OS CRUZAMENTOS EM LYGIA CLARK (2014)

REVISTADACULTURA

OS CRUZAMENTOS EM LYGIA CLARK

Grande retrospectiva no MoMA, em Nova York, refaz trajetória da artista plástica brasileira, que, na corda bamba da psique humana, transpôs conscientemente as perturbações e alegrias da mente para suas criações

POR: ANA LUIZA RODRIGUES E GUILHERME BRYAN  /  05/05/2014
 
FOTOS: CORTESIA DE ASSOCIAÇÃO CULTURAL “O MUNDO DE LYGIA CLARK,” RIO DE JANEIRO

Lygia Clark usando Máscara abismo com tapa-olhos (1968)

No dia 10 deste mês, o salão principal do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), um dos mais importantes do mundo, abrirá pela primeira vez suas portas para outra referência global: a artista plástica brasileira Lygia Clark (1920-1988). Em cartaz até 24 de agosto e intitulada Lygia Clark: The Abandonment of Art, 1948-1988, será a mais completa retrospectiva sobre a obra da artista que ajudou a mudar o panorama da arte brasileira e rompeu as fronteiras entre arte e psicanálise. “A vivência para ela era a forma de sentir a arte. Ela se satisfazia ao conseguir que os outros ingressassem no seu interior e curtissem sem as invasões do mundo exterior”, afirma Álvaro Clark, filho da artista carioca e presidente da associação cultural O Mundo de Lygia Clark, que há 13 anos divulga e preserva o acervo de sua mãe.

A mostra nova-iorquina reunirá cerca de 300 trabalhos organizados em três partes: abstração, neoconcretismo e abandono. Entre eles estão as séries Superfície modulada, Obra mole e Abrigo poético.

Trata-se de um momento único, na opinião de Eduardo Clark, também filho da artista plástica, e a “sacralização de Lygia Clark no templo da arte”, nas palavras de Álvaro.

Lygia Clark estabeleceu novos rumos para sua arte quando, no início da década de 1970, entrou em contato com o estudo da psique humana, ao ser convidada a ministrar o curso de comunicação gestual na Faculté d’Arts Plastiques et Sciences de l’Art
, na Sorbonne, em Paris. Transformou sua casa em uma sala de aula ampliada, na qual promovia exercícios que envolviam a memória coletiva. Os alunos vivenciavam memórias sobre a infância e a relação com os pais, por exemplo. Lygia se inspirava no método de relaxamento indutivo desenvolvido pelo psiquiatra russo Michel Sapir (1915-2002). “Quem comandava o tratamento dizia: ‘Vai chover hoje’. E a pessoa deitada imaginava que estava andando sobre a grama e ia relaxando”, explica a psicóloga Gina Ferreira, que conheceu a artista por meio da cabeleireira do salão do hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, e acabou se tornando sua pupila e amiga.
A partir dessas experiências psicanalíticas e de novos estudos, Lygia Clark desenvolveu a técnica de “Estruturação do Self”, que consiste no trabalho com o “arquivo de memórias” dos pacientes, por meio do estímulo das sensações. “O paciente deita em uma superfície que ofereça o mínimo de resistência ao corpo, na qual objetos contendo elementos de naturezas opostas são posicionados no corpo dos pacientes. Ao término da sessão, a pessoa entra em um profundo processo de interiorização, absorvendo no corpo as sensações trazidas pela experiência sensorial, e perdendo a noção de tempo e espaço”, explica o psicanalista e artista plástico Lula Wanderley, que colaborou com a artista.

 
 

 

 

Terra, água, fogo e ar

 

O ator, cantor e compositor Jards Macalé foi “salvo” por Lygia quando a artista retornou ao Rio de Janeiro, em 1976, depois de cinco anos lecionando em Paris, e transformou seu apartamento, em Copacabana, em uma espécie de ateliê-consultório, onde recebia de prostitutas a celebridades. “Quando soube do trabalho terapêutico de Lygia, aderi à experiência. Devo a ela minha salvação psíquica”, enfatiza Macalé, que teve consultas durante dois anos.

“Ao entrar em contato com Lygia, ouvi que só aprenderia a Estruturação do Self quem vivenciasse a experiência. Foi maravilhoso. Foram oito meses em que realmente conheci um corpo que não conhecia. O método te leva a uma interiorização surpreendente, porque você não está dormindo. Está acordado, mas não tem noção de tempo e nem de espaço. O dentro e o fora se juntam e você não sente mais o objeto”, conta, emocionada, Gina Ferreira, que herdou os pacientes e objetos que a artista usava em suas consultas. O marido desta, o psicanalista e artista plástico Lula Wanderley, foi outro que se encantou com o método da artista e foi convidado por ela para ajudá-la nas pesquisas. “Em princípio, eu fazia as coisas exatamente como ela; depois, achei que deveria seguir um caminho próprio e trabalhar o método com pessoas portadoras de distúrbios psiquiátricos, carentes”, comenta.

