Rogério Duarte: — Qual a tiragem do jornal?

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“Pensei em uma linguagem tropicalista, contra aquela coisa suave, considerada de bom gosto. E que carregasse essas referências ao governo atual, ao socialismo, ao MST. O vermelho serve até mesmo de crítica ao verde e ao amarelo”. Rogério Duarte sobre a capa do novo álbum dos Titãs, “Como estão vocês*”;


Rogério Duarte por Mário Pacheco

Meu dia começou matinalmente na cadeira do dentista, antes no “Correio Braziliense” li: “A volta do tropicalista”. Depois do expediente, nesta mesma sexta-feira, passei na sua casa e gritei: — Rogério! Ele pôs a cara na janela e abriu a porta.

— Como você me encontrou? Ah! Já sei leu o “Correio”.
— Qual a tiragem deste jornal?

Faziam três anos que eu não me encontrava com Rogério Duarte e ele não perdeu a mania de perguntar e responder às próprias indagações.

Rogério Duarte encarava o tabuleiro de xadrez e desenha croquis como quem traça uma carta de navegação.

Nosso papo foi de 30 minutos com a chuva caindo. Me autorizou a tirar a camisa molhada, o que eu não fiz. Tirei do envelope o CD com a sua trilha acústica ao violão para o meu documentário “TROPICAOS” e entreguei-lhe...

O papo começou com ele me explicando a sua estratégia para figurar na capa do Caderno “C”.

“TROPICAOS” também é o nome do seu mais recente livro com um apanhado de sua produção pós-tropicalista. Antes de folhear este livro, anteriormente eu havia publicado no poraoweb, esta compilação que boa parte aparece no livro. Resolvi inverter a cronologia e acrescentar atualidade ao pensamento caótico de Rogério Duarte.

O ponto emocional da conversa aconteceu quando falamos da falta que estávamos sentindo de Wally Salomão, de sua pujança e generosidade atávicas e sua capacidade de dar força aos amigos nas horas mais negras “tanto que ficou sem energia” finalizou Rogério.

Ao final da conversa, Rogério pegou a sua agenda e me mostrou o meu número de telefone. Sexta-feira, 14 nov. / 2003.

Isto é Rogério Duarte
“Não digo que o vermelho seja diretamente o PT, embora ache que o Brasil vive um momento que merecia essa citação. Representando o sangue e a carne, o vermelho também crítica o verde-amarelo”. Desvenda o artista (...)

“Houve resistência de alguns deles em relação à coisa chapada, brutal, quanto ao verde-amarelo mesmo”. Contou Duarte (...)

“Tive que dar uma de estrela, quase de buraco negro com alguns lampejos de ego. Disse que se me chamaram iam ter que me engolir”. Não estava ali para escolher qual titã está mais bonitinho na foto”. Finalizou**”;

“Gil e Caetano são grandes artistas, que já se consagraram e que realizaram um dos aspectos importantes da revolução tropicalista, mas que não é o único. Eles estão continuando o trabalho que começaram. Porém não podemos cruzar os braços achando que a revolução está complementada apenas como parte de um trabalho. Ela foi um movimento coletivo. Só agora determinados aspectos da obra de Tom Zé estão aparecendo e do próprio Gereba, que também participou da Tropicália. Tentamos revelar coisas que estavam ocultas, sem negar a obra de Caetano e Gil, que também é fundamental. O Gil participou do nosso disco. Queremos, inclusive, a colaboração deles. O sucesso tem esse poder, como aconteceu com o Roberto Carlos, de ser conformizante. Você cria fama e deita na cama. Parece que venho dando declarações que são contra o Caetano mas só têm o objetivo de provocar e mostrar que a revolução não terminou. Não bastou o sucesso comercial para consolidar os ideais do movimento tropicalista***”;

"Tom Jobim era grande músico, mas também grande plagiador****";

"Nunca postulei grandes espaços na mídia, por que o que faço não é muito conhecível ou digerível****";

"Paulo Coelho é apenas um comunicador de textos que leu de outras pessoas****";

"Na área de programação visual não vejo ninguém mais importante que eu no Brasil****";

"Andy Warhol não fez nada além do que fiz no Brasil. A diferença é que ele circulou no 'jet-set' internacional e isto ajudou na difusão do trabalho dele****";

"Sou um homem razoavelmente perseguido, fiz concurso na UnB e só consegui ensinar depois de impetrar mandado de segurança****";

"A academia não consegue me engolir, vive me chamando de charlatão. Mas desafio qualquer acadêmico que me desacate para debate público sobre qualquer área do conhecimento. Sou mais eu****";

"É melhor um inimigo revelado do que um falso amigo****";

"O cineasta Ivan Cardoso se exime de qualquer responsabilidade, mas não tenho dúvida de que foi um dos principais fomentadores do suicídio do poeta Torquato Neto****";

"Vivo em angústia permanente. Nunca se chega a lugar nenhum. Não estou mais maduro hoje porque cheguei aos 60 anos****";

"Jorge Mautner fracassou ao tentar fundir o popular com o erudito****";

"Já fui convidado até para ser ator de novela, mas preferi manter compromisso com a liberdade e a privacidade****";

"O que morreu foi o falso comunismo, o comunismo real não. O ideal de igualdade entre os homens não. O ideal de igualdade entre os homens não vai morrer nunca****".

