NO CENTENÁRIO DE JACK KIRBY, O REI DOS QUADRINHOS É ENTREVISTADO POR WILL EISNER

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Jack Kirby começou jovem no estúdio Eisner & Iger. Fez dupla com Joe Simon na Era Dourada dos Comics. Deu força à Marvel Will Eisner entrevistou Kirby em San Diego, durante a convenção de 1982. Kirby morreu a 7 de fevereiro de 1994, e Will Eisner, criador do “Spirit” morreu a 3 de janeiro de 2005, aos 87 anos.

 

Eisner: Jack, nós trabalhamos juntos no estúdio Eisner & Iger... 1937-38, certo?
Kirby: Levei comics a sério por trabalhar para Eisner & Iger, porque eles eram sérios. Acreditavam que era um trabalho válido. Eu não passava de um garoto de rua, naqueles tempos.

Eisner: Eram tempos difíceis para encontrar artistas do gênero, com experiência. Eu contratava quem pudesse desenhar. Você tinha trabalhado para alguém antes de nós?
Kirby: Para Max Fleischer. Fiz animação. Tinha 17 anos e meio. Trabalhava numa mesa de 60 a 90 metros de comprimento. Era uma fábrica. Associei isso ao trabalho do meu pai. Não queria ser como ele. Queria minha individualidade. Acho que as gerações veem as coisas diferentes das anteriores.

Eisner:  Vejo que você queria quebrar um elo.
Kirby: Queria cair fora do gueto. Nasci no baixo East Side de Manhattan. Essex Street. Cresci na Suffolk Street...

Eisner:  Nasci na vizinhança da Williamsbridge ... Não era longe do seu...
Kirby: Era East Side, território do John Garfield ... (N.do E.: John Garfield é um grande ator norte-americano)

Eisner: Bem, você é o John Garfield dos comics (riem).
Kirby: ... território de Edward G. Robinson. Os filmes eram meu refúgio. O lugar não tinha nem espaço para jogar bola. Muita gente. Lembro que passava minhas férias em escadas de incêndio.

Eisner: Nossos passados são similares. Mas, deixou Impressões diferentes em nós. Você ficou revoltado. Eu era... tolerante.
Kirby: Eu não gostava do gueto e tinha medo. O gueto deixa marcas pela vida toda. Não sei se chamo isso de cicatriz ou experiência.

Eisner:  Acho que é experiência.
Kirby: Olhando para trás, até concordo. Mas, tinha tanto medo que, de forma imatura, fantasiava em sonhos um mundo mais realista que a realidade em torno de mim.

Eisner: Você tinha consciência que a raiva e a espécie de força no seu desenho é um reflexo direto disso?
Kirby: É, penso que a raiva pode salvar a sua vida. Penso que a raiva pode dar uma direção na sua vida. Acho que os gangsters devem ter o mesmo tipo de direção, exceto que foram para um lado diferente. Quando Fleischer mudou os estúdios para a Flórida, minha mãe não me deixou ir.

Eisner: Ah! Minha mãe não me deixou trabalhar no teatro ambulante como cenógrafo porque era "uma vida terrível". (Risos)
Kirby: Eu queria ir para Hollywood. Sonhava em ser ator. E minha mãe não me deixou ir. A depressão estava no auge, e o que você trazia para casa contava. Ela tinha medo de perder contato. Ela precisava comprar comida.

Eisner: Eram dias que as famílias esperavam que todos contribuíssem. Eu vendia jornais e aqueles poucos dólares facilitavam uma mesa respeitável nas noites de sexta (risos).
Kirby: Dei uma ideia do tipo de garoto que eu era.  Eu também vendi jornais.

Eisner: Eu vendi os meus em Wall Street.
Kirby: Eu era bom para vender jornais.

Eisner: Eu também. Mas me complicava dando troco na hora do rush. Eu conseguia US$ 3,50 por semana e isso era um dinheirão em 1934.
Kirby: Você era mais paciente.

