FLOR DO MAL: O PODER DA CONTRACULTURA

O Poder da Flor
Por
Patrícia Marcondes de Barros


O mal da Flor é ser um jornal, por isso existe sua mistificação, assumindo e queimando no próprio fogo que apaga a última pala travada nos dentes da máquina, que bate, bate e está presente sem natal, pois todo dia é natal, e nem todo dia tem panela na sopa. Quem diria que o pato é macho? Se tem barata embaixo do tapete? É mato, batalhões na dispensa, milhares nas bocas de lobo, centenas nas varandas tomando sol de lombra, procurando uma psidelinha. Ainda assim voam pra cascalho. Mas voltando ao assunto anterior, alguém bate na porta, eu não quis abrir e me distraí novamente no barato da barata que está aqui mentalmente, enormemente, fatalmente, despudoradamente anunciando a flor do mal. Chega de falar mal da Flor, mas era indispensável, no esclarecimento do assunto, proposto, cordialmente, pela casualidade do personagem tão mal compreendido pelo vulgo verdadeiro, o diabo.
(Luiz, André. A Flor do Mal. A Flor do Mal, no. 03, O Pasquim Empresa Jornalística, Rio de Janeiro, 1971,p.05)

O jornal intitulado  Flor do Mal foi fundado em 1971, por Luiz Carlos Maciel e pelos poetas Tite de Lemos, Torquato Mendonça e Rogério Duarte. Seu “desabrochar” se deu em plena asfixia imposta pela ditadura militar, principalmente com seu recrudescimento em 1968, com o Ato Institucional de n° 5.

Nesse momento de cerceamento de liberdade, a imprensa alternativa se constituiu em forma de resistência; sejam os alternativos de cunho meramente políticos, ligados aos esquerdistas ortodoxos ou daqueles, genericamente rotulados de contraculturais. Esta imprensa se caracterizou pela efemeridade e, portanto, grande parte da mesma permaneceu no anonimato ou foi divulgada em círculos restritos. No Brasil, esses impressos se relacionaram com uma forma dissidente de discurso contestador a ditadura, chamado, por muitos, de “desbunde”, com conotação provocativa para os conservadores, tanto da direita militar como também os da esquerda ortodoxa. A ampliação do conceito de política, estendendo-a ao corpo e a crítica às instituições, perpassou as questões da materialidade, da luta de classes, preconizada pelo discurso militante. Essa “nova visão” se associou a uma versão brasileira do movimento hippie norte-americano, pautada no individualismo e no subjetivismo. 

Editada pelo Pasquim Empresa Jornalística SA, teve como editor responsável, Sérgio Cabral, que cumpria então uma promessa feita na época em que foi preso pelo regime militar, junto a Luiz Carlos Maciel, em 1971. No calor da hora, frente ao sentimento de solidariedade entre presos, Maciel solicitara a Cabral, apoio ao desenvolvimento de um projeto de cunho especificamente marginal, diferente do que desenvolvera no Pasquim com a coluna Underground (1969-1971), de cunho informativo sobre os movimentos contraculturais no mundo. Segundo Maciel, O Pasquim era um alternativo, porém de caráter tradicional, feito por jornalistas, e que por isso mesmo ansiava experimentar (verbo inerente a contracultura) fazendo um projeto de jornal de caráter totalmente poético e fora dos padrões estabelecidos. 

O principal objetivo com a Flor foi dar voz aos artistas jovens, de vanguarda, contraculturais, aos “malucos” que não eram aceitos em nenhum órgão de imprensa. Quem escreveu na Flor foram os próprios – Tite de Lemos, Torquato Mendonça, Rogério Duarte e Luiz Carlos Maciel – fora as pessoas que eles conheciam, “antenadas” com as idéias contraculturais, entre eles: Antônio Bivar, Joel Macedo, Waly Salomão, José Simão, Antônio Capinam, Célia Maria e amigos da clínica psiquiátrica que Rogério conheceu quando estava internado. 

Para a Flor, não houve projeto gráfico definido e a proposta do produtor de arte, Rogério Duarte, foi fazer com que todos os textos dela fossem escritos à mão, o que demandaria uma equipe de calígrafos, como os da Idade Média.

A fotografia, que ilustrou o primeiro número foi encontrada, por Torquato Neto, no chão da redação do jornal Última Hora, pisoteado. É a foto de uma menina negra sorrindo, despida da barriga para cima, representando a pureza espiritual a que ansiavam. A Flor durou apenas cinco números, com a tiragem de 40 mil exemplares dos quais vendeu-se a metade.

As matérias que compunham o impresso abordavam arte, cultura e comportamento, e eram relacionadas à “nova visão”: antipsiquiatria, sexualidade, orientalismo, teatro, drogas, astrologia, entre outros temas pertinentes a contracultura. 

O público-alvo da revista, segundo Maciel, era “uma meia dúzia de gatos pingados”, geralmente taxados de “loucos”, “hippies”, “desbundados”, entre outros estereótipos de quem não era apenas contra, mas também de quem não queria participar do estabelecido, ansiando inventar seu próprio meio de expressão. 

Da Flor Do Mal outras iniciativas nasceram, no que resultaram em diversas matrizes contraculturais, tendo como eixo comum, a luta pela produção e difusão independente da informação, desvinculando-a dos esquemas oficiais, comerciais e institucionais. A luta ideológica se deu através das formas de linguagens, do caráter da experimentalidade que se estendeu na poesia, nas artes plásticas, na música, no comportamento e, conseqüentemente, em novas formas de ser, sentir e pensar de uma geração. Este foi o “mal” da Flor...

 

Professora do Curso de Comunicação Social da FAG. Doutora em História Cultural (UNESP).


COMENTÁRIO

Rogério Duarte foi à Companhia de Disco, senão me engano Philips, solicitar patrocínio e talvez o próprio André Midani, ao ver os manuscritos da Flor Do Mal disparou:

- Coisa hippie? Tô fora! Assim era tratado o pessoal desbundado.

Foi isso que Rogério Duarte me disse! (Mário Pazcheco)

 

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