Soneto (Rogério Duarte)
Perdi teu vulto
Ganhei teu nome
Onde te busco
Vizinha e longe
Perdi teu fruto
Ganhei a fome
Assim me nutro
Do que me come
Quanto mais perco
O teu incerto
Gesto indistinto
Sinto que cresce
O meu deserto
Teu labirinto

(Poema, ditado ao repórter Rogério Menezes, 'Correio Braziliense', está entre os muitos textos inéditos de Rogério Duarte****)


"Colagem tem os mesmos critérios de montagem. Colagem e montagem são sinônimos. E o prêmio foi uma homenagem a Oswald de Andrade e também ao trabalho de Rogério Sganzerla, como antropófago. Não interessa ficar premiando categoriazinhas sem expressão*****";

"Eu, por exemplo, gostei muito mais do filme do Paulo César Saraceni ('O VIAJANTE'). Mais sério, mais profundo. E briguei pelo filme do Sganzerla porque sou intelectual e gosto de ver filmes que satisfazem a minha inteligência, e não apenas que estimulem minhas glândulas lacrimais*****";

"Cacá Diegues faz uns filminhos interessantes, mas conformistas. Falta a ele a grandeza de Glauber*******".

"Todos atuavam em todas as frentes, fazendo poesia, música, teatro, cinema, artes plásticas, artes gráficas. Fazíamos militância política e cultural******";

"Tinha a visão que minha participação no movimento seria muito mais em nível de atuação filosófica e teórica******";

"Quando conheci Caetano e Gil, em 1965, pressenti que o Tropicalismo estava sendo gestado. Não havia um plano pré-determinado, mas sim um desejo de fazer tudo novo******";

"Os genes, os espermatozóides, vieram da Bahia, certamente daqueles encontros no Colégio Estadual e na Escola de Teatro, se multiplicaram no Rio de Janeiro, no Centro Popular de Cultura da União Nacional de Estudantes. A reprodução foi em São Paulo, a matriz da cultura de massa******";

"O movimento está vivo até hoje. Seus participantes estão aí, atuando nas mais diversas áreas, até mais que naquela época. E estão surgindo muitas coisas que vão lançar mais luzes sobre o Tropicalismo******";

*Correio Braziliense, “A volta do tropicalista”, 14 nov. / 2003. Texto: Tiago Faria.

**Folha de S. Paulo, “Titãs reaparecem debatendo artes visuais, política, Tropicália, TV e o futuro da indústria fonográfica e dos CDs conceituais”, 5 nov. / 2003. Texto: Pedro Alexandre Sanches.

***Jornal de Brasília, Reconectando a Tropicália”, 19 out. / 2000. Texto: Marcelo Araújo.

****Correio Braziliense, 10 abri. / 1999. 'Memórias de um náufrago'. Texto de Rogério Menezes.

*****Correio Braziliense, ''Premiação antropofágica. '20 out. / 1998.

******Correio Braziliense, 'Gestação de idéias foi na Bahia', 26 out. / 1997. Texto Irlam Rocha Lima

*******Correio Braziliense, 'Tempo de Glauber, 4 ago. / 1996. Texto Newton Araújo Jr.


Texto de Rogério Duarte psicografado por Rogério Duarte
Depois que eu deixei crescer a barba as coisas continuaram igualmente confusas, exceto pelo acréscimo da barba que se associa ao antigo caos e o revela com aparente nova fúria.

Não sei mesmo porque me permiti tal embuste (sim, nada agora merece mais do que este qualificativo).

Foi depois da visita à fazenda natal e do retrato do bisavô peludo que acabou por me sugerir reencarná-lo. Caricatura do meu passado me tornei porque caricaturei a busca de mim mesmo indo atrás dos detritos que o meu caminho deixou à margem.

Estranho às vezes ao meu corpo assusto-me frente ao espelho na vã tentativa de captar-me outro e recebe-lo na minta ternura ou, menos ainda, procurando especular sobre a aparência nova e suas possibilidades de realizar o paradoxal embuste de parecer humana, coisa aliás que se não se realiza é apenas em função da minha recusa.

Terá que ser desta mesma guitarrística maneira o continuar no ato de fazer a ladainha dos pães de cada dia. Talvez tenha descoberto eu hoje uma maneira nova: não se trata de cometer o verbo mas sim de esgotar-se no só afã de comete-lo, ou de convencionar-se para si a fatalidade de cumpri-lo. Isto poderia se compreender imaginando-se a ação de modo a não diferencia-la da não-ação. E é tangível quando tragicamente se cai na penumbra da unidade; ou zona do fenômeno.

Talvez, se a fidelidade a cada dia me compra o direito da depuração contínua, eu chegue a escutar a viva voz que articula a vibração do manifesto.