Eisner: Bem ... voltemos a Eisner & Iger.
Kirby: Tínhamos uma relação profissional. Claro, nós éramos amigos.

Kirby: Bem, lembro de admirar você e Jerry (Iger) pelo fato que eu admiro qualquer um que é bom profissional. Qualquer coisa que você tivesse me pedido para fazer, eu teria feito, porque eu sentia que estava aprendendo algo. Queria aprender a ser bom para nunca mais voltar para aquele gueto. Se você tivesse me dito para marchar até a Rússia, eu teria ido.
Eisner: Lembro que tínhamos um bom relacionamento. Você, eu e Lou Fine.

Kirby: Sempre achei que você era o tipo de cara que eu podia aprender algo...
Eisner: Quero dizer entre parênteses e para publicação que não paguei Jack para dizer isso (risos).

Kirby: Digo isso de verdade. Certa vez, encontrei com alemães da SS. Eles eram profissionais e eu senti que para sobreviver na guerra eu tinha que ser como eles. Mas eu não era. Eles eram profissionais no combate e eu sabia que só poderia vencê-los se fosse como eles.
Eisner: Você tocou num ponto fascinante.
Kirby: Em suma, eu queria ser como Will Eisner e Jerry Inger. Eu lembro da nossa sala. Sua mesa era perto da minha. Você desenhava em papel já com o requadro feito.

Eisner: Você se engrenava com Lou Fine? 
Kirby: Não, nunca me engrenei com ninguém. Mesmo depois, na minha longa parceria com Joe Simon, eu era sozinho.

Eisner: Como (Jerry) Siegel e (Joe) Shuster... (nota do Editor: Os criadores do Super-Homem).
Kirby: Como eles. Nós não éramos apenas parceiros, mas profissionais que procuravam realizar um produto vendável. E eles vendiam.
Eisner: E como!

Kirby: Tínhamos uma relação profissional. Claro, nós éramos amigos. Mas tínhamos passados diferentes. Joe era da classe média e eu nunca tinha conhecido alguém da classe média.  Admirava o pai de Joe porque ele parecia um político e os políticos no meu bairro tinham poder. Ele era um tipo que mandava homens por aí com $5 para conseguir votos. Lembro de um sujeito que veio dar $5 para o meu pai votar no Partido Democrático. Na mesma semana, eu estava em uma aula de Civismo na escola e me disseram que isso era errado e que eu deveria ter jogado o sujeito escada abaixo. (Ri) Eu achei que ele estava corrompendo o meu pai.
Eisner: Lembro de ter visto muito disto no condomínio que eu vivia.
Kirby: Nós estávamos tentando nos descobrir.

Eisner:
Naquela época você já era um artista realista, bom demais. Lembro de seus desenhos para O Conde de Monte Cristo.
Kirby: Eu trabalhava duro. Não só para mim mesmo, mas achava que tinha que produzir uma boa revista para você.

Eisner:  Você era sério e eu gostava disso. Vamos falar de estilo e técnica. Você estudou?
Kirby: Eu fui para um lugar chamado Education Alliance, apenas por um dia. Me mandaram embora porque eu desenhava depressa demais.

Eisner: Você desenhava bem, tinha estilo.
Kirby: Acredite, era um processo agonizante para mim.

Eisner: Era? Parecia tão fácil, você era tão rápido. Você se baseava num livro de anatomia?
Kirby: Não, eu era muito observador. Observava os gangsters e os tiras.

Eisner: Você se baseava em alguma coisa?
Kirby: Sim, eu tirava idéia dos filmes. Acho que fui criado pela Warner Bros. Eu via o mesmo filme sete vezes e minha mãe ia me tirar do cinema. Eu acho que o naturalismo e o drama nos filmes me influenciaram.

Eisner: Você trabalhava com pena e tinta e depois mudou para um pincel. Seu lápis era detalhado.
Kirby: Sabia que não queria ser um Leonardo da Vinci, mas adorava quadrinhos e queria ser melhor que os outros dez.

