1984: ALOÍSIO BATATA: O TRANSE DE UM ATOR DO 3.º MUNDO

Aloísio Batata: o transe de um ator do 3.º Mundo
(Mário Pazcheco)

"Passe o alicate Batatinha" essa singela frase retirada do desenho animado do Manda Chuva acabou por batizar artisticamente Aloísio Batata, músico, ator, agitador cultural, egresso de Belém do Pará, que chegou em Brasília em 1974 e nos 10 anos seguintes desafiou o coro dos contentes.

Aloísio Batata conseguiu encenar até mesmo no nosso inconsciente, sua impressionante presença de palco, vive na minha memória, eu não tenho certeza se testemunhei/ouvi seu solo de flauta com os olhos cerrados e a cabeça raspada e a comovente reação do velho teatro, talvez eu tenha visto a cena na tevê, ou melhor. lido... Na memória gasta, Aloísio Batata sobrevive como o palhaço Pipoca que fazia o programa Carrossel. Ontem tarde da noite o vi na tela da Band...

Psiu! / Psiu! Psiu! / Ninguém é besta não! / Tem pão? / Que tem, tem / Onde é que tem é que tá um flash de uma letra do Música-À-Tentativa

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    À-Tentativa no pátio do Correio Braziliense

   Foto: Wilson Pedrosa

   — Como era o À-Tentativa?

   Rênio Quintas: — Era espetacular. Música À-Tentativa: Gato, Nonato Veras, Zé Miguel vixe era tanta gente, acho que além do Nonato tinha mais gente do Liga Tripa na música da cidade...

   Como músico Batata passou pelo Grupo Saga, uma banda de rock, não era bem isso que queria. Passou pelo Liga Tripa e foi parar no Música-À-Tentativa, experiência vanguardista, à qual deu corpo ao lado dos amigos Gato, Márcio, Miguel, Nonato Veras e Calouro e que estreiou em 1982 na Sala Funarte, no Sesc, no Projeto Plateia e em alguns concertos ao ar livre: "nossa música é uma música de época. A gente quer ferir a nossa época, ferrar a época com nossas vidas".

   Sem dúvidas 1982 seria o ano de maior sucesso na curta carreira de Aloisío Batata apontado como "a revelação do ano" que também marca o aparecimento do nódulo em seu pescoço e uma necessidade urgente de agir/atuar.

   Aloísio Batata, uma lembrança viva (Ézio Pires*)

   O falecimento de Aloísio Batata em Brasília, vítima de um tumor maligno na cabeça, significa além da tristeza no universo cultural do DF o desaparecimento em fase de explosão, de um dos mais promissores talentos da linguagem dramática brasileira.

Aloísio ou simplesmente o Batata, como era carinhosamente conhecido no seu universo, foi sempre um ator de congênita dramaticidade. Seus gestos tinham uma linguagem de homem de palco. Sua voz, mesmo depois da desgraçada moléstia, que não pôde ser esmagada pelo cuidadoso tratamento, era a de um ser translúcido que vivia mais pela convicção de viver. De viver de bem com a vida. Não devemos esquecer nunca do Aloísio de bem com a vida.

Mesmo padecendo da cegueira em consequência da moléstia, Aloísio não fugia dessa batalha cultural de Brasília. Lembro da sua última aparição como flautista no Teatro Galpão, o mês passado, quando era apresentado o trabalho "Vidas Erradas". Não devemos esquecer o Aloísio sempre de bem com a vida em todos os seus trabalhos.

— Seu Ézio, tá tudo um breu, mas eu tô joia. Foi assim que me respondeu a uma das nossas últimas saudações. No seu jeito de enfrentar a moléstia, me lembrava às vezes a postura com que Brechet lutava contra a angústia da guerra dos nazistas: "Não fazer mal a si próprio nem a ninguém / encher de alegria a todos e a si também - eis o bem"...

Aloísio dava essa sugestão aos seus amigos e aos seus amores. E todos aceitavam para tentar sepultar a sua angústia que é ainda a angústia de todo mundo, que permanece ainda com medo de dizer até a palavra câncer. Precisamos derrotar a lembrança da morte de Aloísio, essa aranha caranguejeira que tem a forma de uma tristeza.

Vai Aloísio, vai fisicamente que a sua lembrança ficará viva entre nós.

