Quem é o Outro Lear de Humberto Pedrancini? (2025)
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AR Vitalização Cultural do SCS: Arte que Respinga no Edifício Márcia e nas Áreas Adjacentes do Setor Comercial Sul
texto meu ou de mário pazcheco
com fotos de marizan fontinele que capturam o instante que ninguém viu chegar — o detalhe pequeno que insiste em existir no meio do caos
O Setor Comercial Sul sempre foi esse paradoxo: ao mesmo tempo um deserto de caixas eletrônicos, restaurantes rápidos e vitrines para alugar, e um refúgio escondido de galerias, sebos, teatros meio adormecidos e outros teimosamente vivos. Por décadas, o SCS será lembrado pelo concreto duro, pela pressa dos passantes e por aquele sentimento de que tudo ali estava sempre a um passo de desmoronar — ou de ser esquecido. O abandono urbano criou uma espécie de neblina permanente, como se o centro tivesse sido entregue ao próprio eco.
Mas algo mudou.
E a mudança não é apenas estética: ela é simbólica, identitária e profundamente afetiva. O que se vê agora nas fachadas, nos corredores, nas calçadas, nas empenas inteiras que antes eram cinza, é um sinal claro de que o SCS se reencontra com a cidade — e que Brasília volta a dialogar consigo mesma, como nos tempos em que andar pelo centro era sinônimo de vida cultural pulsante.
O Ícone que se Ergue: Edifício Márcia
No Edifício Márcia, a gigantesca empena colorida que subiu ao céu fez o papel de anúncio e manifesto. O mural, vibrante, monumental, banhado em tons quentes, carregado de afeto e de narrativas negras, transformou o prédio em símbolo. Não é apenas pintura: é presença — corpos que afirmam suas histórias, olhares que devolvem humanidade ao concreto, gestos que reocupam o espaço urbano.
O SCS, que vinha perdendo sua identidade há décadas, encontra ali um ponto de virada. Onde antes havia o neutro, agora há arte que provoca, acolhe, tensiona e reencanta. Essa intervenção devolve aquilo que a região não tinha há muito tempo: pertencimento.
A Poesia que Gruda na Parede e na Memória
Nas imediações, outro fenômeno se espalha pelas paredes como fogo lento: lambe-lambes tipográficos que sembram poesia, política e afeto nas fachadas. Uma parede inteira tomada por frases —
“Seu afeto é via única ou mão dupla?”
“A cidade engole. Será que ela mastiga?”
“Eixo pra lá, Exu pra cá.”
Essas palavras funcionam como uma espécie de paisagismo poético: onde o olhar pousa, cresce uma provocação. As pessoas param. Leem. Fotografam. Respondem. Reagem. Viram parte da obra — e a obra vira parte delas.

Meu gesto ergue as mãos em direção aos cartazes, quase como quem ativa uma máquina de pensamento. E é exatamente isso que o SCS se tornou: um grande ativador urbano.
A Massa Silenciosa que Deu Liga
Nada disso está acontecendo por acidente. O renascimento do SCS é fruto de uma teia crescente de ações:
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Coletivos de grafite e muralismo ocupando fachadas históricas e esquecidas;
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Ateliês abertos e oficinas oferecendo experiências artísticas onde antes não havia nada além de corredores vazios;
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Excursões urbanas que recontam histórias invisíveis do centro e devolvem memória ao espaço;
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Intervenções efêmeras, lambe-lambes, performances e artes de rua que reinventam as passagens;
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Ocupações culturais no térreo de edifícios abandonados, trazendo vida para dentro da cidade.
O SCS, outrora apenas um lugar de passagem, se torna um laboratório urbano, um cruzamento de artistas, estudantes, moradores, trabalhadores e curiosos. A região começa a lembrar grandes cidades do mundo que, em algum momento, compreenderam que a arte não é enfeite: é instrumento de reocupação e dignidade urbana.
Renascimento, Não Chegada
No Edifício Márcia e no entorno, a arte não está apenas chegando —
ela está renascendo.
E Brasília, essa cidade tão silenciosa, geométrica, racional e às vezes distante, finalmente parece permitir — quase com alívio — que novas vozes pintem nela com cor, crítica, poesia e muito afeto.
É como se o centro, finalmente, respirasse de novo.
Respinga, espalha, contagia.
E muda tudo.