Construção do ser e da arte

A relação de Lygia Clark com o estudo da psique humana tornou-se um dos pilares de sua obra. “Lygia Clark utilizava o corpo como suporte para os seus trabalhos, seja de maneira metafórica seja real”, explica Felipe Scovino, um dos curadores da exposição Lygia Clark: Uma retrospectiva, realizada no Itaú Cultural, no Rio de Janeiro, em 2012.

 

Para a psicanalista Cibele Prado Barbieri, autora da tese Da vida à arte e de volta à vida: O sujeito em Lygia Clark
– defendida no Círculo Psicanalítico da Bahia, em 2008 –, a manifestação artística era uma forma de extravasar suas angústias existenciais, pois a extensão de seus conflitos internos era grave, profundamente dolorosa e difícil de suportar, impedindo que fosse dona de si mesma. “Podemos encontrar em seus diários relatos precisos de como os seus processos associativos, de descoberta das fantasias, sentimentos, conflitos inconscientes, encontravam no registro da criação artística uma transcrição satisfatória, apaziguadora, eficaz para gerar um novo modo de ser, uma identidade própria. Dessa imersão, ela pôde, então, ressurgir, emergir de volta à vida, estabelecer novas formas de laço afetivo e social”, descreve.

 

 

 


Em um trecho do diário, escrito em 25 de dezembro de 1968, Lygia Clark refletia justamente sobre os limites de vida e arte: “Gostaria de pegar todos os meus cadernos de apontamentos e fazer uma ligação com a obra que fazia no momento de cada sonho ligando a obra, a realidade e os sonhos como processo de toda essa minha luta de integração de tudo”. Em outro trecho, sem data precisa, ela parecia completar: “Como poderia escrever meu livro? Me pergunto todos os dias e vejo a dificuldade. Seria de como saí da loucura para a vida através da arte e depois como saí para a vida através da arte, deixando de fazê-la. Esse é o esquema, mas entram todas as vivências na arte, a percepção das mesmas na vida, os sonhos que formularam muitas vezes o processo da conscientização. Sem ilustrar o processo, sem tempo linear”.

Eduardo Clark conta que a mãe ia todos os dias ao psiquiatra. Era a forma de tentar manter certo equilíbrio no mundo conturbado que vivia. “Ela acordava, sentava à mesa do café da manhã e não conversávamos. Eu notava seu olhar perdido nas abstrações da sua grande paixão que foi a arte. Lembro um dia em que entrei em seu quarto e ela estava chorando, quase uivando. Me assustei, achando que era algo seríssimo. Para ela, era. Ela apontava as revistas de arte e dizia, aos berros: ‘Já fizeram tudo! Não há nada que eu possa fazer de novo!’”, lembra.

Lygia Clark foi uma mulher à frente de seu tempo. Estudou arte, no Rio de Janeiro, com mestres como Roberto Burle Marx (1909-1994) e Zélia Salgado (1904-2009). Começou como pintora, passando à escultura. Depois, se tornou uma das propulsoras da Body Art. A artista já contestava oficialmente as plataformas tradicionais de exposição da pintura desde 1954, quando ajudou a fundar o grupo Frente. Em 1959, ao participar da I Exposição da Arte Neoconcreta, defendeu que a pintura não se sustentava mais em seu suporte tradicional, abrindo assim uma discussão acerca dos limites espaciais da arte. Com a série Bichos, esculturas feitas em alumínio, com dobradiças simulando as articulações das diferentes partes que compõem seu “corpo”, Lygia Clark tornou-se uma das pioneiras na arte participativa mundial.

“Uma pessoa extremamente diferente das pessoas, com aspecto muito frágil, mas, ao mesmo tempo, extremamente forte; um aspecto de burguesa, porque ela se vestia muito bem, e, ao mesmo tempo, extremamente revolucionária. Ela tinha essas dualidades muito interessantes. Era uma mulher extraordinariamente inteligente. Uma das grandes brasileiras do século passado”, afirma Lula Wanderley, responsável pelo projeto Lygia Clark, realizado pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, com o objetivo de catalogar e preservar os registros das propostas sensoriais da criadora.

Para Álvaro Clark, era indivisível a relação vida-arte-vida de Lygia Clark: “Os filhos não tiveram escolha. Tiveram que abdicar da mãe para que ela tivesse, como foi sua vontade, total liberdade de criação. No fim, teve que pagar o preço”.

O irmão, Eduardo Clark, conclui: “Costumo dizer que nós todos vivemos em um grande palco e interpretamos os mais diversos papéis na vida. Somos filhos, empregados, pais, netos, trabalhadores, maridos, esposas. Para mim, agora, com esse grande distanciamento dela, por sua morte em 1988, pude perceber que ela tinha uma missão: ser uma grande artista”.

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