*Originalmente publicado no Correio Braziliense, 17 jun. / 1984.

Algumas peças teatrais

*A Vingança do Carapanã Atômico - Tudo começou em 1979, com esta peça de Pedro Anísio. Inicialmente, Batata seria o flautista da banda que acompanharia a peça. Acabou intérprete do personagem Macunaíma.

*A revolução dos bichos - Dezembro de 1980. De George Orwell. Sob o impacto do assassinato do ex-beatle John Lennon e com a direção musical de Renato Matos mais o Grupo de teatro Cabeças. De todos estes espetáculos, o que ele mais gostava era esta peça. Onde Batata interpretou o porco Napoleão, tirano que dominava os bichos de uma granja. Este espetáculo mostrou a todos o talento histriônico de Aloísio Batata. Ele passou a ser para nós, espectadores brasilienses, o nosso Oscarito.

*Chapeuzinho amarelo - de Chico Buarque;

*Pedro e o Lobo - de Prokofiev, todas sob direção de *Guilherme Reis;

**A maior bandeira,"**A hora e a vez do jumento e **A morte do incrível Hulk, dirigidas por **Jota Pingo;

Boa-Noite General, de João Vianney. Outubro de 1982. Foi o primeiro texto teatral proibido após o início da Abertura: "capaz de provocar incitamento contra o regime vigente, a ordem pública, as autoridades e seus agentes". O texto inspira-se nos golpes militares que tanto o Chile quanto a Argentina sofreram. Na peça o "povo" é uma alegoria que fica de fora dos acontecimentos farsescos. Alóisio Batata foi o general além da participação de Nielson Menão, Camano, Henrique Rovira e vários outros.

Vidas Erradas. Criação coletiva da rapaziada desta chamada "Primeira Geração Brasiliense". Esta peça é um furacão, uma revolução de comportamento em palco, com Leninha chegando bem junto a Regina Casé. Rock, brigas, confusão, danças, nudez e Batata lá. Tem um momento em que a peça alcança um momento solene, clássico e triste. O Homem frente as suas fraquezas. Há choros. Batata pega a flauta e nos oferece uma linda canção, que para Turiba significou a canção de despedida.

A última viagem de um ator do 3.º mundo (Filmografia)

Dívida paga com sangue. (Armando Lacerda e César Fonseca), cujo intérprete constituiu-se em atração especial. O personagem deste curta que tem nome de filme de bang-bang é Aloísio Nobre Mendes - 1962/1984, o Batata que morreu durante as filmagens no início de uma carreira das mais promissoras.

Segundo Armando Lacerda, - o filme tem um valor afetivo. O filme não foi concluído segundo o roteiro, e é claro que eles encontraram uma situação capaz de concluir o filme. Reafirmando este filme é muito especial.

César Fonseca, o roteirista, sintetiza o filme com o entusiasmo de quem o viu dezena de vezes na moviola e gosta muito do resultado: - Dívida paga com sangue é um roteiro do subdesenvolvimento econômico do Terceiro Mundo. O indivíduo, como não poderia deixa de ser, encontra-se em situação semelhante à do seu próprio país, isto é, durango kid.

O desdobramento da história

- Do alto de seu pobre apartamento, fumando um baseado, o personagem de Batata observa a cena lá embaixo. Passeata de trabalhadores. Fmi, arrocho salarial, melhores condições de vida, desobediência civil ao status quo, apelo em favor da nacionalização dos bancos, fim da agiotagem.

Telefone toca. É o gerente cobrando uma velha dívida. Batata está com um velho papagaio no banco. Não tem como pagar. Choro de crianças, mulher gritando. Como pagar. Faca na cintura, Batata veste o paletó e sai pra rua. Pega um ônibus e acompanha, no trajeto, a miséria social: passeata, pedintes, crianças abandonadas e lavadores de carro.

Ônibus pára atrás do Congresso. Batata entra no Senado. Depoimento de Delfim. Rola o papo de submissão ao FMI. Justificativas oficiais sobre a presença de Ana Maria Jul vasculhando as finanças. A tudo, o olhar de desdém do pobre endividado.

Cabeça cheia, humilhado, pensando na penúria familiar, revirando papéis velhos, refazendo contas antigas, Batata retoma o seu roteiro. Brasília passando nos seus olhos, paisagens, jardins, beleza do cerrado.

