Para o Glauco e para a nossa geração aqui de Brasília

Glauco Villas Boas na arte de Sampa nas décadas 80/90

Desenhos no palco do Do Próprio Bol$o - foto: Sandro Alves

 

Os desenhos da imagem acima não foram feitos por Glauco Villas Boas.  Tento, a todo custo, usar aqui sempre imagens feitas por mim ou por amigos. Quem municiou a pintura deste palco  Do Proprio Bol$o foi Mário Pazcheco. Não sei exatamente quem é o autor desse desenho, desconfio que é a filha do próprio Mário, Luiza. O fato é que essa imagem é para o Glauco!

Dentre os vários grupos que adolesceram nos anos 80, temos aqui em Brasília – e pelo que me consta pelo Brasil afora – uma geração que floresceu, em larga medida, sob a influência de manifestações artísticas que vinham de São Paulo. Arrigo Barnabé, Paranaense como Glauco Villas Boas, chegou aos nossos ouvidos com o seu Clara crocodilo bem no começo da década. Me lembro de comentar lá no colégio Objetivo, em 1982, com os colegas, sobre um cara que tinha o nome parecido com o de um ídolo da rádio AM caipira do interior, “Barnabé”. E não é que a linguagem musical do cara incorporava elementos da cultura oral do rádio? Isso me lembrava O bandido da luz vermelha de Sganzerla e me agradava muito. Na matéria sobre Arrigo ele falava sobre a Tropicália, o que agradava então mais diretamente, mais explicitamente.  Arrigo foi o componente da chamada Lira paulistana que mais se apresentou em shows aqui em Brasília; eu mesmo fui a quase uma dezena de shows do Arrigo nos anos 80.

Entretanto a influência de Sampa sobre a minha geração brasiliense não parava por ai. Itamar Assumpção que havia chegado junto com Arrigo se apresenta aqui em uma temporada de poucos shows no teatro da Escola Parque, se não me engano, no ano de 1983. Foi uma grande leva de paulistas da música se apresentando na escola parque, só o Arrigo não veio nesse pacote. O nome da produtora desses shows me foge agora, mas prometo pesquisar ou me lembrar e postar aqui futuramente. O Show do Premeditando o Breque e o do Itamar Assumpção e Isca de polícia foram, para mim, os mais marcantes. Mais tarde tivemos Eliete Negreiros e outros da Lira que me fogem agora à memória.

Antes de tudo isso, se não me engano, em 1981, no Viva alternativa, evento produzido pelo saudoso e incrível Ary Pára-raios, ouvimos, de fora de Sampa, muito Jorge Mautner. E de São Paulo curtimos várias apresentações de Aguilar e a banda performática. O que vinha do Rio era sempre visto por nós como culturalmente mais superficial e etc. Não éramos muito extremistas. Lembro-me do Capeta (Marcos Tadeu) apresentando prá rapaziada do C.0 (a moradia estudantil da UnB) um disco pirata da banda carioca Blitz com o sensacional Esquizofrenétic Blues. Fasto Faucet também foi muito curtido por aqui, no cerrado do DF.

Nos meados da década uma nova chuva de boa arte vinda de Sampa desabou sobre Brasília, e sobre todo o País. A influência de revistas de quadrinho (HQ; Gibi; banda desenhada e etc) vindas de São Paulo sobre a minha geração, sobre mim e meus amigos e muitas pessoas da minha idade foi muito grande. O que Angeli, Laerte, Glauco, Pelicano (irmão de Glauco), Luis Gê e outros faziam encontrava uma acolhida sem precedentes em certa fatia sociocultural dos jovens de fins dos anos 80 e início dos 90.

Via o americano Crumb e outros, sentia-se na arte desses quadrinhistas uma atmosfera que fazia um bom tempero com o olhar de um Kafka sobre o mofo da sociedade do século XX, absurda e cheia de labirintos burocráticos e políticos dos mais vorazes, dos mais cruéis com suas vítimas: o homem “comum”, o cidadão para quem supostamente todo essa maquinaria hipócrita teria sido construída. Lá atrás no tempo víamos Nietzsche e Schopenhauer. Ali estava também Henfil e muitos outros megatons de força artística brasileira.

A obra de Angeli chegou primeiro. Mas não tardou aterrisar sobre minha cabeça machadiana (eu lia muito Machado de Assis e Albert Cammus) o traço um tanto quanto fotográfico de Glauco. Sim, fotográfico porque transpunha de forma genial para o desenho a cronofotografia de francês Marey, um pré-cinema. Como o Nu descendo a escada de Marcel Duchamp, o Geraldão de Glauco era acelerado imageticamente, representava em um único “frame” vários momentos. Era uma temporalidade satirizada no traço de Glauco, não era algo sério e questionador como o famoso quadro de Duchamp, o tônus era humorístico, escancaradamente humorístico. E eram escancaradas as risadas que dávamos.  Glauco esteve entre esse grupo de, como se dizia mesmo? Ah! Sim, Cartunistas que nos presentearam com obras que vieram ao encontro de nosso arcabouço existencial que se formava. Uma perpectiva niilista, uma visão mordas e satírica da condição de uma fatia sociocultural que era justamente a nossa. Parecia que eles nos conheciam e desenhavam e escreviam para nós. E não deixa de ser exatamente isso, pois eram artistas-comunicadores, como era necessário e normal ser na era das mídias (que vem depois da era das comunicações de massa e antes da era do pós mídia, da internet e seus arredores).

O casal Neuras me atingia particularmente por brincar o tempo todo com a fratura exposta do meu conservadorismo monogâmico. Fazia supurar o paradoxo latente em mim que contrapunha dialeticamente a monogamia à poligamia. Eu ficava completamente perdido, confuso e, sobretudo, eu ria muito, muito mesmo de toda a fragilidade, estupidez e contradição da minha constituição moral no que se referia às relações conjugais.

O Geraldão tinha a ansiedade dos nossos tempos expressa no traço de uma maneira que não se podia deixar de ver que vinha de Henfil e, simultaneamente, era impossível deixar de ver que era original, nova e forte; atingia e comunicava de uma forma tal que só a melhor arte é capaz.

Só consegui escrever algo sobre o Glauco hoje. Ainda estou com a imagem dele, que está saindo direto na imprensa, me sufocando, me angustiando, me lembrando a morte de Lennon. Outro covarde matou outro gênio e agora se promove fazendo caras e bocas para as fotos nas quais posa por detrás das grades. É realmente sufocante, angustiante, muito triste.

Agora, com a sua licença, vou ali, espocar a cilibrina!

 

Sandro Alves Silveira além de fã da "Chiclete com banana" (não a banda) é repórter fotográfico

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