Crônica — “Outro Lear no Batidão do SCS”
15 de novembro de 2025 — No texto anterior, você teve uma visão externa do grande palco cultural em que o SCS está se transformando. Agora, entro pela porta lateral dessa mesma cena — e vejo tudo por dentro.
O Setor Comercial Sul tem dessas artimanhas que só Brasília entende.
Enquanto estaciono diante do Teatro do Sesc, o concreto armado — esse velho titã silencioso — parece tremer sob o batidão das caixas de som que algum bar escuro da região resolveu transformar em trio elétrico improvisado. As luzes piscam e riscam a noite como lâminas coloridas, fatiando o silêncio que, por direito, deveria pertencer ao centro depois do expediente. Mas o SCS não dorme mais como antes; agora ele pulsa.
Cinco ou seis gatos pingados dançam fora da área do bar, fazendo uma coreografia meio torta, meio livre — e o cheiro de maconha flutua pelo ar, paradoxalmente revigorante, como se a cidade respirasse por eles.
Encosto numa pilastra para esperar o início de Outro Lear. O cheiro de comida de rua recusa-se a evaporar na linda noite tropical, e tudo se mistura naquele caldo urbano de atenção, tensão e humanidade. A poucos metros, pessoas do público atravessam a calçada às pressas — turistas de sua própria capital, atrasados porque ficaram fotografando os grafites das fachadas, como se quisessem provar que realmente estiveram ali.
Cada um alheio ao outro, mas todos parte da mesma coreografia involuntária.
O batidão reverbera no peito — tum-tum-tum — e penso que Shakespeare jamais previu isso.
Ou talvez tenha previsto, afinal sabia como ninguém que o mundo sempre foi barulhento, mesmo quando parecia mudo. Só muda a moldura. Aqui, a moldura é o SCS: luzes estroboscópicas no lugar dos vendedores de Gloucester, a pressa das motocicletas descendo a W3 Sul, e eu, parado, esperando um velho rei entrar em cena.
E é curioso lembrar que Rei Lear, apesar de mergulhado em uma atmosfera ancestral, não nasceu na Idade Média. Shakespeare o escreveu entre 1605 e 1606, pleno Renascimento inglês, para o teatro elisabetano-jacobino. Uma peça moderna para sua época — e que agora, nesta esquina do SCS, recebe mais uma camada de modernidade involuntária.
A campainha do teatro vai soar a qualquer instante.
Lá dentro, Humberto Pedrancini se prepara para ser o velho rei.
Aqui fora, o SCS continua seu espetáculo paralelo.
E, no fundo, tudo faz parte da mesma grande peça.
O ator Humberto Pedrancini pode carregar a fama de “monstro sagrado e temperamental”, como define o dicionário informal do teatro brasiliense — mas, por dentro, é um dos sujeitos mais humanos que já subiram a um palco por aqui. Ele sabe das encruzilhadas. Em 1982, aos 36 anos, era cedo demais para interpretar Rei Lear; havia muito a viver, muito a perder, muito a entender.
Hoje? Hoje é bola na marca do pênalti: ou é agora, ou não será nunca.
Para essa empreitada, ele se une à direção minuciosa e quase nanotecnológica de Roni Sousa — jovem, talentoso, preciso, capaz de guiar um veterano sem jamais atravessar seu gesto.
No texto de Yuri Fidelis, Pedrancini desfere golpes — cênicos, poéticos, dolorosos — contra o SUS, o Iges-DF, o Hospital de Base; contra o abandono dos idosos; contra o próprio Estado que deveria acolher, mas desampara. Tudo encaixa perfeitamente no flagelo vivido por esse Lear envelhecido, outrora déspota, agora reduzido à própria carne frágil. Um rei que descobre, tarde demais, que o poder escorre pelos dedos; que a velhice é uma travessia árida; que a fragilidade humana não negocia.
A plateia inteira parece, de alguma forma, também esperar algo — cura, arte, silêncio, barulho, consolo — algo que a humanize diante dos dramas tão contemporâneos que irrompem do palco.
Pedrancini inicia o monólogo já em estado de prontidão total. Costuma brincar com o público dizendo: “uma vez que vocês não conhecem o texto…” — e nós realmente não sabemos onde ele salta, condensa, mastiga, reinventa. É sua artimanha mais preciosa: o improviso absoluto. Sabemos que nada ali se repete, exceto nas cenas de um filme — e Outro Lear não é cinema, é risco, carne viva.
