1999: Wanderley Lopes: Senhor de si mesmo

 

Senhor de si mesmo

(Wanderley Pinho Lopes)

"Saí do sertão da Bahia um dia, com 11 anos, pensando em ser marinheiro. O mar me fascinava e, todas as noites, costumava olhar o horizonte azul lá longe e me sentir numa galera, em alto mar. De lá pra cá a vida tem-se encarregado de me atirar às ondas da existência, em turbilhões. Nunca pestanejei duas vezes para seguir o caminho do Tão, isto é, caminhar em cima do fio da navalha. De vendedor de cabritos, aos 11, jornalista, aos 17, assessor do governo, aos 22, guru de macrobiótica, aos 24, saniasin, aos 28 anos, finalmente me atiro aos braços do desconhecido em busca de mim mesmo.

"Durante cinco anos fui discípulo de Bhagwan Shree Rajneesh e agora deixo de sê-lo para ser mais ainda: senhor de mim mesmo, que é o significado da palavra swami, título que o Mestre me deu na Índia, quando lá estive. Sou profundamente grato a ele pelos métodos de fricção a que me submeteu, ensinando-me a viver aqui e agora o absolutamente novo de todo instante, como também sou grato a Jesus, quando me tocou com o 'Perdoai o teu 77 vezes 7 vezes'. Sou grato também a Michio Kushi, o mestre da macrobiótica, que me abriu vários caminhos na estrada do infinito; a Leanza Del Vasto, que me mostrou o caminho da não-violência e de que o pequeno é belo; a Krishnamurti, que me abriu os primeiros chakras para aceitar a dor; aos pretos velhos da Bahia que me mostraram ainda cedo o som dos atabaques e do canto de Ogum para despertar a consciência; aos primeiros amigos que me dera um 'baseado' para sair fora da minha estreiteza mental; aos hippies de todo o mundo que me ensinaram o caminho da paz e do amor, das roupas coloridas, da renúncia ao supérfluo; a São Francisco de Assis que me encheu o coração, afirmando 'É dando que se recebe e é morrendo que se renasce para a vida eterna'".

*Página 3 – revista TRANSE, jan. / 1983. Nossa homenagem ao saudoso Wanderley Lopes, também editor do jornal “Fogo Cerrado”!

 

Wanderley Lopes: refém de armadilha

(Correio Braziliense*)

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Wanderley Pinho Lopes: espanto na cara!

Dentro do equipamento que mantém vivo o jornalista Wanderley Pinho Lopes, 50 anos caberia exatamente o que o fez chegar bem perto da morte. No diâmetro do aparelho de traqueostomia - tubo de metal que é incrustado na garganta para permitir a respiração de um paciente sem condições de respirar sozinho - um cigarro se encaixaria perfeitamente.

Só que, depois de 30 anos fumando no mínimo um maço de cigarros por dia. Wanderley quer - e precisa - ficar longe do tabaco. O aparelhinho para respirar está ali para salvá-lo do câncer que quase destruiu sua laringe. Enquanto estiver com o aparelho, os lábios de Wanderley servirão para que seus interlocutores tentem ler as palavras expelidas pela garganta.

De três meses para cá, a capacidade de respirar do jornalista foi diminuindo, diminuindo, até que acabou. O tumor maligno na laringe, detectado no início deste ano, cresceu rapidamente e invadiu o espaço por onde deveria passar o ar para a boca e o nariz.

Internado há 12 dias no Hospital de Base de Brasília, e com expectativa de ficar pelo menos mais uma quinzena, ele tem consciência de que foi o cigarro que o fez doente. "O fumo é uma armadilha da civilização. Eu até tentava largar, mas a tentação lançada nas propagandas de televisão e a angústia da abstinência não me deixavam", conta Wanderley, o segundo dos seis irmãos não-fumantes.

Descaso

A notícia do câncer assustou mas não surpreendeu o jornalista que, a cada cigarro que acendia, sentia que estava enterrando um pouco da saúde. Foram 30 anos de vício e de descaso com as palavras dos amigos e familiares. "Não dava ouvidos aos conselhos, fumava pelo vício, mesmo sabendo que poderia me prejudicar". Mesmo o pai de Wanderley, pouco antes de morrer há dois meses, gastava as últimas forças insistindo para que o filho largasse o vício.

Há três meses Wanderley deixou de fumar - é a quarta tentativa nos 30 anos de vício Nos próximos dias, enquanto espera o tratamento fazer efeito, ele manterá a guerra diária contra a maior das tentações. Dessa vez, terá que conseguir. É o cigarro ou a vida.

*Correio Braziliense, 30 mai. / 1999.

** Foi Glauber Rocha que sugeriu a Wanderley que viesse para Brasília. Desde os anos 70, Wanderley foi editor do jornal/alternativo "JOU - Jornal Ordem do Universo". Na década seguinte editou, a revista Transe e nos anos noventa criou o tabloide Fogo Cerrado, com espetaculares edições-especiais para o próprio Glauber Rocha ou Torquato Neto, subsídios indispensáveis para qualquer pesquisa relacionada a eles. O engraçado é que Wanderley, o editor do sonho da contracultura - não possuía nenhum número dos jornais editados por ele e passados adiante... Quando nos encontrávamos, ele sempre me pedia uma cópia... Faz treze anos!

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