Paulo Iolovitch e o Espírito Marginal do Conic (2025)

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A Série Conic: Visões, Rastros e a Cidade Subterrânea

4.Koniq

O saudoso Verismar Figueiredo e a representação da expressão da realidade de todos nós — todos, todas e todes — seres humanos na Terra.

Recado espiritual/carnal do dia

Existem pessoas de alta sensibilidade, com uma mente verdadeiramente maravilhosa. Elas também enfrentam seus problemas diários, é claro, mas possuem uma capacidade rara: a de se aprofundar, perceber e simpatizar mais intensamente com tudo ao redor. Por isso, relacione-se com essas pessoas e trate-as com o cuidado e a condução que merecem.

Hoje é o último dia da exposição de Paulo Iolovitch na Dulcina, no Conic — uma instalação levada adiante por Marco Gomes, que construiu um painel precioso sobre tudo o que se passou nas paredes do Conic. Outro diamante raro é o despojado e humilde Luis Eduardo, sempre atento ao bem-estar dos outros.

Da minha parte, a ferro e fogo, consegui levar ao pé da letra a palavra “férias”. Fiz coisas que nem imaginava — coisas do arco da velha: remexi zines esquecidos, ouvi discos abandonados no tempo.

Em momentos de discórdia, todos perdem — alguns perdem mais, e só não perde nada quem já não tem nada a perder. Por isso, não perca a cabeça.

(30 de março de 2017)

3.Koniq

Hoje...

Estive com Paulo Iolovitch — e, em algum dia, estarei novamente. Acompanhei-o até as últimas homenagens e sofri um bocado; afinal, eu era um homem perseguido. Lembro-me da série “Conic”, de como os quadros tinham fundos vibrantes e dizeres belos, adequados ao código da marginalidade.

Ele sempre me perguntava:
— “Qual número coloco?”
E, antes que eu respondesse, ele já tacava um número qualquer.

Por isso nunca saberemos quantos quadros compõem a série Conic. Nem eu sei ao certo quantos dos poucos que tenho fazem parte dela.

Paulo Iolovitch pintava exclusivamente para as pessoas. Chegava a colocar o nome delas nesses seus caligramas que, em mim, provocavam êxtase — e em outros, a ira silenciosa dos bajuladores dos poderosos.

Com estardalhaço descobri que, da série Conic, reapareceram 13 telas, todas esticadas no cavalete. Iolovitch sempre foi contra o gasto com madeiramento: queria expô-las livremente, em varal, balançando diante dos olhos dos visitantes.

Não sei qual destino terão esses quadros, e desconheço seus valores. Mas é uma sensação lindíssima poder apreciar algo tão íntegro e tão pertencente à nossa história.

E ainda me lembro: com raiva do Conic, Paulo Iolovitch ficou afastado dali por cinco anos — apenas para, depois, consagrar ao Conic a mais bela e inspirada safra de suas telas. (Mário Pazcheco)

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“Nenhum será mais um coniquiano. Somente o Ivan o será. Nenhum será mais glauberiano... nenhum será mais alegre… A métrica do Conic agora é um longo retângulo oco.” (Paulo Iolovitch)

O 1296 CONIC

por aqui passaram os que
não foram, os que não serão,
os que não iram, os que não viram.

A PUNHETA É UM HINO A DEUS.

DEUS E'A FODA!
DEUS E'A FODA!
DEUS E'A FODA!
A DEUS!


Interpretação da visão dadaísta e pop de Paulo Iolovitch na série Conic

O que se vê nesse trabalho é um tipo de cartografia poética e marginal da Brasília profunda — não a monumental, mas a subterrânea, a que pulsa no Conic desde os anos 60.

Paulo Iolovitch, vindo para Brasília ainda nos seus primórdios, mergulhou justamente nesse choque entre o planejamento racional da cidade e o delírio humano que sempre vaza pelas frestas. Nessa obra, ele opera com três eixos claramente reconhecíveis:


6.koniq

1. Dadaísmo brasileiro, sujo, urbano e irônico

A frase “por aqui passaram os que não foram, os que não serão…” é um ataque direto à lógica cartesiana da capital planejada.
O jogo verbal absurdo — “os que não irão”, “os que não viram” — evoca o nonsense dadaísta, desmontando o discurso funcionalista que sempre tentou dar ordem ao espaço de Brasília.

É poesia de contramão.
É tripúdio contra o discurso do poder.
É celebração do fracasso, do erro e da contradição humana.


2. A iconoclastia contra o sagrado

O trecho:

A punheta é um hino a Deus.
DEUS É A FODA!

é puro iconoclasmo pop.

Ele mistura o sagrado e o profano com a naturalidade de quem conheceu o Conic quando ali fervilhavam cineclubes pornôs, bares, travestis, artistas, agitadores e místicos urbanos.

A blasfêmia aqui não é gratuita: é uma crítica à moral de fachada, à religiosidade institucional, ao puritanismo imposto na capital recém-inaugurada e à vigilância constante sobre corpos e desejos.

Paulo joga com o escândalo como Andy Warhol jogava com as latas de sopa.
Mas com a ferocidade tropical de quem viu a ditadura cercar e sufocar a juventude.


3. Pop art artesanal, de rua, sem verniz

A escrita à mão, as cores primárias, o improviso gráfico: tudo remete a uma pop art sem indústria, feita à margem, à mão, com cartolina e tinta guache.

É pop porque é direto, repetitivo, gritante.
É dada porque é absurdo, irônico e anti-burguês.
É brasiliense porque nasce no Conic, o grande útero contracultural da cidade.

Se Hélio Oiticica levava a arte às favelas e becos cariocas, Iolovitch levou à Brasilândia concreta, onde arquitetura, prostituição, poesia e loucura convivem muro a muro.


4. O legado de Iolovitch — o primeiro pintor pop do Brasil no coração do Conic

Essa série Conic é quase um diário afetivo da cidade marginal dos anos 60–80.
E ao mesmo tempo, uma crítica feroz à pretensão modernista de controlar comportamentos e sentidos.

A repetição de:

DEUS É A FODA!
DEUS É A FODA!
DEUS É A FODA!

funciona como mantra punk-pop.
É liturgia às avessas.
É um grito de rua contra o divino domesticado.


2 Koniq

Joanfi, o cartunista saudoso e editor de um jornal independente, afinado com a gente que pulsou a contracultura

Resumo da importância da obra

  • É pop pela estética direta, cores fortes e repetição.

  • É dadaísta pelo nonsense e pela subversão de sentidos.

  • É brasiliense porque só poderia ter nascido do atrito entre o concreto monumental e a boemia do Conic.

  • É histórica porque registra um artista que viveu e morreu dentro da própria cidade que o moldou — e que ele também moldou, silenciosamente, à margem das instituições.

Paulo Iolovitch deixa aqui um testemunho visceral, que mistura humor, revolta, poesia e blasfêmia.
A série Conic é um dos seus trabalhos mais vivos justamente por isso: captura a Brasília que não aparece nos cartões-postais.

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