Em certo momento, reclama da conversa paralela de um espectador atrasado — um gesto que, longe de quebrar a cena, expõe ainda mais a falta de respeito cotidiana dirigida à velhice. E, ironicamente, essa interrupção acidental funciona como um prólogo perfeito para Outro Lear:
um rei à beira da ruína, uma cidade à beira do renascimento, e eu, espectador comum, tentando não desmoronar junto.
Enquanto o batidão lá fora insiste — tum-tum-tum — aqui dentro, lá dentro dos nossos próprios corações, algo formiga, algo ecoa. Afinal, envelhecer, para quem tem esse privilégio, é sempre o último grande desafio.
E o velho rei, naquela noite, joga sua cartada final.

A Introspecção na Ruína
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Ação: O ator está sentado, curvado e com as mãos no peito, em um gesto de aflição ou conforto pessoal. Ele ainda veste o figurino régio, mas parece diminuído pelo ambiente.
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Cenografia: A luz é mais sóbria ou centralizada no ator. O cenário é dominado pelas longas cortinas brancas penduradas verticalmente, que criam uma sensação de isolamento e vazio. Uma mesa ou bloco coberto de tecido branco está à sua frente, funcionando como um ponto de apoio ou um trono humilde.

A Realeza e a Memória
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Ação: O ator, com barba e cabelos brancos volumosos, veste um figurino que remete à realeza (uma túnica clara, coberta por um manto em tons de vinho/vermelho, aberto na frente, e calças claras). Ele está em pé, em uma pose frontal e imponente, embora com uma expressão de melancolia ou ponderação.
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Cenografia: O fundo é composto por cortinas ou longos pedaços de tecido branco que se estendem pelo palco. O chão está coberto por mais tecido branco, amassado e acumulado, sugerindo ruína ou caos.
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Projeção (Multimídia): Uma grande imagem projetada, em preto e branco ou tons de sépia, domina o fundo, sobreposta às cortinas brancas. A projeção é o rosto em close-up de uma mulher jovem, com flores nos cabelos, que representa claramente Cordelia (a filha de Lear) ou a memória idealizada dela. A projeção é um elemento ativo que dialoga com o ator, estabelecendo o tema da perda e da relação familiar.

O Despojamento e o Diálogo Interior
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Ação: O ator assume uma posição mais vulnerável, sentado ou encolhido sobre um elemento cenográfico simples, com as vestes parcialmente trocadas ou enroladas. A postura indica introspecção ou fragilidade emocional.
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Iluminação e Cor: Este quadro é marcado por uma mudança dramática na iluminação, que passa a ter um forte tom magenta ou rosa/púrpura.
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Projeção (Alter Ego): O fundo é dominado por uma projeção gigante do próprio ator, mas em uma versão que sorri levemente e veste um figurino mais elaborado ou colorido. Essa projeção serve como um "alter ego" ou a imagem do Lear em um estado mental diferente (talvez a sanidade ou a loucura), dialogando diretamente com o Lear físico, que está encolhido no chão. A projeção interage com o tecido de fundo, criando um efeito de transparência e fantasmas.
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A Loucura e o Desnudamento
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Ação: O clímax do despojamento. O ator aparece parcialmente despido (sem camisa, vestindo apenas roupas íntimas ou um tecido branco que cobre a parte inferior). Ele segura um grande pedaço de tecido branco em frente ao corpo, como uma mortalha ou a última vestimenta. A postura é de um homem que perdeu tudo, confrontando a realidade em sua forma mais crua.
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Cenografia: O fundo ainda mantém as longas tiras de tecido branco verticalizadas. O contrastante é o trono, a cadeira branca de madeira, que é um objeto comum e simples, em contraste com a pompa régia inicial, simbolizando a perda de status. O público aparece parcialmente na parte inferior da foto, evidenciando a natureza da performance ao vivo.
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Humberto Pedrancini, esse monstro sagrado do teatro brasiliense, após interpretar o velho Lear — um rei que descobre, tarde demais, que o poder escorre pelos dedos, que a velhice é uma travessia árida e que a fragilidade humana não negocia.
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SERVIÇO:
Outro Lear
Única apresentação: 16 de novembro de 2025
Horário: domingo, às 19h
Local: Teatro Sesc Silvio Barbato (SCS Quadra 2 Bloco C, lote 227, Edifício Presidente Dutra, Asa Sul - DF)