Setor Comercial. No Banco: gerente (Jota Pingo), inquieto, autoritário, manda Batata entrar sem olhá-lo. "Senta aí". Está dependurado no telefone, ameaçando Delfim Neto e Ernane Galvêas. "Se não me pagarem acabo com vocês, eu manipulo os cordéis da política econômica do Brasil. Corte. Telefone toca. "General"! O gerente tinha um esquema de corrupção com alguns militares. Emprestou, melhor doou, terrenos em Mato Grosso. Fica sabendo que o país honrará a dívida de qualquer jeito, mesmo que através do sacrifício do povo. "General, o senhor é o máximo". Batata escutando.

Telefone no gancho. Papo do gerente com Batata. Este explica: não posso pegar. Se vira, rebate o gerente. Vocês já levaram tudo que eu tinha, não posso entregar nem pagar mais nada. "O sacrifício é uma necessidade inevitável. Bate-boca infernal por alguns segundos. Batata puxa a faca e desfere violentos golpes. Pingo estrebucha. O sangue escorre. A dívida está paga".

Conversas paralelas - de Pedro Anísio. Batata costumava dizer que era um ator que ninguém via no filme, já que seu personagem atuava encapuçado.

Progressália - As Ministéricas, de Luis Turiba. (Super-8). Março 1980. Seu trabalho mais ousado, poético e radical.

O sonho não acabou. Neste filme, Aloísio Batata rompeu as fronteiras da província, quando fez papel de destaque neste longa-metragem, intitulado incialmente "SQS-Salve-se Quem Souber", ele interpretava um adolescente apaixonado por aviões, que traficava cocaína. Para conseguir dinheiro, seu personagem chegou a envolver irmã, menor de idade, num sequestro, entregando-a a um filhinho de papai.

Trimiliguis toda vez que te vejo. Se você conhecer alguém que possua estas fitas gratuitamente eu as transformo em DVD!

Artigos consultados:

A última viagem de um ator irrequieto, Maria do Rosário Caetano, Correio Braziliense, 14 jul. / 1984.
A Progressália perde seu mestre-sala, Luís Turiba, Jornal de Brasília, 14 jul. / 1984; sábado.

Relembrando Robson Graia

1984, resolvi que voltando ao Brasil, queria mesmo é largar as pistas e subir ao palco.

Em pleno deserto do México, rumo ao Texas, ouvia GILBERTO GIL cantando Drão e o seu último sucesso, A Linha e o Linho. Em L.A. conheci o som de Prince.

De volta a BSB, formei a dupla de palhaços Goiaba e Jabuticaba. Que logo se juntou com outros talentos da Geração 64 e um ano depois estávamos lançando aos palcos novelas e outras peças. Com um humor que seria consagrado anos mais tarde na TV Pirata. Aqui mostramos para as cabeças pensantes que existia nesta cidade outras cabeças atuantes, no meio das artes. Nestes dez anos a PALCO CIA. DE TEATRO trabalha com a sua maior qualidade (por muitas vezes a única): o talento de seus atores. Velhos amigos como: Goiaba, Skaf, Grossi, Kako, Cristiane, Ana-T, DW, etc., levando ao público o enorme prazer que é o do riso. Estes atores e outros estão espalhados pelo mundo.

Hoje, com velhos e jovens de todas as cores e nomes possíveis, estamos cada vez mais próximos de ser uma Cia. De Teatro, onde é dada a oportunidade de crescimento artístico. Somos o único grupo que realiza há anos testes periódicos, onde podemos descobrir diamantes e pérolas como: André Deca, Martha Scardua e Luciane Franco, esta, diretora guerrilheira que amplificou o meu espetáculo, que faz da peça DISFARÇA E CHORA um marco na história do grupo. Para o desespero dos puristas e cítricos críticos, trabalhamos muito, temos público, somos fortes, heróicos, para enfrentar este país que tenta bloquear anossa criação e nos faz mais fortes ainda para criar dança, vídeo, música, foto, ópera, teatro, que é a nossa revolução. Somos o principado do entretenimento... Hoje, ouvindo Gilberto Gil, Prince, e Toni Tony Toné, quero levar este grupo para o mundo... Palco Cia. De Teatro – 10 anos. Just do it.

Texto de: Robson Graia



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