O CARA QUE URGE E RUGE (2014)


O Cara que Urge e Ruge

por Roberto Gicello Bastos 

Todas as rotas tinham armadilhas e apenas os carteiros regulares as conheciam. Todo dia era a mesma merda, e você precisava estar preparado para um estupro, um assassinato, cães ou algum tipo de insanidade. Os regulares não revelavam seus segredinhos. Era a única vantagem que tinham – exceto saberem seus itinerários de cor. Era de matar para um novato, principalmente para um que bebia a noite inteira, ia para a cama às duas, levantava às quatro e meia, depois de trepar e cantar a noite toda, e quase conseguir sair ileso de tudo isso.

(Cartas na Rua, Charles Bukowski)

A diferença cabal entre minha escrita e a do Mário Pazcheco é que ele – com a originalidade das hélices duplas com CPF e alguma cicatriz escondida – transforma obscenidades em beleza com a facilidade de um Bukowski, enquanto eu, às vezes, fico a balbuciar mentalmente os palavrões, pensando-os e pesando-os, até sucumbir a eles por falta de palavras belas que os substituam. Pazciência.

Mário provou ser possível fazer rock’n’roll com palavra impressa, grafada, sobre a letra fria dos papeis: música gravada, histeria coletiva em alta voltagem psicodélica, frenética, dançante e contagiante, é para tardes no playground do condomínio – o som pauleira decorrente (e concorrente) vem dos parágrafos, grunge, HQ/HD; palavrões têm voz grave; os rugidos cadenciam a antifleuma dos Mutantes, dos Beatles e dos Rolling Stones; miríades de sustenidos, bemóis, síncopes e apócopes na ribalta lisérgica, da flauta hiperbólica de pã-demônio – proparoxítonas regadas no jardim, e relâmpagos onomatopaicos colhidos nos céus do Guará em flor...

“The Answer is Blowin’ in the Wind!” de Bob Dylan – “Roquenrou”, como ouviu dizer um célebre mendigo do Conic, “é altitude”, ou é música impudica dos canastrões invertebrados, doidões e lúcidos. Para Timothy Leary – professor em Harvard nos anos 1960, psicólogo, neurocientista, escritor, futurista, libertário, apóstolo do hedonismo, proponente dos benefícios terapêuticos e espirituais do LSD “roquenrou é atitude”.

Do Próprio Bol$o é um ícone do trabalho artesanal de comunicar. É o primeiro e-zine que eu tenho notícia (ou pelo menos o primeiro notório). E já veio algum tempo depois que Mário publicou Balada do Louco e Aventura sem Dublê, trabalhos que tive a honra e o privilégio de ajudar em sua criação.

Quando nos conhecemos, eu e Mário, nós ainda não tínhamos 27 anos, e ele já andava enredado com o som de suas primeiras palavras que viriam a se tornar letra impressa, como se tivesse pressa de perdê-las, como se seus personagens não alcançassem a luz do sol literário. Escrever é proteger sua existência do anonimato, do esgoto do esquecimento, é proteger-se a si mesmo da finitude das coisas, como uma eletricidade oscilante, por nossa cabeça, por nossos ossos e nossas sombras. Mário escreve pela necessidade imperiosa de dizer “existo”, mas não com a seriedade dos que pensam: “... escrevo, logo existo”, aliás, Mário Pazcheco é bastante cartesiano para a engenharia do texto, a arquitetura, a parte acústica tem começo, meio e fim ajuntados por uma legião de pensadores e poetas onanistas melancólicos que curtocircuitaram o som e as fúrias de nossos tempos.

No quintal do Mário tem futebol, tem agrodelícias, tem amigos e pornochanchada em forma de banda com guitarra, baixo e bateria e tem a orgia dos acordes a vizinhança, com versos iâmbicos e conversas gritadas ao pé do ouvido. No quintal do Mário tem pé-de-manga, pé-de-abacate, pé-de-muita coisa, mas não tem pé-de-cerveja, não tem pede cerveja porque o quintal é o Do próprio bol$o em forma de paraíso. Mas tem teatrinho:

Quem quer feijão? “Eu!” – grita o mudo, com fome.

Quem quer calar? “Eu!” – Grita o eunuco, castrado para cantar em “Nabuco”, de Verdi, no Coro dos Escravos Hebreus.

Quem quer honrarias e homenagens? “Nunca pensei nisso” – Pat Zimmermann responde: – aplausos solitários do Patinho de Borracha na Banheira.

Quem quer condecorações e títulos? “Não sou dado a estas coisas, mas agradeço. Uma vez na vida, pelo menos, se lembram de mim!” – Troça Molly Smith – admoestada pelo lanterninha do teatro.

Quem quer comendas, medalhas e troféus? “Eu quero! Eu quero! Eu aceito, sem nada em troca!” – grita Loretta Lyn vestida de noiva. E todos choram na plateia; os desajustados permanecem impávidos, mudos e indiferentes.

Quem quer uma placa póstuma? O bêbado do Conic se levanta em meio à audiência e diz, com a voz engrolada: “Quero ser cremado e minhas cinzas jogadas no lago Paranoá. Só se pendurarem a placa na ponte Costa e Silva!” – E todos caem na gargalhada; os desajustados permanecem impávidos, mudos e indiferentes.

Obrigado, Mário, por sua generosidade e por seu espírito de inquietude contagiar a todos seus amigos – como o mais puro rock, das cavernas e das tabernas. Para eu escrever isto não sei até agora se precisei escrever libertando as palavras ou me libertando das palavras. Esta parece ser a dúvida que nos move.

 

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