigava desde que vira Cidadão Kane: o que significava a palavra rosebud, que o personagem principal dizia, pouco antes de morrer? Orson deu sonora gargalhada e respondeu: "Se lhe contar, acaba o mistério e o encantamento do filme. Prefiro que pensem se tratar da pedra que faltava em um quebra-cabeças que Kane não conseguiu montar, apesar de ter conseguido tudo na vida ... " E até sua morte, em 1965, Orson Welles jamais esclareceu o assunto. Mas em Hollywood a versão considerada verdadeira é a de que o magnata da imprensa Randolph Hearst - em cuja vida Welles se baseara ¬ costumava chamar de rosebud o clitóris da atriz Marion Davies, sua amante. Então, a palavra significava mesmo o último gesto de amor do durão Cidadão Kane.

Dulce Damasceno in, "Hollywood nua e crua - os bastidores da fábrica de sonhos". Edição Círculo do Livro

 

 

 

 

 

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