Eisner: Você estudava o trabalho dos outros? Como Caniff, por exemplo?
Kirby: Eu via (Hal) Foster. Amava a fluidez de Alex Raymond. Ele tinha uma naturalidade nas suas figuras que eu amava. Caniff tinha um jeito de usar sombras que eu gostava. Eu canibalizava ao extremo que eles eram a minha escola. Eu ainda acredito que um homem é uma escola para outro.

Eisner: Bem, você sempre teve uma espécie de dinamismo que até agora é inerente a tudo que você faz.
Kirby: E posso afirmar que isso veio do medo...

Eisner: É um ponto importante. Não sou psicólogo, mas é uma motivação compreensível.
Kirby: Tinha medo de falhar. Medo de ser medíocre.

Eisner: Ok, vamos em frente. Você deixou o estúdio amigavelmente? Foi para a Fox. 
Kirby: Fui e não respeitava (Victor) Fox como um profissional. Era apenas um patrão.

Eisner: Fox não parecia Edward G. Robinson?
Kirby: Ele era Edward Robinson. Ele se achava o "Rei dos Quadrinhos". 

Eisner: Ele era um homem de negócios. Tinha vindo deWall Street.
Kirby: Negócios para mim era um território estrangeiro.

Eisner: Você alguma vez pensou nos quadrinhos como uma forma de arte, do jeito que o escritor pensa a literatura como uma obra de arte?
Kirby: Era apenas o meu jeito de ganhar a vida. Você faz suas próprias inovações. Essa é uma das razões pelas quais eu acredito no povo.

Eisner: Você diria que aprendeu muito imitando os outros?     
Kirby: Odeio dizer isso, mas somos macacos.

Eisner: Hummm ... Interessante!
Kirby: Se nós desenhamos, queremos fazer melhor que os outros?

Eisner: O que realmente nos move?
Kirby: Comportamento. Fazer ou tentar coisas. Tomar decisões.  Eu acho que o quadrinhista é um tomador de decisões.

Eisner: Boa idéia. Ele está tomando decisões enquanto faz o lay-out.
Kirby: Está e se não parece bom, muda. E assim ele se transforma em um profissional.

Eisner: Você quer dizer uma espécie de conquista. Algo para dizer ao mundo?
Kirby: Não tenho nada para dizer ao mundo.

Eisner: O motivo então é o mesmo do atleta?
Kirby: Sim. O atleta faz a mesma coisa. O artista gosta de estilo. Eu reconheço um desenho seu de longe.

Eisner: Talvez nós tenhamos influenciado alguém.
Kirby: Eu não acho que influenciei ninguém.

Eisner: Mas você foi      um modelo para alguém.
Kirby: Mas já fui um anônimo, um zero. Mas eu não queria ser um zero.

Eisner: Então você está me dizendo a diferença do Jack Kirby do East Side e o Jack de hoje?
Kirby: Estou dizendo que hoje tenho um conhecimento para responder para qualquer um.

Eisner: Você se refere à sua arte, seu desenho ou sua composição?
Kirby: Joe e eu fomos os primeiros a criar os quadrinhos românticos.

Eisner: Nessa série e isto é muito importante, o que você fazia e o que o Joe fazia?
Kirby: Nós discutíamos, mas na maioria das vezes eu escrevia a história.            

Eisner: O diálogo também?
Kirby: História e diálogo.

Eisner: Joe me disse que não tinha muita certeza disso, mas então era você que escrevia a maioria das histórias.
Kirby: A função de Joe era negociar com os editores. Ele era mais alto que eu. Eles não me levariam a sério. Além disso, era repórter do Syracuse Journal. Eu admirava tremendamente Joe por causa disso, Admirava ele por ter estudado, por ser da classe média.

Eisner:  Minha relação com lerry Iger era o contrário. Ele era um  bom vendedor e eu era tímido. Ele era baixinho e treze anos mais velho que eu.
Kirby: Ele tinha jeito para negócios.

