Stephen Daldry: Veja o filme e se pergunte mais

Stephen Daldry: Veja o filme e se pergunte mais

Você já se perguntou o que vale mais: uma latinha de chá ou 7 mil marcos? Nosso repertório de perguntas é muito limitado, já reparou? Algumas perguntas, simplesmente, não fazemos. Outras são bem raras: “O que você aprendeu?”, por exemplo, é uma pergunta que raramente aparece, mesmo nos repertórios de perguntas de professores. Não bastaria essa única pergunta numa prova para avaliar o aprendizado dos estudantes? Não seria esta uma pergunta fundamental para ser feita depois de toda e qualquer experiência dos nossos filhos e das nossas filhas no mundo?

No entanto, essa não é uma pergunta fácil de ser respondida, até porque aprendemos muitas coisas ao mesmo tempo, e nem temos consciência de tudo. A dificuldade de formulação de uma resposta objetiva enfraquece a pergunta, talvez seja este o motivo que nos faz suprimi-la de nosso repertório cotidiano, quem sabe?

Rara, a pergunta aparece no filme “O Leitor”, em cartaz nos cinemas. Ela é formulada a uma judia, que escapou do horror nazista e posteriormente relatou sua história num livro. Mas, ao ser questionada sobre o que aprendeu no campo de concentração, ela responde que “Não se vai ao campo de concentração para aprender alguma coisa.”  Óbvio. Tampouco vamos ao cinema para aprender alguma coisa, embora estejamos o tempo todo aprendendo algo. Em geral, se estudantes, aguardamos que os professores mostrem na sala de aula o que o filme tem para ser ensinado...

Alguns filmes, no entanto, nos fazem mais efeito do que mero entretenimento para passar o tempo ocioso. “O Leitor”, na minha opinião, é um desses filmes que nos fazem refletir um pouco. Eu, pelo menos fiquei um tempo sob efeito de reflexões e algumas questões. Imagino que poucos saiam da sala de projeção sem ficar pensando.

Meu olhar leigo não captou nenhuma grande novidade de técnica ou tecnologia, nem falhas de montagem. O filme, a meu ver, tem tudo para as premiações e a consagração do público seleto que tem recebido. Atuação primorosa (pela sua, Kate Winslet acaba de levar um Globo de Ouro), produção e direção esmeradas, emoção e suspense bem dosados, roteiro e tudo o mais bem feitinho, sem muitas novidades, em termos de cinema. Porém, percebi que o filme traz um novo detalhe novo. E é a sutileza com que esse detalhe é tratado que me encantou, creio. Por esse detalhe é que recomendo o filme, prato cheio para educadores e pessoas interessadas em pensar sobre as coisas da vida humana e, quem sabe, entender um pouco mais.

Os professores, quando descobrirem esse filme como recurso “didático”, certamente irão repetir algumas velhas questões nas aulas de ética, direito, história: existem mesmo fronteiras entre “bem” e “mal”?; podemos mesmo fazer justiça?; quem, afinal, era superior no trágico episódio da segunda guerra?; etc. Nos cursos de pedagogia, imagino, os professores podem aproveitar para suscitar questões sobre leitura, tema enfatizado no título. Acreditamos que o fato de saber ler pode ser decisivo para salvar a vida de uma pessoa, é por isso que dedicamos tantos esforços nessa atividade? Lembro, ademais, duas perguntas fundamentais para os pedagogos: O que significa e que sentido tem a leitura na vida de alguém?

A história do advogado que teve um caso de verão que ecoou por toda sua vida, na minha modesta opinião, é bem contada e filmada. Todavia, esperei por uma pergunta que não foi feita no filme: como a judia e sua mãe escaparam do incêndio que matou 300 pessoas mantidas trancadas na igreja onde se encontravam?  Assista o filme de Stephen Daldry e me ajude a responder: foi o fato delas serem leitoras que as salvou?

                                                                      

                                                                       Valéria Barros Nunes

 

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