Julimar dos Santos: Nada é Definitivo: Um Mural em Construção (2025)

escadarias

Brasília-DF, 23 de Dezembro de 2025

O tempo desliza, sim — escorre pela parede enquanto o sol muda de posição e a escada range levemente sob o peso do corpo e da intenção. Na foto, Julimar dos Santos está suspenso entre o chão e o céu, trabalhando como quem sabe que o gesto é tão importante quanto o resultado. O mural não nasce pronto: ele acontece.

Você, leitor de biografias apressadas — ou convenientemente falsas — do senhor Pink Floyd, sabe que o ativismo artístico, político, social e humanitário acompanha Roger Waters desde sempre. Não é adereço tardio nem pose de maturidade. Em Animals, disco que muitos de nós demoramos anos para compreender por inteiro, o mapa já estava desenhado: uma sociedade dividida entre porcos (a elite), cães (os executores do sistema) e ovelhas (a massa conduzida). Aquele porco inflável sobrevoando Londres não era cenografia — era síntese. E ficou.

Nos anos 1980, Waters deixou de ser apenas o arquiteto da loucura conceitual e assumiu definitivamente o papel de porta-voz. Foi nesse ponto que parte do público se perdeu. Queriam trilha sonora, não confronto. Vieram os discos solo — The Pros and Cons of Hitch Hiking (1984), Radio K.A.O.S. (1987), Amused to Death (1992) — obras que não pediam aplauso imediato nem consenso confortável. Pediam atenção, escuta, incômodo.

Não foi um caso isolado. Por intuição — e não apenas por achismo —, outro nome essencial desse mesmo campo político foi Sinéad O’Connor. Ao redor, orbitavam Peter Gabriel, Bono Vox. A constatação é simples e inescapável: a música nunca esteve emancipada da política. Quem insiste nisso, escolhe não ouvir.

Neste mural, houve um tempo de lacuna. Um espaço em branco deixado por quem não quis ocupar o lugar — talvez por não desejar o peso do símbolo, talvez por recusar o papel de mártir. A parede aguardou. Até que ficou claro: aquele vazio também dizia algo. Precisava ser preenchido. Coube a Roger Waters, pelas mãos de Julimar.

A foto registra esse instante raro: o artista no alto da escada, o sol batendo forte, a imagem ainda em formação. Julimar é o craque do retrato. Ele trabalha como quem conversa com o tempo. Ao retomar essa parede, não reconstrói The Wall como espetáculo; oferece outra leitura. Aqui, ninguém foi metralhado — mas todos foram lembrados.

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   Nunca soube escolher amigos, mas os poucos que tenho me dão a maior satisfação de dividir o que estamos fazendo. O menino Pio, excelente fotógrafo in natura, apareceu para ver de perto o que estava em curso. Chegou no meio da obra, quando a arte ainda estava suspensa no ar, apoiada numa escada, na luz da tarde e na coragem de quem insiste.

   Não vou revelar a técnica sofisticada de retrato do Julimar. Há segredos que pertencem ao ofício e precisam permanecer ali, misturados ao pó da parede e ao silêncio concentrado do trabalho. O que dá para dizer é que a grande arte acontece a céu aberto: parede, sol, andaime, suor e olhar atento — um Montmartre improvisado, deslocado para onde a vida realmente passa.

   Para valorizar a arte — e também a fotografia —, às vezes é preciso destruir a pintura mítica. Abrir espaço. Raspar o que já foi sagrado para que o novo encontre lugar. Com uma janela de respiro, Julimar voltou e acrescentou mais uma estrela à constelação que cresce nessa parede.

   Nada aqui é definitivo. Tudo está em processo.
   E é exatamente isso que faz sentido.

mural

a parede, Maradona, Roger Waters e Eva Perón, retratados a carvão por Julimar dos Santos, o retratista.

O mural reúne três figuras que, à primeira vista, pertencem a universos distintos, mas que se encontram no mesmo campo simbólico: o do poder popular, do carisma extremo e do confronto permanente com a ordem estabelecida. A ligação entre Diego Maradona, Roger Waters e Eva Perón não é biográfica nem casual; ela é política, cultural e, sobretudo, emocional.

Eva Perón aparece como a matriz de tudo. Ela inaugura, na Argentina, a figura do mito popular moderno: alguém que fala diretamente às massas, constrói uma narrativa de justiça social e se converte em imagem — quase santa, quase espectro político. Evita é voz, corpo e símbolo ao mesmo tempo. Depois dela, nenhum ídolo argentino consegue ser apenas artista, atleta ou celebridade. Todos passam a carregar, inevitavelmente, um peso simbólico que transcende sua função original.

Maradona surge como a tradução desse mito no corpo do povo. Ele é Evita em versão futebolística e pós-moderna. Sua trajetória condensa a origem pobre, o talento extraordinário, a rebeldia contra as elites e a exposição sem pudor do erro humano. Como Evita, Maradona é amado apesar — ou justamente por causa — de suas contradições. Ele não representa disciplina nem controle; representa excesso, paixão e desobediência. O famoso gol com a “mão de Deus” ultrapassa o campo esportivo e se inscreve como mito político: um gesto quase peronista, carregado de narrativa, astúcia e revanche simbólica.

Roger Waters entra como o estrangeiro aliado, o intelectual-artista que reconhece e legitima esse imaginário latino-americano. Embora não seja argentino, sua obra se constrói a partir da crítica ao imperialismo, do questionamento do poder e da denúncia de guerras, muros e autoritarismos. Waters dialoga diretamente com os traumas das ditaduras sul-americanas e com a memória das Malvinas. No mural, ele funciona como uma ponte internacional: o rock como discurso político global que ecoa, em outra linguagem, as mesmas dores e lutas que Evita e Maradona simbolizam localmente.

O que une os três é uma combinação rara e explosiva: um carisma que se transforma em culto, uma relação direta com o povo, o conflito constante com instituições tradicionais, a metamorfose da figura pública em mito e o uso da voz — seja no discurso político, no gol improvável ou na música — como arma política. Nenhum deles cabe confortavelmente em molduras neutras. Todos despertam amor e ódio. Todos ultrapassam seus campos específicos de atuação e entram definitivamente no território da memória coletiva.

A própria composição do mural reforça essa leitura. Ele lembra um retábulo ou uma fachada sacralizada, com três retratos dispostos em nichos, olhares frontais e um evidente clima de veneração. Não se trata de acaso. O mural transforma política, futebol e rock em uma espécie de religião civil latino-americana, onde o sagrado não está na perfeição, mas na intensidade, na entrega e no risco.

Em síntese, Evita é a origem do mito, Maradona é o corpo em transe e Waters é a consciência crítica que ecoa de fora. Juntos, eles formam um verdadeiro panteão da desobediência popular.

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