REVISTA DA CULTURA: O INQUIETO UNIVERSO DE DALÍ (2014)

O INQUIETO UNIVERSO DE DALÍ 

O INQUIETO UNIVERSO DE DALÍ

Exposição traz ao Brasil 150 trabalhos do artista a partir deste mês. Ícone do surrealismo, o catalão se tornou conhecido tanto pela obra vasta quanto pela habilidade de se autopromover. Especialista no legado do espanhol, a curadora Montse Aguer aponta um “grande tímido” além do extravagante: “Dalí se escondia atrás da teatralidade, do exagero”

POR: ADRIANA TERRA  /  05/05/2014
 
FOTO PHILIPPE HALSMAN / CORBIS

 

Diariamente, o imenso Teatro-Museu construído por Salvador Dalí (1904-1989) em sua cidade natal, a pequena Figueras, na Catalunha, recebe uma multidão ansiosa para ter contato com o trabalho do artista. Intercalados por estatuetas douradas, os ovos gigantes alinhados no telhado do edifício já dão uma pista do que encontrar em seu interior. É proveniente deste complexo, criado para ser o maior objeto surrealista do mundo, boa parte da exposição que chega ao Rio de Janeiro dia 29 deste mês e a São Paulo em outubro, 25 anos após a morte do criador.

A ideia é mostrar a trajetória de Dalí em sua obra e vida, duas coisas dissociáveis. De adolescente com talento para a pintura a um jovem provocador, expulso da Academia de Artes, Dalí casou-se cedo com Gala (Éluard, 1894-1982), sua musa e empresária ao longo da vida. Teve experiências no impressionismo, no dadaísmo e no cubismo, até se situar no movimento surrealista, em Paris, da década de 1920. Foi para os EUA, onde conheceu Andy Warhol e colaborou com Alfred Hitchcock. Desenhou joias, roupas, objetos de decoração. Atraiu a atenção para si em diversos momentos, seja ao dar uma festa na qual o jantar era servido em sapatos, seja ao participar de um popular programa de TV. Atraiu também fúria e ironia de André Breton ao se declarar simpatizante do ditador espanhol Francisco Franco, o que causou sua expulsão do movimento surrealista – fato que ele ignorou, afirmando ser o próprio surrealismo. Em sua controversa postura política, dizia-se anarquista e monarquista.

“A mostra é uma viagem pela trajetória artística e de vida de Salvador Dalí”, diz Montse Aguer, curadora da exposição e especialista na obra do catalão, com quem trabalhou no fim da vida. “Queríamos mostrar o Dalí surrealista, mas também o que se antecipa a seu tempo e o provocador, que defende a liberdade de imaginação e de criação do artista”, explica.

UM GRANDE TÍMIDO
A despeito da sagacidade midiática que tornou Dalí famoso, a curadora enxerga no artista um pouco conhecido homem tímido. “Dalí se escondia atrás da teatralidade, do exagero, que eram a sua carta de apresentação e proteção para a intimidade que ele queria preservar”, diz ela. “Sua aparição constante e programada na mídia lhe permitia continuar com sua total dedicação à arte – esta silenciosa, sagrada –, às horas de criação em seu ateliê, fosse o de sua casa em Port Lligat, fosse nas diferentes suítes de hotéis, em Paris ou Nova York, para citar duas cidades-chave em sua trajetória”, defende.

Autor de obras em diversos suportes, frutos de parcerias artísticas variadas, Dalí era fascinado pelo novo. Empolgou-se com a oportunidade de levar seu trabalho para a animação, no fim da década de 1940, a convite de Walt Disney – o resultado pôde ser visto finalizado apenas em 2003, no curta Destino. Desenvolveu interesse por temas tecnológicos e científicos, que estão em boa parte de sua obra.

Além disso, nos anos 1980, o seu Teatro-Museu de Figueras foi sede de um congresso com estudiosos que debateram cosmologia, inteligência artificial e teoria das catástrofes. Soa familiar ao universo do artista.

TEATRO DA MEMÓRIA
Com orçamento de R$ 9 milhões, a exposição que chega ao Brasil tem jeito de retrospectiva, mas é diferente das mostras que atraíram grandes públicos em Paris (800 mil pessoas) e Madri (730 mil) nos últimos dois anos. Conta com obras vindas das mesmas coleções, principais detentoras do trabalho de Dalí – a espanhola Fundação Gala-Salvador Dalí, que coordena o museu em Figueras; o norte-americano Museu Salvador Dalí, da Flórida; e o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, de Madri –, porém é mais focada na fase surrealista e tem um número menor de trabalhos. Nas retrospectivas europeias, à seleção se somavam obras de outros museus, como a famosa A persistência da memória, que é parte do acervo do MoMA em Nova York.

No Brasil, Salvador Dalí terá 150 trabalhos, entre pinturas (como Figuras tumbadas en la arena, tela de 1926 de influência cubista), gravuras (incluindo desenhos feitos para uma edição de Alice no País das Maravilhas, em 1969), fotografias, vídeos (Um cão andaluz e Spellbound estão na seleção) e objetos (uma reprodução da notória instalação Mae West Room). A maior parte da seleção é composta por gravuras e desenhos, somando 80 obras. Já as pinturas são 30, e incluem telas que datam desde a década de 1920, influenciadas pelo impressionismo e pela luz de Port Lligat, o vilarejo na costa catalã em que Dalí passava as férias na infância e onde construiu a casa na qual viveu com Gala, atual Casa-Museu.

O CCBB, que sedia a exposição na capital fluminense, estima meio milhão de visitantes no período de mostra, entre 29 de maio e 22 de setembro, época de Copa do Mundo. De outubro a dezembro, a exposição fica em São Paulo no Instituto Tomie Ohtake, idealizador do projeto, que levou cinco anos de negociações para ser fechado, como conta Ricardo Ohtake.

Se, por um lado, a apreciação por milhares parece ser exatamente o que um vaidoso Dalí queria, o lado mais recluso citado pela curadora Montse Aguer fica evidente no fim da vida do espanhol. Após a morte de Gala, deprimido, Dalí mudou-se para o Castelo de Púbol, comprado para sua musa, mas não viveu ali por muito tempo. Seu quarto pegou fogo, em evento cuja causa nunca foi esclarecida. Já debilitado pelo Mal de Parkinson, passou a habitar o interior de sua última grande obra, onde seu corpo foi sepultado: o Teatro-Museu de Figueras. “É um teatro da memória, de visita imprescindível para entender toda a cosmogonia daliniana. Foi também sua última grande ilusão, na qual projetou seus sonhos e pensamentos”, diz Montse.

Construído entre as décadas de 1960 e 1970, o edifício foi erguido sobre as ruínas de um teatro do século 19 e tem público diário de 6 mil pessoas, sendo hoje um dos museus privados mais visitados (e rentáveis) do globo. Na saída do complexo, não há sinal das chateações do fim da vida do artista: um retrato mostra um Dalí contemplativo, com uma taça de vinho na mão. E a curadora resume: “Ele sabia que tinha conseguido êxito e fama. Havia lutado arduamente para isto: queria ser imortal”.





 

ESCULTURAS EXPOSTAS EM BRASÍLIA

Desde o dia 16 de abril, está em cartaz em Brasília outra mostra, menor, dedicada ao surrealista. São 26 esculturas de tamanhos variados – três delas com mais de 3 metros de altura – feitas por Dalí entre 1970 e 1981, vindas da Coleção Clot, de Madri. As obras podem ser vistas até 15 de junho na Caixa Cultural. Depois, seguem para Fortaleza e Recife. 
 
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