Eisner: É. Ele arrumava fregueses. Mas voltemos ao romance. Você escrevia e Joe vendia. Mas ele também desenhava.
Kirby: É. Ele desenhava. Joe é um grande artista. Além disso, é um dos melhores letristas que já vi. Fazia belos anúncios.

Eisner: Ele ainda desenhava para publicidade.
Kirby: Ele é um profissional completo.

Eisner: Então na série de romances, você escolhia uma história...
Kirby: Às vezes juntos. Mas isso não preocupava Joe, Ele queria um bom produto para vender aos editores.

Eisner: Então vocês escolhiam a história e vocês começavam a escrever. Inclusive os balõezinhos e o lay-out?
Kirby: Eu tinha facilidade para escrever.

Eisner: Você fazia o lápis e o Joe passava a tinta?
Kirby: É. Joe passava a tinta e fazia o letreramento.

Eisner: Você fazia os balões primeiro e depois o lápis?
Kirby: É.

Eisner: Como eu disse para você fazer na Eisner & Iger (risos).
Kirby: Nunca desviei disso.

Eisner: Lembro que o seu lápis era muito detalhado e qualquer um podia passar a tinta nele.
Kirby: Meu lápis era meticuloso. Além disso, nós ficamos conhecidos como "o gatilho mais rápido do Oeste".

Eisner: A dupla Simon & Kirby é uma combinação clássica como Siegel & Shuster.
Kirby: Certo. Na verdade isso mudou mais tarde quando você foi para a Marvel e Stan Lee. Mas isso fica para depois.

Eisner: Você acha que Joe mudou seu estilo para se adaptar ao seu?
Kirby: Não dava tempo.

Eisner: Na verdade, naquela época nós éramos como fábricas.
Kirby: Nós fabricávamos depressa porque eles precisavam vender revistas rápido e constantemente. E elas vendiam muito bem.

Eisner: Joe disse que vocês eram o número dois e três no mercado.
Kirby: Oh, nós éramos mesmo quando os super-heróis apareceram no mercado.

Eisner: Qual foi o seu primeiro super-herói?
Kirby: Capitão América.

Eisner: Para quem você fez?
Kirby: Para a Atlas. A Atlas ainda não era a Marvel. Stan Lee não tinha aparecido ainda. Ele veio depois; ele era jovem, lembro dele sentado na minha prancheta e tocando flauta, interferindo no meu trabalho.

Eisner: É mesmo? Joe Simon disse que tinha empregado ele como office-boy.
Kirby: É. Eu era sério no meu trabalho e Stan nunca foi sério a respeito de nada. Era muito jovem.

Eisner: Vamos voltar ao Capitão América. Era a mesma fórmula? Joe chegou a fazer algum lápis?
Kirby: Não, nunca.

Eisner: Ok, eu queria apenas ter certeza.
Kirby: Às vezes, eu passava a tinta.

Eisner: O relacionamento entre vocês dois era mais uma parceria de negócios do que literário, certo?
Kirby: Era realmente uma parceria de negócios.

Eisner:
Não era uma relação intelectual.
Kirby: Ele era classe média e eu um garoto de rua.

Eisner: Ainda bem que você não é meu irmão mais velho.
Kirby: Nós precisávamos um do outro.

Eisner: Joe mencionou que vocês moravam perto de Long Island.
Kirby: Isso foi depois. Estou falando do comecinho. Melhorei muito. Eu me intelectualizei.

Eisner: Iger e eu não tínhamos relação intelectual. Ele era só negócios! No estúdio eu tinha diálogo com artistas como Lou Fine.
Kirby: Quando menino, eu tinha afinidade com um amigo que foi baleado e sua mãe se suicidou.

Eisner: Oh, isso é terrível, deve ter te marcado. Voltemos ao Capitão América.

(Este bate papo estava planejado para continuar numa das próximas edições de  “Will Eisner’s Spirit Magazine” que era editada pela Metal Pesado. Acredito que  esta revista tenha ficado apenas no primeiro número (1997) e a entrevista nunca foi publicada na íntegra em português).

 


 

 

 

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