Guitarristicamente tecendo em dedos e espera-deflagração.

Que chance? O meu destino desenvolveu-se enquanto eu mantinha os olhos tapados e já nem me reconheço nele.

Brutalmente a qualquer momento pode surgir a vida, eu sei que não estou preparado. O medo que é sombra da luxúria, aproveitou-se do meu corpo inteiro como morada do seu escuro.

Eu sinto, quando estou falando com alguém, nitidamente a sensação de não controlar a espontânea linguagem de loucura e sofrimento que torna como que desconcertantemente ridícula (já que a cobre e nega) a comunicação esboço-vomitada.

É absolutamente igual à fé na chegada do Messias o prognóstico sobre a passagem de um Cometa. Se nos voltamos para o grande corpo, sem um sequer leve cilício, tomamos o líquido aviso, confundimos a nossa alma com Ele.

Daqui a alguns anos a moral será uma ciência misteriosa ao alcance apenas de uns poucos iniciados que, de resto, ninguém viu. A Fé, as Leis, etc... serão no Futuro não muito distante de uns duzentos anos como hoje são a alquimia, astrologia e lá vai fumaça...

Eu sou amigo do Rei, eu me dou bem com o Rei. Eu sou o outro Rei.

Hereafter all will be different, you need to get a very human face…

O viúvo chora suas lágrimas são como grãos de mostarda que caem no solo seco dos ladrilhos enquanto isso vinte milhões de crianças desesperadas bolinam nas varandas.

Estabelecer conexões o mais imediatamente possível com o mais próximo ou bem você está ostentando sua careta usufruindo os privilégios da morte ou bem você está se esgueirando entre os mausoléus correndo sempre o risco de resvalar na trincheira das covas se eles constroem a parede sua missão é infiltrar-se pelas ranhuras com a instintiva
de um réptil que estivesse sempre novo.

como é que é meu caro ezra pound? vou acender um cigarro daqueles para ver se consigo lhe dizer isto. andei fazendo um pouco de tudo aquilo que você aconselhou para desenvolver a capacidade de bem escrever. estudei homero; li o livro de fenollosa sobre o ideograma chinês, tornei-me capas de dedilhar um alaúde; todos os meus amigos agora são pessoas que têm o hábito de fazer boa música; pratiquei diversos exercícios de melopéia, fanopéia e logopéia, analisei criações de vários dos integrantes do seu paideuma.
continuo, no entanto, a sentir a mesma dificuldade do início, uma grande confusão na cabeça tão infinitamente grande confusão um vasto emaranhado de pensamentos misturados com as possíveis variantes que se completam antiteticamente.

Começaste a enlouquecer de novo não é cobrinha multicor? Quando parares de te agitar tanto talvez eu permita que tu me dês uma mordidinha, tá? Daqui até à casa de Bernarda Alba ainda faltam muitos quarteirões.

Poderemos nos distrair pelo caminho a lamber os paralelepípedos orvalhados pois a manhã que está pintando começara a me incendiar de forma progressiva até o escândalo do meio-dia. Nem me fale dos olhos que crescerão nas órbitas até o horizonte das paisagens, nem da erva verde que acompanhará para sempre os nossos pés para os pecados deflagradores. Afogaste-me na piscina, no caldeirão das tintas e deixaste o mel da tua boca lasciva escorrendo pelos meus ouvidos atordoados. Deixe esta absurda Guanabara servir como pavilhão solene. Darei algumas voltas em torno dos teus cabelos que são a tua única possibilidade de se confundir com o vento. Crescerão feios sóis de gordura nas narinas do bicho papão. O força maior tem o dom de amarrar os membros e iniciar um diálogo verdadeiramente tropical e terapêutico.

Texto de Gilberto Gil psicografado por Rogério Duarte
Eu sempre estive nu. Na Academia de Acordeão Regina tocando La Cumparsita, eu estava nu. Eu só sabia que estava nu, e ao lado ficava o camarim cheio de roupas coloridas, roupas de astronauta, pirata, guerrilheiro. E eu, do mais pobre da minha nudez, queria vestir todas. Todas, para não trair minha nudez. Mas eles gostam de uniformes, admitiram até a minha nudez, contanto que depois pudessem me esfolar e estender a minha pele no meio da praça como se fosse uma bandeira, um guarda-chuva. Mas não há guarda-chuva contra o amor, contra os Beatles, contra os Mutantes. Não há guarda-chuva contra o Caetano Veloso, Guilherme Araújo, Rogério Duarte, Rogério Duprat, Dirceu, Torquato Neto, Gilberto Gil, contra o câncer, contra a nudez. Eu sempre estive nu. Com o fardão da Academia, eu estava nu. Minha nudez Raios X varava os zuartes, as camisas listradas. E esta vida não está sopa e eu pergunto: com que roupa eu vou pro samba que você me convidou? Qual a fantasia que eles vão me pedir que eu vista para tolerar meu corpo nu? Vou andar até explodir colorido. O negro é a soma de todas as cores. A nudez é a soma de todas as roupas.

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