Plínio Marcos no Piauí em 1999!

 

Barrados no baile
(Cineas Santos*)

— O BRASIL NÃO PROTEGE OS SEUS CRIADORES!

Aí por volta de 1978, a ditadura militar que amordaçava a inteligência brasileira já demonstrava alguns sinais de cansaço. A despeito disso, não dava a menor trégua ao dramaturgo Plínio Marcos, o mais censurado de todos os autores brasileiros contemporâneos. Curiosamente, Plínio nunca militara em nenhuma organização de esquerda. O seu partido era (continua sendo) o dos deserdados, desvalidos, “merdunchos”, como diria o João Antônio. Sua temática a violência que esmaga os sem-defesa.

Inicialmente, censuravam-lhe apenas a obra, o que lhe já causava terríveis transtornos. Com o recrudescimento da repressão, passaram a censurar-lhe a própria pessoa. Objetivo: bani-lo do cenário cultural do país. Mais que “maldito”, o autor de Barrela passou a ser tratado como um proscrito. Fecharam-lhe todas as portas. Não tivesse fôlego de sete gatos, o velho “Frajola” teria descido pelo ralo.

Em outubro de 78, se não me falha a memória, peguei o telefone e liguei para o Plínio. Convidei-o a vir a Teresina participar de um encontro cultural, que contaria com a participação de outro peso-pesado: Henfil. Ele próprio atendeu ao telefone e, sem saber quem eu era nem se podia pagar-lhe um cachê decente, foi direto: “Me mande as passagens e irei agora mesmo”. Uma semana depois, no velho Theatro 4 de Setembro, superlotado, Plínio magnetizava uma platéia constituída, em sua maioria, de estudantes secundaristas. Foram quase três horas de pau puro. Falou de teatro, censura, política, música, índio, futebol e o escambau. De quebra, bateu uma bolinha na coroa do Parnaíba e, em seguida, zarpou para São Paulo.

Dois dias depois, fui procurado pelos “homens”. Queriam saber onde o “indesejado”: estava hospedado, o que viera fazer em Teresina e quem estava bancando a sua estada aqui. Um pouco por ingenuidade e um bocado por burrice, tentei fazer uma gracinha: “O Plínio veio financiado pela Ordem dos Templários para um encontro lítero-religioso com D. Avelar, ficou hospedado no Memorae e, se bem se andou, já deve estar em São Paulo, torcendo pelo Jabaquara”. Por pouco, não me encalacrei. É que um dos agentes tinha sido meu aluno e sabia perfeitamente que eu não representava (nem represento) qualquer ameaça a regime algum, nem mesmo alimentar, já que como muito pouco. Ficou barato. Vinte anos se passaram, e só agora volto a reencontar o autor de Navalha na carne.

Na semana passada, atendendo a um convite da Fundec, Plínio voltou a Teresina e me ligou. Marcamos par anos encontrar numa festinha, homenagem dos amigos ao Zé Elias Área Leão, que estava completando 60 aninhos. Não sei por que razão, o local escolhido para a homenagem ao Zé foi a cobertura de um edifício de luxo, onde o freguês, antes de entrar, precisa exibir, entre outros documentos, um atestado de vacina anti-rábica. Lá pelas tantas, Plínio e d. Vera, sua companheira, apareceram. Sem mais nem menos, foram “delicadamente” barrados. Motivo: o dramaturgo usava bermuda, traje incompatível com a austeridade do ambiente. Em meio ao constrangimento geral e sem poder fazer nada, tomei a única decisão que me apareceu decente: retirei-me da festa.

Na manhã seguinte, envergonhado e constrangido, fui procurar o Plínio que, ao me ver, disparou: “Você continua muito malcriado e burro. É por isso que está tão magro”. Antes que eu tivesse tempo de entender, emendou: “Em tais circunstâncias, a gente come primeiro, depois protesta” e, sem ressentimento, sorriu com os poucos dentes que lhe restam. O velho “Frajola” tem razão: continuo malcriado, burro e magro. É que, com ou sem protesto, eu sempre me retiro antes do jantar.

* JORNAL MEIO NORTE – 25 mar. / 1999. TERESINA, PIAUÍ.
** Prezado Professor Cineas Santos, estive hoje (aqui em Brasília, no CONIC) com o Zeferino Alves Neto (in memoriam)  ele me disse que você o procurou para custear a vinda do Plínio e que naquela ocasião ele não tinha a verba da Funarte... E que esse mal-estar foi dissolvido com o passar dos anos quando vocês trabalharam juntos...

 
Plínio Marcos no Piauí
 
 
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